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Pearl Jam a 24 de novembro de 1996, no Pavilhão do Dramático de Cascais

Rita Carmo

Eddie Vedder em Portugal: a primeira vez foi com os Pearl Jam em Cascais... e acabou no hospital

Os primeiros concertos dos Pearl Jam no nosso país, a 24 e 25 de novembro de 1996, foram inesquecíveis. “Profeta Vedder” e “seus apóstolos” ofereceram intensos espetáculos na estreia entre nós, mas o vocalista acabou “tonto e esfarrapado” porque o público não o amparou num 'mergulho'. Esta quinta-feira, Eddie Vedder volta a pisar solo nacional, num concerto a solo na Altice Arena

"Miguel é natural de Beja e frequenta o 2° ano do curso de Português-inglês em Faro. Comprou o bilhete na primeira semana em que esteve à venda e defende, sem hesitar: 'Pearl Jam é um estado de espírito musical. Faz-me sentir bem'. Além da banda de Eddie Vedder, gosta de Stone Temple Pilots, R.E.M., Alice in Chains e Candlebox. Do Cacém para o Dramático de Cascais, vieram Ana Miguel e Sofia, ambas com 17 anos e colegas na secundária Gama Barros: 'Comprámos o bilhete no primeiro dia em que esteve à venda. Logo às nove da manhã!'. Fãs incondicionais das letras dos Pearl Jam, garantem que canções como 'Jeremy' espelham 'exactamente aquilo que os jovens actuais sentem'. As suas bandas preferidas são os Nirvana, os Offspring e, curiosamente, os Blind Zero, muitas vezes apelidados de 'Pearl Jam portugueses'".

Continua assim a reportagem do jornal 'A Capital', edição de 25 de novembro de 1996: "Antes de começar o concerto, Filipe e Nuno, de 21 e 22 anos, enrolam calmamente um 'charro' para 'curtir melhor'. Ambos concorreram para entrar na universidade e ficaram de fora, 'porque o ensino está mal' e não hesitam em dizer que gostam dos Pearl Jam 'porque [eles] são a favor da legalização das drogas leves', onde incluem o haxixe e a erva. Tiago Diogo apaixonou-se pela música dos Pearl Jam porque 'tem aquele som inovador de Seattle' e, actualmente, tem dez CD piratas do grupo. Lisboeta de 19 anos e estudante no 3.° ano de Gestão, acredita que 'metade dos jovens não entende as palavras' de Eddie Vedder: 'Há algumas que são autênticas palhaçadas e há quem lhes descubra assuntos sérios. Para mim, a música é, essencialmente, divertimento e não deve aspirar a ser outra coisa'. Ao lado de jovens como estes, estiveram pré-adolescentes e alguns trintões".

Recorte do jornal 'A Capital', 25 de novembro de 1996

Recorte do jornal 'A Capital', 25 de novembro de 1996

A expectativa em torno dos primeiros concertos dos Pearl Jam em Portugal - 24 e 25 de novembro de 1996 - era palpável. A mesma sala tinha assistido, quase três anos antes, a um concerto 'definidor' de uma geração: o dos Nirvana. Kurt Cobain disse adeus em abril de 1994 e a bandeira de Seattle e do grunge era agora relutantemente içada pelos Pearl Jam, liderados por Eddie Vedder.

Na semana anterior, o jornal BLITZ dedicava a capa à banda que, meses antes, tinha editado "No Code", o quarto álbum de estúdio. Na mesma semana em que o segundo tomo dos ingleses Bush era descrito como um paciente de 'nirvanite', o semanário fazia uma antevisão completa dos concertos portugueses dos Pearl Jam, lembrando que a banda de Seattle não vinha à Europa desde 1993. "Mesmo que Eddie Vedder continue a dizer publicamente que as digressões não são o seu forte", assinala Miguel Francisco Cadete, "é a oportunidade para os ver em cima de um palco desde que se tornaram, realmente, uma banda muito grande, capaz de mover multidões".

O agora diretor da BLITZ assina também um segundo texto, intitulado "A não-imagem", onde defende que "os Pearl Jam, simultaneamente com o culto que lhes é dedicado por milhares de fãs, são hoje o protótipo da banda politicamente correta". Esclarece-se: "A conclusão resulta não tanto das tomadas públicas de posição por parte do vocalista Eddie Vedder - que se manifesta contra a selvajaria de alguns seguranças em concertos, os preços altos praticados pela Ticketmaster ou a favor da legalização da marijuana, do aborto e do stage-diving - mas do posicionamento direto do grupo perante os fãs e indirectamente através dos meios de comunicação social".

Jornal BLITZ, edição de 19 de novembro de 1996

Jornal BLITZ, edição de 19 de novembro de 1996

As dúvidas em redor do 'poder de fogo' dos Pearl Jam ao vivo (instigadas, como vimos, pela própria relutância de Eddie Vedder nesses primeiros anos de percurso) seriam injustificadas. 'A Capital' escreve, abordando o primeiro dos dois espetáculos, que estamos perante um "sério candidato a concerto do ano": "o espectáculo que os Pearl Jam deram ontem à noite em Cascais transformou-se num delírio colectivo", reporta Rita Bertrand.

Para ajudar à propagação do 'mito', o concerto "só terminou quando, duas horas depois de cantar e saltar desenfreadamente, o líder Eddie Vedder subiu à coluna de som e se atirou, em mergulho, para o meio do público enlouquecido. Acabou por sair do recinto numa ambulância, com a cabeça partida, a sangrar", reporta aquele jornal diário. (o caso não seria, aparentemente tão grave, já que no dia seguinte voltou a haver concerto)

"'O man é mesmo passado', comentava-se no final, a propósito do salto de Eddie Vedder, um mergulho de quatro metros que acabou por desencadear uma série de outros voos, directamente das varandas das bancadas laterais. Por essa altura já o público estava satisfeito com duas horas de pura adrenalina, 23 canções tocadas com garra e até um tema improvisado com 'Portugal' repetido em cadéncia pelo próprio vocalista dos Pearl Jam. Depois do voo, Eddie Vedder foi literalmente 'pescado' pelos seguranças e voltou ao palco com a T-shirt completamente rasgada. Despiu o que restava dela, atirou-a para a assistência e saiu de tronco nu, embrulhado numa toalha", pode ler-se.

Palco despido envolvido inicialmente em penumbra, jogo de luz discreto, dois candelabros de velas: assim se estreavam os Pearl Jam em Portugal. Um alinhamento que passou em revista os quatro álbuns da banda, principiado com 'Release e que, no último terço, mandou entrar a a 'artilharia pesada', com 'Even Flow', 'Daughter' e 'Jeremy' a serem apresentadas de seguida. O primeiro adeus seria dado com 'Alive', guardando-se 'Smile', 'Black', 'State of Love and Trust' e 'Porch' para o encore.

Pearl Jam a 24 de novembro de 1996 no Pavilhão do Dramático de Cascais

Pearl Jam a 24 de novembro de 1996 no Pavilhão do Dramático de Cascais

Rita Carmo

Nas páginas do BLITZ, na edição de 26 de novembro, Mónica Guerreiro afirmava ter assistido a um concerto "sem artificialismos fúteis, sem demagogias, sem ambiguidades". "A vida deveria ser como um concerto de Pearl Jam: quase non-stop e repleta de momentos inesquecíveis", rematava a reportagem de uma página, sob título "Profeta Vedder, seus apóstolos & discípulos" e ilustrada com duas fotos dos Pearl Jam ao vivo em Cascais, assinadas por Rita Carmo. Na mesma edição, páginas adiante, escrevia-se sobre "Life Is Peachy", o segundo álbum dos Korn. O radar do rock apontava para outro lado (ao rol dos "líderes da nova geração" são acrescentados, pela pena de António Freitas, os Tool e Marilyn Manson) mas os Pearl Jam (e Eddie Vedder) - sabemo-lo hoje - só veriam o seu estatuto fortalecido nas duas décadas seguintes.