Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Sigur Rós ao vivo no Campo Pequeno, em Lisboa [reportagem + fotogaleria + alinhamento]

Um dia depois de começar a digressão no Porto, banda islandesa traz à capital espetáculo apuradíssimo, sem falhas. E emoções à flor da pele.

Sugestão de leitura: se quiser ir direto ao concerto desta noite, salte uns parágrafos e arranque onde vir três asteriscos (* * *). Mas deixe-se ficar se preferir, um bocadinho antes, dar um saltinho a 2001 (com garantia de regresso).
Sigur Ros - Campo Pequeno
1 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
2 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
3 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
4 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
5 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
6 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
7 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
8 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
9 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
10 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
11 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
12 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
13 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
14 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
15 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
16 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
17 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
18 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Sigur Ros - Campo Pequeno
19 / 19

Sigur Ros - Campo Pequeno

Há quase treze anos o mundo emudecia de espanto com Ágaetis Byrjun, etéreo segundo álbum de uns exóticos Sigur Rós, a primeira "exportação" islandesa depois dos Sugarcubes, de Björk. Para muitos, tratava-se de um momento fundador, uma epifania sem precedentes. Para outros, rezingões, uma modorra sem salvação. Houve quem, amiúde, se referisse à música do então quarteto como algo que seria domínio dos sonhos, terna alucinação, simulacro do paraíso. Estávamos, repetimos, em 2000 e o século XX ainda era um porto seguro, o XXI uma excitante novidade, a Europa um "jogador" a chegar-se à frente, os Estados Unidos uma nação de confiança. Tínhamos futuro. Meses depois, em abril de 2001, os Sigur Rós estacionavam a sua nuvem islandesa no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e o escriba que agora assina estava tão sedento de testemunhar, in loco, o suave milagre desta banda exótica - e desta voz sem género - como qualquer um dos que lotaram, por inteiro, a sala lisboeta. Ahhh, ainda por cima sentado. Provavelmente com umas horas de sono a menos - e algo resignado por pouco de Ágaetis Byrjun estar a ser interpretado pela banda que, já então, procurava fechar parêntesis (o álbum seguinte não tem título; ou tem parêntesis como título, se preferirem) -, o jornalista fechou os olhos e dormitou um daqueles sonos que designa de "soneca de comboio", despertando de trinta em trinta segundos, quando a guitarra de "E-Bow" subia de volume ou a secção de cordas (exclusivamente feminina, quase exclusivamente loura, se bem nos lembramos) se atirava aos limites do épico. Apesar de motivado, certamente, por uma noite anterior muito mal dormida, não pôde o escriba ser mais fiel ao que se gabava da experiência Sigur Rós: cansado da realidade, sonhou também ele numa língua imaginária, num limbo maravilhoso entre o real e a mentira, suspenso na fantasia de uma experiência multisensorial autoinfligida. No final, os aplausos de pé desse lento despertar eram sentidos: fossem assim todas as viagens de comboio, fossem assim todos os concertos, fossem assim todos os discos de estimação. A notícia espalhou-se e os Sigur Rós tratariam de voltar. Eu - perdoem-me a primeira pessoa, mas estar a escrever "escriba" só resulta uma vez - fiquei-me por Ágaetis..., azul digipak, angélico feto na capa, disco de cabeceira de tantas e tantas noites. Pouco depois desse concerto onde, mais do que uma vez, vultos se levantaram na escuridão da plateia para gritar "beautiful!", o baixista Georg Holm não deixou de nos afagar o ego, mostrando que aquele primeiro concerto em terra nossa foi tão bom para eles como para nós. Lia-se, depois, no site dos Sigur Rós (já havia internet, vejam só!): "Que cidade tão bonita. O tempo estava inacreditável, tão quente. Conhecemos uma rapariga gira que nos fez uma visita guiada pela cidade. O Jónsi comprou uma cópia de um violino Stradivarius". E, visto do exterior, eis um Portugal deste e de outros tempos: "Não ligo muito à política mas achei estranho que toda a gente me tivesse dito que o país era pobre. As casas são velhas, mas toda a gente guiava carros novos". Meses depois, dar-se-ia o 11 de setembro e o mundo - sabemo-lo agora - não voltaria a ser o mesmo. Um crash económico, anos e anos de retoma, anos e anos de promessas, anos e anos de erros, medo, algumas glórias, outros tantos infortúnios, tímidos levantares de cabeça - tudo misturado, tudo numa torrente de memória tão profunda como "Svefn-g-englar", a penúltima canção que ouviríamos nesse tão distante - estranho, exótico? - 9 de abril de 2001 em que Jónsi nos parece questionar em português: "E tu?". Perdoe-se o longo introito, mas não se queria dizer outra coisa: quase doze anos depois, é outra vez com "Svefn-g-englar" que a casa vem "abaixo". Como se pelo meio não tivéssemos apertado o peito, ganho rugas (quilos, já agora), como se um mundo inteiro não nos tivesse abanado. Ouvimos "Svefn-g-englar" e reencontramo-nos, intactos. "Então, estás bom, onde tens andado?". É certo que os Sigur Rós mudaram, tiveram discos mais empolados, outros mais esquecíveis, mas nunca deixaram de ser relevantes - principalmente, nunca deixaram de tocar o seu público ou aqueles que, não sendo acólitos de primeira hora, passaram depois a sê-lo. * * * 14 de fevereiro de 2013. O Campo Pequeno é uma sala francamente maior do que o Grande Auditório do CCB (mas menor do que o Pavilhão Atlântico, onde os islandeses atuaram em 2006) e, não rebentando pelas costuras, denota afluência digna de respeito num país que já não se pode dar ao luxo de trocar de carro de dois em dois anos (por aqui, agora como antes, resiste-se às quatro rodas). Atrás de uma longa cortina, perfilam-se os músicos, apenas silhuetas ao longo das primeiras canções. Tal como no Porto, na noite anterior, os Sigur Rós começam pelo que é novo: "Yfirborð" faz as honras da casa, com um Jónsi a braços com a habitual guitarra com arco. Segue-se o piano fúnebre de "Vaka" ("Untitled 1" no álbum dos parêntesis, de 2002). Na cortina, ainda projeções, aind as sombras dos músicos. Por vezes, o trovão de uma descarga elétrica, como na velha conhecida "Ny Battery", primeira incursão no mui amado Ágaetis Byrjun, com um ambiente visual que imaginamos semelhante ao jogo de luzes do londrino clube UFO, mas refreado no psicadelismo, viciado em Xanax. Vai-se de vez o manto opaco que esconde a banda numerosa - além do trio "sobrevivente", temos percussionista, trio de violinos, igual número de metais, gente para os teclados, marimbas e outros serviços. Por vezes sentimos ecos de Cocteau Twins, outras vezes há uma percussão mais assíncrona que nos remete para os Dead Can Dance - em 2000/01 falar de Sigur Rós era evocar, bastas vezes, a 4AD dos anos 80 e, desculpem lá, há vícios que ficam. Se em 2001 os Sigur Rós tiraram inéditos da gaveta, em 2013 experimentaram-se "Hrafntinna" e "Kveikur", de edição próxima. Nada de novo debaixo das nuvens: por esta altura é difícil apontar escapatória para um som que se cristalizou em fórmula vencedora (ou, descomplicando, em canções invariavelmente bonitas, ainda que nem sempre arrebatadoras). Território mais familiar é o trilhado em "Sæglópur" (islandês para "perdido no mar", daí as imagens subaquáticas), memórias de Takk.... (2005), que começa com um piano à la Tori Amos e evolui para um crescendo de rendilhados, acabando num último, lento, mergulho. Continuamos em regime quase litúrgico em "Fljótavík", de Með suð í eyrum við spilum endalaust , agudos de Jónsi a municiar uma canção de embalar, com as luzes de palco, junto aos músicos, a parecerem velas. Menos de quatro minutos assentes no mesmo fraseado de piano, Sigur Rós em modo conciso. A "marcha" de "E-Bow" (que Lisboa conheceu no concerto de 2000) acrescenta imponência (e duração) a um concerto que, do lado do público, se vai assemelhando a uma experiência religiosa, com palmas de reverência a explodirem no final de cada canção, mas só depois do último pingo de água se ouvir - quase como num recital. Mais à frente, o respeitinho daria lugar à expansividade em "Hoppípolla", canção panorâmica de cordas sumptuosas e, como é sabido, recurso frequente para reportagens televisivas que queiram musicar o heroísmo, a vitória depois e apesar da adversidade. A haver uns Sigur Rós pop, para todos os credos, pronto a ouvir sem trabalho prévio, eles estão no otimismo redentor de uma canção perfeita para as lágrimas fáceis. E, atente-se, não somos contra lágrimas expeditas se as emoções canalizadas forem espontâneas, não pré-programadas. O ânimo voltaria a subir no encore, com a mesma "Svefn-g-englar" que, há quase treze anos consagrou os Sigur Rós em palcos portugueses pela primeira vez. Mal o órgao se faz ouvir, entrecortado com aquelas gotículas espaçadas, os corpos parecem elevar-se - e a tal nuvem insinua-se, convida-nos a subir. Outra vez, suspendendo os cinismos entretanto angariados - fingindo esquecer as rugas, os quilos, os desaires, as desilusões, os falhanços - lá vamos nós. Este, como em 2001, pode ser um ponto zero para alguém que se queira deixar levar. Não foi a última música de um concerto impoluto, sem mácula, mas foi aquela onde toda a gente suspirou pelo menos uma vez. Quando voltam para os agradecimentos (duas vezes, aplausos incessantes) é a cadência dengosa de "Svefn-g-englar" que nos arruma a cabeça. Onde estivemos entre 2000 e 2013 é uma reflexão que ficará para depois. Alinhamento

Alinhamento cedido pela organização. Texto: Luís Guerra Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos