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Rita Carmo

Haverá festivais de música em Portugal este ano? O verão não é igual para todos e há “uma incerteza que corrói”

Ao contrário do que acontece no Reino Unido e em França, Portugal ainda não tem um plano para o regresso da música ao vivo. Há soluções estudadas, como testes covid à entrada dos concertos, mas a situação dos festivais é de “encruzilhada”: a vacinação em Portugal e as viagens internacionais entram na equação. Se tudo fosse possível, nada seria igual – nem sequer os cartazes anunciados. A BLITZ ouviu promotores de festivais e encontrou diferentes níveis de otimismo: há quem acredite no verão e há quem tenha receio de já não ir a tempo

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

“Uma incerteza que corrói.” A frase é de João Carvalho, diretor do Vodafone Paredes de Coura, mas o sentimento é comum aos promotores de espetáculos que falaram com a BLITZ sobre a probabilidade de os seus festivais de verão se realizarem, ou não, este ano.

Ao contrário do que acontece no Reino Unido, onde o Governo de Boris Johnson anunciou um plano de reabertura da sociedade e da economia para os próximos meses, não deixando de fora os festivais, as discotecas e os pubs, em Portugal essa visão de futuro próximo ainda não existe (António Costa prometeu apresentá-lo a 11 de março) e poderá comprometer a realização dos festivais marcados para o início do verão.

É o caso do NOS Primavera Sound, marcado para os dias 10, 11 e 12 de junho, no Parque da Cidade, no Porto, cujo 'destino' deverá ser anunciado em março. “[Temos de ter em conta] o período de preparação do festival e o período em que as bandas exigem respostas”, explica José Barreiro, diretor do festival da Invicta. “Se as outras datas das bandas [do nosso cartaz] começam a ser canceladas, elas não vêm propositadamente ao Porto”, diz o responsável pelo evento que, este ano, tem anunciadas atuações de Tame Impala ou Gorillaz.

“Neste momento estamos numa encruzilhada: podemos confirmar e dizer: 'sim, vai haver festival, para 35 mil pessoas!' e temos de cumprir os contratos, ou seja, temos de pagar o adiantamento às bandas que, se não houver festival, só nos devolverão [o dinheiro] quando houver uma nova data. E esse é um esforço financeiro terrível: ao fim de um ano de pandemia, não acredito que haja alguém com liquidez financeira para correr esse tipo de risco. Ou então damos um pontapé para a frente e 2022 com o festival.”

O NOS Primavera Sound está agendado para 10, 11 e 12 de junho no Parque da Cidade do Porto

O NOS Primavera Sound está agendado para 10, 11 e 12 de junho no Parque da Cidade do Porto

Rita Carmo

“Se fizéssemos uma proposta completamente diferente [com outros artistas], estaríamos a vender gato por lebre e a defraudar as expectativas de quem comprou bilhete para este cartaz”, José Barreiro (NOS Primavera Sound)

A situação pandémica em Portugal não é o único fator a ter em atenção. A disponibilidade das bandas internacionais e a normalização, ou não, das viagens aéreas são outros possíveis impedimentos à realização de grandes eventos.

No ano passado, o NOS Primavera Sound chegou a adiar a sua edição de 2020 para setembro (acabaria, como todos os festivais, por ser cancelado). Este ano, essa hipótese está fora de questão, garante José Barreiro. “Por causa da evolução da vacinação em Inglaterra e nos Estados Unidos, grande parte dos festivais [nesses países] também passou para setembro ou outubro. No ano passado conseguíamos encaixar quase 90% [do cartaz] dali a três meses. Este ano é impossível. Se fizéssemos uma proposta completamente diferente [com outros artistas], estaríamos a vender gato por lebre e a defraudar as expectativas de quem comprou bilhete para este cartaz.” “Temos de decidir até 15 de março, no máximo, o que fazer da edição deste ano”, remata José Barreiro.

“Ainda ontem fechei três bandas internacionais para o festival deste ano. Estou completamente confiante", João Carvalho (Vodafone Paredes de Coura)

Mais otimista está João Carvalho, diretor do Vodafone Paredes de Coura. “Eu acredito que os festivais se façam. Pelo menos os que são mais para o fim do ano. Acredito que Paredes de Coura, por exemplo, se faça: posso dizer que ainda ontem assinei três contratos com bandas internacionais para a edição deste ano. Estou completamente confiante”, assegura. “Se vai ser com restrições ou não, não sei. Embora os festivais, neste modelo de negócio, não se possam fazer com restrições. É impensável pagar um festival se só puder pôr lá metade das pessoas”, admite o promotor minhoto, lamentando a ausência de um plano por parte do Governo e solicitando “decisões rápidas” quanto aos próximos meses do setor.

Ao contrário de José Barreiro, do NOS Primavera Sound, João Carvalho não põe de parte a possibilidade de apresentar o festival em moldes diferentes dos previstos, caso em agosto as viagens internacionais ainda não se possam processar com normalidade.

“Tenho pensado em muitas hipóteses”, reconhece. “Quero muito fazer a edição deste ano de Paredes de Coura. Se me disserem que não é possível fazê-la com os grandes artistas internacionais e que não posso ter 20 mil pessoas [no recinto], temos de encontrar um modelo diferente. Penso diariamente no que se posso fazer”, confessa. “Há uma série de planos não completamente delineados, porque precisamos que a Direção-Geral de Saúde e o Governo nos digam coisas, mas podemos sempre adaptar o modelo do festival."

"O ideal era fazer Paredes de Coura como ele é, e é da parte do Governo que vão surgindo indicações nesse sentido. Ainda esta semana ouvimos que podemos chegar a agosto com imunidade de grupo. Eu estou a trabalhar em Paredes de Coura como se soubesse que se vai fazer. Mas da parte dos artistas também há uma cláusula covid, a dizer que podem não estar presentes, e nós [também temos de salvaguardar] que pode o festival não acontecer. Mas o meu índice de confiança é elevado”, diz o homem forte do festival agendado para os dias 18, 19, 20 e 21 de agosto, com Pixies e Idles no cartaz.

O NOS Alive, de Algés, agendado para 7, 8, 9 e 10 de julho

O NOS Alive, de Algés, agendado para 7, 8, 9 e 10 de julho

Rita Carmo

“O NOS Alive com 5 mil pessoas? Impossível. Nem era o NOS Alive”, Álvaro Covões (NOS Alive)

Álvaro Covões, diretor do NOS Alive e presidente da APEFE (Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos) nem quer ouvir falar das medidas tomadas pelo Governo francês, que determinou que, este ano, os festivais de verão só se poderão realizar com lugares sentados, para uma lotação máxima de cinco mil pessoas. Organizar nesses moldes o NOS Alive, que recebe largas dezenas de espectadores por dia, e que na edição de 2021 conta como nomes como Strokes e Red Hot Chili Peppers, é “impossível”.

“Nem era o NOS Alive!”, exclama. “O NOS Alive tem sete palcos, [teríamos menos de] mil pessoas em cada palco? Nem do ponto de vista financeiro funcionava. Nem o NOS Alive nem nenhum dos grandes festivais que acontecem em Portugal”. Covões dá os exemplos do Rock in Rio (com Foo Fighters, Post Malone e Duran Duran no cartaz, agendado para junho em Lisboa), o MEO Sudoeste (de 3 a 7 de agosto, na Zambujeira do Mar, com Major Lazer e Bad Bunny) e o MEO Marés Vivas (em Gaia, de 16 a 18 de julho, com Anitta e Jessie J).

Sem abrir o jogo quanto ao futuro da edição deste ano do NOS Alive, anunciada para os dias 7, 8, 9 e 10 de julho no Passeio Marítimo de Algés, Álvaro Covões prefere olhar para o exemplo do plano de reabertura anunciado por Boris Johnson, primeiro-ministro do Reino Unido. “Foi a melhor notícia da semana. A segunda melhor foi [a possibilidade] de chegarmos à imunidade de grupo em agosto. A expectativa é positiva”, garante, mostrando-se confiante na criação de bolhas para assistir a espetáculos. “As maternidades funcionam em bolha e funcionam, até os clubes de futebol, apesar de às vezes haver infeções, vivem em bolha”, exemplifica.

Testes à entrada dos concertos: uma luz ao fundo do túnel?

Anunciada esta semana, a hipótese de fazer testes rápidos de covid à porta dos eventos poderá abrir caminho à realização de festivais no próximo verão. Se forem aprovados pela DGS, os eventos-piloto acontecerão em Lisboa e no Porto após o desconfinamento, ou seja, provavelmente não antes de abril, e consistirão na realização de três testes, pelos participantes na experiência: um 72 horas antes do evento, outro à entrada do mesmo e um terceiro uma semana depois.

Segundo José Barreiro, a proposta foi apresentada pela APEFE “em finais de novembro” e, se for para a frente, o custo dos testes deverá ficar a cargo do promotor ou ser dividido com o consumidor. “Se para ires a um concerto tiveres de gastar mais 5 euros, também não vem mal ao mundo. Um teste PCR pode custar 100 euros, mas um teste rápido pode ficar pelos 5 euros. Se for bem explicado às pessoas, acho que é uma questão de bom senso”, acredita.

Fazer um teste para poder entrar num festival de verão poderá ser uma realidade. “Mas têm de ser daqueles de saliva, em que o resultado sai em cinco minutos”, defende José Barreiro. “Testes PCR não me parecem viáveis para festivais, mas há testes mais rápidos que poderiam viabilizar, ainda que com constrangimentos, os festivais. Nisso acredito.”

O diretor do NOS Primavera Sound não crê, contudo, que este modelo esteja em aplicação a tempo da edição deste ano do NOS Primavera Sound e fala de outros eventos marcados para o final da primavera e início do verão. “O North Music Festival, que é no final de maio [no Porto], o NOS Primavera Sound e o Rock in Rio [a partir de 19 de junho] estão neste limbo. Os outros festivais têm uma margem, fruto do calendário, em que podem surgir soluções. Soluções que sirvam a nós não estou a vê-las, infelizmente.”

Onde páram os fornecedores e as empresas de montagens de palcos?

A logística de montar um festival está de braço dado com a agenda dos artistas internacionais, cuja disponibilidade pode fazer ou desfazer um cartaz. “Se tiverem de começar a preparar uma digressão hoje, obviamente não vão para a estrada”, afirma Álvaro Covões. “Por isso é que esta semana a tournée dos Aerosmith foi adiada para 2022: esperaram até ao limite, não conseguiram e tiveram de adiar.” Desde então, também os ingleses Idles, que deveriam tocar no Coliseu de Lisboa em junho deste ano, passaram a sua tournée para 2022; a data em Portugal está prevista para março desse ano.

Mesmo que as bandas tenham o calendário livre, outras questões se colocam, na hora de montar um festival. “Este é um negócio que não se monta do pé para a mão”, alerta João Carvalho. “Ainda esta semana falei com uma empresa que tinha uma área de negócios dedicada aos festivais, e que agora está na construção civil. Não sei se quando precisar deles, espero eu que em agosto, não me vão dizer: 'Agora já não montamos tendas ou palcos.' Isto pode acontecer, e acontece, porque falharam os apoios ao setor da cultura e às empresas que vivem dela.”

Posição semelhante tem Álvaro Covões, que não hesita em falar de uma “tragédia” no setor. “Daqui a um mês vai fazer um ano que esta tipologia de eventos está proibida – é duro. A quebra no setor da cultura, com especial relevo nos espetáculos ao vivo, foi superior a 80% no ano de 2020. Considerando que houve um trimestre quase normal, até março, ter uma quebra de 80% dá para perceber a tragédia que [a pandemia] representou para a economia. É uma tragédia sem precedentes”, repete, mencionando a importância de apoios para um dos setores mais afetados pelo confinamento.

“Nós vamos ser importantíssimos para a retoma, porque a retoma vai dar-se em primeiro lugar com o turismo”, argumenta Álvaro Covões. “Na Europa há muita gente que não sai de casa desde março do ano passado! As pessoas têm uma ânsia de viajar e Portugal vai ser um destino [procurado]. Mas temos de ter motivos para as pessoas virem e nós [festivais] vamos ser um elemento fundamental. Por isso, precisamos de estar vivos e de ter todos os profissionais disponíveis para trabalhar. E estamos a perdê-los. Muitos estão a mudar de vida. Estamos a perder algo que demorou tantos anos a construir.”

“Inglaterra está três meses à frente de Portugal na vacinação. Ainda assim, os festivais [que nos últimos dias confirmaram a sua realização] são os de agosto”, José Barreiro

João Carvalho, que pelo menos uma vez por semana visita o recinto do festival Paredes de Coura (“Imaginar toda a alegria que já transbordou daquele espaço dá-me entusiasmo para passar por este cortejo de miséria”), pensa como Álvaro Covões quanto à importância da cultura, que sente estar a ser menorizada pelo Governo.

“Em Portugal parece que a cultura é uma coisa secundária, quando é um bem essencial para a sanidade mental e para a economia. Somos bem mais tristes e a economia é bem mais pobre sem cultura. Contribuímos e muito para o PIB. Tem de haver mais consideração por quem está nesta área: somos responsáveis por milhares de postos de trabalho e por centenas de empresas que vivem do setor e estamos urgentemente a precisar de medidas”, apela a “cara” de Paredes de Coura.

O Vodafone Paredes de Coura tem datas marcadas para 18, 19, 20 e 21 de agosto

O Vodafone Paredes de Coura tem datas marcadas para 18, 19, 20 e 21 de agosto

Rita Carmo

Por seu turno, José Barreiro espera que o verão traga, pelo menos, a possibilidade de realizar concertos “com distanciamento social e ao ar livre, [contexto] em que a contaminação é muito mais baixa, segundo os especialistas. Permitir que as bandas toquem, que os técnicos tenham trabalho, que as empresas de PA forneçam material. Mas não é solução para festivais”, concede. “Os concertos-teste de que se fala agora em Portugal já foram feitos lá fora e poderão servir para a cultura não parar, com concertos ao ar livre e um verão minimamente saudável. Não basta a praia.” Quanto ao exemplo do Reino Unido, o responsável pelo NOS Primavera Sound não quer deixar de lembrar: “Inglaterra está três meses à frente de Portugal no que toca à vacinação. Podem fazer um calendário mais real, pois sabem quando recebem as vacinas e quando as aplicam. Ainda assim, os festivais [que vão acontecer em Inglaterra] são os de agosto. Glastonbury já cancelou e era depois do NOS Primavera Sound”.

É para agosto, na Zambujeira do Mar, que está marcado o MEO Sudoeste, que em 2019, segundo números da organização, recebeu 157 mil pessoas ao longo de cinco dias. Contactado pela BLITZ, Luís Montez, diretor da Música no Coração (que também organiza o Super Bock Super Rock e o Sumol Summer Fest), não quis prestar declarações, afirmando estar alinhado com as posições da APEFE.