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Tara Perdida no Coliseu dos Recreios [texto + fotos]

Em noite de folia, os Tara Perdida estiveram em grande no Coliseu dos Recreios. Concerto eléctrico e... acústico!

Há que aplaudir a audácia dos Tara Perdida que, sendo uma banda de tradição fortemente enraizada na tendência punk rock, arriscam agendar um concerto em nome próprio numa sala como o Coliseu dos Recreios. Por lá já tinham passado, na primeira parte de um espectáculo dos norte-americanos Offpsring, mas agora é que foi a valer. Desta vez a sala não estava cheia, é certo, mas a banda liderada pelo carismático João Ribas assinou uma actuação que vai ficar marcada por muitos anos na memória de quem esteve presente - nem que seja pela energia partilhada entre quem estava em palco e na plateia.

Prova inegável da profunda transformação - ou será profissionalização a palavra mais indicada? - que o colectivo lisboeta tem sofrido nos últimos anos, os Tara Perdida atravessam uma fase da sua carreira em que podem dar-se ao luxo de arriscar assim. A sua carreira de mais de uma década permite-lhes subir ao palco com uma confiança invejável, qual máquina oleada que não vacila perante quaisquer adversidades. A sólida legião de seguidores, que sabiamente foram construindo ao longo dos tempos, ajuda... mas o segredo aqui está na honestidade que os caracteriza - e, de resto, que sempre os caracterizou. Seria, aliás, muito difícil explicar o cenário que se sentiu no Coliseu de outra forma.

Ao entrar na sala torna-se, desde logo, óbvio que a actual legião de "tarados" é composta por três gerações distintas: aqueles que ainda viram os Censurados ao vivo e compraram o primeiro disco quando saiu, aqueles que conheceram a banda naquilo a que se poderá chamar a fase ascendente da sua carreira e aqueles que só os conheceram através dos discos mais recentes. Pode parecer injusto estereotipar assim, de forma tão frívola, a audiência dos Tara Perdida, mas o fenómeno é demasiado óbvio para não se fazer notar. Como que para celebrar o facto de se ter transformado numa verdadeira instituição do punk rock nacional, o grupo preparou para esta ocasião um espectáculo especial composto por três partes. A primeira e a última, eléctricas, tornaram óbvio que o quinteto está a atravessar um dos seus melhores momentos de forma. Com um Ribas mais confiante e competente que nunca ao leme, os cinco músicos destilaram um alinhamento de luxo que percorreu toda a sua carreira e que juntou, lado a lado, êxitos recentes ("3 de Maio", "Pernas P´ró Ar", "Desalinhado") e clássicos como "Zombeis" ou "Até M'Embebedar". Tecnicamente irrepreensíveis - o som talvez estivesse um pouco alto demais e pouco equilibrado, mas a verdade é que ninguém pareceu muito importado com isso - os cinco músicos assinaram uma actuação que só está ao alcance de bandas com muitos anos de estrada.

Até aqui tudo normal, os Tara Perdida sempre nos habituaram a prestações explosivas e esta ocasião não seria excepção. No entanto, foi com a presença em palco do pianista Rui Almeida - já na recta final do espectáculo - que as coisas subiram a um nível mais alto. Sem que nada o fizesse prever, os Tara Perdida sentaram-se e interpretaram quatro temas, um deles inédito, em formato acústico - assumindo assim toda a versatilidade que faz deles uma banda capaz de pôr multidões compostas por três gerações a cantar em uníssono. O final, de regresso à energia que os caracteriza desde 1995, foi apoteótico... e tanto os sorrisos rasgados como os corpos suados que saíam do Coliseu fizeram prova disso.

Texto de: José Miguel Rodrigues Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos