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Dead Can Dance

Dead Can Dance quinta e sexta em Lisboa. “Os fascistas chegam ao poder apontando para um grupo social e fazendo dele bode expiatório”

Banda de Brendan Perry e Lisa Gerrard traz tradição e consciência a dois concertos há muito esgotados. “As pessoas deviam acordar de vez”, diz o vocalista à BLITZ

Banda de culto com mais de três décadas de percurso, os Dead Can Dance aterram esta quinta-feira em Lisboa para dois concertos há muito esgotados na Aula Magna, hoje e amanhã. Tendo editado no ano passado um álbum concetual, “Dionysus”, dividido em dois atos e subdividido em sete momentos, inspirado no mito de Dioniso, a dupla composta por Lisa Gerrard e Brendan Perry traz a Portugal a sua releitura de tradições musicais seculares mas também muita consciência social e política.

Apesar de trazerem na bagagem este novo disco, o mentor do projeto esclareceu em entrevista à BLITZ que os espetáculos não vão assentar no disco: “não quero quebrar o álbum em fragmentos porque foi criado para ser ouvido como um todo, do início ao fim”. Numa longa conversa, Perry falou não só sobre a forma como chegou até Dioniso como sobre o facto de a sua mudança para França ter deixado marca no disco. O problema das migrações, as questões ambientais e políticas que ameaçam o mundo como o conhecemos, a admiração por Anna Calvi e a sua paixão pelo fado são outros assuntos abordados na entrevista que pode agora ser lida.

O que o levou até ao mito de Dioniso e a querer traduzi-lo num álbum?
Esta aventura começou há cerca de dois anos, depois de ler “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música” de Friedrich Nietzsche. Foi uma espécie de revelação. Interesso-me muito pela cultura grega antiga, a todos os níveis, e foi-me recomendado quando andava a estudar teatro e tragédia grega. É sobre o papel primordial da natureza na história da tragédia grega. Nietzsche fala de dois tipos de correntes que concorriam entre si no pensamento criativo grego: o apolíneo e o dionisíaco. O apolíneo é sobre coisas que são medidas pelo intelecto, que toma conta do processo criativo, e o dionisíaco é algo mais primitivo, sobre a sublimação dos sonhos que é libertada através de energia frenética, êxtase. Se se juntarem, em colaboração, em paralelo, o que seja, produzem formas superiores de arte. Foi uma verdadeira revelação ler isso, porque é um pouco a forma como eu via a arte, em muitos aspetos, e a música, certamente. Algo que temos usado de forma dinâmica nos Dead Can Dance, eu e a Lisa. Isso levou-me a querer saber mais sobre Dioniso e essa energia do espírito dionisíaco, portanto li mais três livros e vi muitos documentários. Basicamente mergulhei em tudo o que encontrei sobre ele. No final dessa viagem intelectual, percebi que tinha material suficientemente inspirador para fazer um álbum conceptual.

Depois de tudo o que leu, o que passou a divindade a representar para si? Para a maioria das pessoas será sempre o deus do vinho e das festas…
É muito mais do que isso, sem dúvida. Na minha pesquisa, descobri que, em termos evolutivos, todos os cultos originais que persistem durante tanto tempo vão sofrendo mutações… E quando falamos de Dioniso, estamos a falar provavelmente de mil anos de desenvolvimento, do Dioniso original até à antiga versão romana, decadente, hedonista. São criaturas muito diferentes, com fundamentos muito diferentes. Estou mais interessado na versão mais antiga, agrária, do deus da natureza, das estações do ano, que tinha elementos cíclicos que o povo rural celebrava e venerava.

Em 2015, anunciou a venda do seu estúdio na Igreja Quivvy, na Irlanda… Onde gravaram este álbum? O facto de o terem feito noutro local teve algum impacto na música que acabaram por gravar?
Na verdade, o Quivvy ainda está à venda. Se alguém ler isto e estiver interessado… Mas mudei-me da Irlanda para França há três anos e converti um celeiro antigo no meu novo estúdio. É muito bonito e os arredores também. É uma casa antiga, do século XV ou XVI, e tem um jardim lindo que termina numa floresta que se alonga pelo campo adentro. Temos veados e javalis a atravessar o jardim, às vezes. Sento-me aqui a escrever e a olhar pela janela, para este jardim lindo, e sinto-me abraçado pela natureza. Isso teve um impacto profundo, subliminar, no facto de querer escrever sobre esta divindade da natureza, desta força da natureza.

Regressando a Dioniso e debruçando-nos sobre o facto de ser um “deus marginal”, que protegia “aqueles que não pertenciam à sociedade convencional”… Olhando para o mundo hoje, pensa que essas pessoas precisam da mesma proteção?
Sem dúvida. A razão pela qual temos estes problemas com a imigração prende-se simplesmente com questões económicas. Vivemos num tempo em que os poderes ocidentais são coniventes com a destabilização de certas zonas do globo, que forçaram a migrações por causa da guerra. E são diretamente responsáveis e culpabilizáveis e deviam ser responsabilizados pelos seus cidadãos. Nenhum destes migrantes quer verdadeiramente abandonar o sítio onde vive. É preciso muito medo, de ser morto, assassinado, violado, para que povos migrem em massa. Devíamos, enquanto povos que reconhecem que os seus líderes são cúmplices desses crimes, mesmo que de forma indireta, abraçar e ter uma casa para estas pessoas, para estas minorias. Isso é verdadeira base da caridade e empatia humana. Quando vês estes movimentos de direita que baseiam os seus princípios em questões de raça e secularidade a ganhar mais poder… é chocante. Enoja-me, porque não têm compaixão, só se preocupam com a cor da tua pele ou a etnia dos teus antepassados. Os tempos que vivemos são tristes, verdadeiramente tristes.

Tem acompanhado a situação política no Brasil, por exemplo?
Não muito, mas foi assim que Hitler chegou ao poder, é dessa forma que os fascistas tendem a chegar ao poder… Apontam para um determinado grupo da sua comunidade e fazem dele bode expiatório, transformam essas pessoas no inimigo interno e é assim que ganham o poder. As pessoas têm a necessidade de apontar o dedo quando falam dos seus problemas e de tudo o que está mal na sociedade. Tudo o que eles precisam de fazer é encontrar alguém, uma parte da sociedade, muitas vezes inocente, a quem apontar o dedo, simplesmente para galvanizar o resto do povo contra eles. É patético, é um instrumento político muito antigo e as pessoas deviam acordar de vez.

Li que recorreu à gravação de campo: colmeias da Nova Zelândia, canto de aves no México e Brasil. De todos os países em que já esteve, qual aquele em que se surpreendeu mais com a natureza?
Foram dois, na realidade. A Irlanda, quando era criança. O meu lado irlandês da família dedica-se à agricultura… Foi um contraste gigante: nasci e cresci numa cidade, Londres, onde é tudo cimento, pedra e alcatrão. E nas férias de Natal ou de verão, íamos até à Irlanda e eu ficava embasbacado: era como se saísse de uma prisão de cimento para viver uns dias ao ar livre. Portanto, as minhas memórias são lindas: apanhar sapos no campo com todos os filhos dos vizinhos, nadar nos lagos. Aqueles longos e quentes verões de que nos recordamos quando somos crianças. Depois, quando era adolescente, emigrámos de Londres para a Nova Zelândia… É muito diferente, são florestas húmidas, praias no sul do oceano pacífico, e é um país mais orientado para o mar. Esses dois países vivem em mim. O poder, a beleza majestática da natureza, quando era menos poluída, contaminada, e havia mais espécies de criaturas animais em redor. E não foi assim há tanto tempo.

Diz que “encontramos música em toda a parte”. Já experimentou um daqueles tanques de privação sensorial?
Não! Nunca fiz isso. São tanques de água salgada, portanto ficas a flutuar… E podes escolher a música que quiseres em alguns lugares, também. Suponho que seja o mais próximo que conseguimos chegar de estar novamente no ventre da nossa mãe, de certa forma.

Sempre se interessou, obviamente, em pesquisar sobre tradições musicais, concentrado no passado. Também presta atenção ao que se passa na música popular hoje?
Sim, sem dúvida. É uma coisa estranha… Nos últimos anos vi muitos grupos jovens de músicos a abordar a música de forma meio retro. O que é bom, mas é quase como se as pessoas tivessem perdido interesse no presente. Se vais tentar reproduzir música do passado, invariavelmente o que acontece é que estás a imitar, a reproduzir algo que já foi feito, e não estás a adicionar nada de novo à equação. E podes fazê-lo, mas a única forma de o fazer é não estar tão fechado num nicho, tão orientado para um certo género musical, ter interesses mais alargados. O mais importante é ouvires a tua própria voz, tentar desenvolver a tua própria voz e manteres-te fiel à tua individualidade. Deixem de tentar soar a outra pessoa e ouçam a vossa voz interior que vão soar a vocês próprios. É a maior crítica que tenho a fazer à cena musical atual. Está a olhar demasiado para o passado, é demasiado retro. Mas depois tens artistas como a Anna Calvi, que faz um rock blues visceral… Serás sempre fiel a ti próprio ao fazer algo tão cru, emocional e puro. Não há onde te possas esconder. A Anna inspirou-me muito a voltar a tocar guitarra.

Há cinco anos disse-nos que gostava muito de fado. Estudou a tradição? Gostaria de colaborar com fadista, por exemplo?
Não! Bom… Deixei-me de colaborações. Fiz algumas este ano e algumas foram OK, mas no geral são pouco satisfatórias. Também fiz música para um documentário espanhol sobre a história da cultura hippie em Ibiza. E tens de fazer tantas concessões… O produto final fica muito aquém daquilo que tinhas imaginado. Portanto, sim, tomei a decisão consciente de não fazer mais colaborações. Nunca mais. Mas falando de fado, comprei uma guitarra portuguesa e tentei… A afinação é totalmente diferente de uma guitarra normal… É mais como uma antiga cítara. E entrei um pouco naquilo, mas é uma curva de aprendizagem muito longa e acabei por ser empurrado noutra direção. Nunca investi muito, porque gosto de ser capaz de tocar pelo menos alguns temas tradicionais para tentar chegar ao coração de uma antiga tradição à qual eu estou a chegar de fresco. Neste caso, não aconteceu isso, mas continuo a adorar fado… A poesia, a emoção, os assuntos de que fala.

Mais de três décadas depois de os Dead Can Dance nascerem, ainda tem os mesmos objetivos?
Para ser sincero, só quero estar numa posição em que possamos tocar ao vivo. Gostaria de inverter o paradigma, a metodologia que mantivemos durante tantos anos, e dar mais concertos. A principal razão para não o termos feito prende-se com os múltiplos problemas de saúde que a Lisa teve no passado… Mas parece estar em boa forma, neste momento. Anda a atuar bastante, seja com The Mystery of the Bulgarian Voices, Hans Zimmer ou outros projetos, portanto espero que consigamos usar estes concertos para depois fazer uma digressão mundial em 2020.