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Rolling Stones no Rock in Rio Lisboa: veja as fotos e saiba como correu o concerto

Bruce Springsteen foi a maior surpresa de um concerto em que os Rolling Stones se mostraram, mais uma vez, uma máquina insaciável de fazer rock. Mick Taylor, Gary Clark, Jr e um coro de Lisboa ajudaram à festa à qual assistiram 90 mil pessoas (números da organização).

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Poucas imagens serão capazes de ilustrar com melhor clareza aquilo a que poderemos chamar "magia do rock" do que o momento em que, com a mesma naturalidade com que calcorreia o palco durante mais de duas horas, Mick Jagger chama ao palco um convidado especial. Desde a primeira canção do alinhamento, "Jumping Jack Flash", que os Rolling Stones tinham o público na mão, mas quando as 90 mil almas que enchiam o Parque da Bela Vista percebem que o convidado é Bruce Springsteen (o próprio, em Lisboa para visitar a filha), o delírio é indescritível. Nessa altura, estavam volvidas apenas três canções - "Tumbling Dice", a quarta, foi a que beneficiou do efeito Boss - mas o concerto conheceu, logo ali, uma apoteose inesperada e, de certa forma, inigualável ao longo da noite. Lado a lado com Jagger, felino, Bruce, sólido e com aquela postura de quem carrega a guitarra como um verdadeiro instrumento de trabalho, libertou a sua rouquidão pelo festival e arrepiou uma multidão a perder de vista. Ver estas duas lendas partilhar a deixa "you can be my partner in crime", ou encontrar no mesmo enquadramento Bruce Springsteen e Keith Richards, terá feito muito boa gente dar por bem empregue o dinheiro do bilhete. A quinta passagem dos Rolling Stones por Portugal foi, contudo, bem além desta surpresa gostosa e virtuosa. Na via sacra para a subida ao palco dos quatro veteranos, acompanhados por companheiros de longa data (destaque para a cantora Lisa Fischer ou para o saxofonista Bobby Keys), vários espectadores fizeram slide por cima das nossas cabeças; pelo menos dois aviões sobrevoaram o recinto e Amy Winehouse - que há precisamente seis anos tropeçou neste mesmo palco - soou, espectral, no sistema de som, com "You Know I'm No Good". Poderia toda esta emoção ser superada? Com certeza. Bastou que, enquanto no ecrã gigante a língua dos Stones escorria lasciva, soassem os primeiros acordes de "Jumping Jack Flash". Com Keith Richards como ponta de lança na língua gigante que se estende ao longo do recinto, servindo de passarela para os músicos, os grandes cabeças de cartaz deste Rock in Rio não se mostram - atacam. Como o animal ágil e feroz que são, irão provocar, atiçar, incendiar, do começo do concerto até perto das duas da manhã (e deixamos uma dúvida: poderiam a rendição e a entrega do público ter sido ainda mais intensas se o grande espetáculo do serão não tivesse começado perto da meia-noite?). Na sua quinta (!) década de existência, os Rolling Stones são uma marca (como, de resto, o Rock in Rio); uma instituição dentro do género que ajudaram a formar. Contudo, além da máquina de fazer digressões (e consequentemente dinheiro), subsiste a banda que Jagger e Richards começaram a moldar quando, certo dia nos arredores de Londres, se encontraram numa estação de comboio e entabularam conversa à conta da paixão que partilhavam pelos blues e R&B. Neste quarteto ampliado com músicos de altíssima qualidade permanecem o amor pela música negra; a rebeldia e a libertação sexual que em tempos foram sinónimos de rock; uma sede inacreditável por celebrar, por agitar. Cativos dos riffs de Keith Richards e Ron Wood e da batida do imperturbável Charlie Watts, fãs portugueses mas também de outras nacionalidades (ao nosso lado, um senhor garantia-nos ter vindo de Nova Iorque para ver este concerto, o de Oslo e o de Zurique) prestaram vassalagem à realeza rock. A seguir a "Jumping Jack Flash" vieram "It's Only Rock and Roll (But I Like It)" (mais do que título de canção, mote de vida), "Tumbling Dice" (abençoada pelo Boss), "Wild Horses" (para acalmar as hostes, apresentou Mick Jagger), "Honky Tonk Women" (gerando uma das maiores ovações da noite) e o momento em que Keith Richards substituiu Mick Jagger na voz, cantando "You Got The Silver" (num registo algo dylanesco) e "I Can't Be Seen". "É bom estar aqui...", disse o homem-riff às 90 mil pessoas que nele haviam pousado os olhos, antes de, com um riso contagiante de tão autêntico, emendar a mão: "É bom estar em todo o lado!". No regresso a palco, Jagger, claramente ainda um símbolo sexual, a poucos meses dos 71 anos, ajudou a transformar "Midnight Rambler" (com a participação de Mick Taylor, dos Stones entre 1969 e 1974, que também tocou em "Satisfaction") e "Miss You" em autênticos mantras tântricos, antes de comandar o monstro de várias cabeças (rock, blues, soul, gospel...) para a reta final do concerto, com as inevitáveis "Gimme Shelter" (Jagger e Lisa - uma voz que ascende aos céus - em dueto fogoso na língua-passerela), "Start Me Up", "Sympathy For The Devil" e "Brown Sugar". Se falamos muito de Jagger, é sem qualquer demérito pelo contributo de todos os Stones para o resultado final (vitória sem direito a contestação) deste "desafio". Mas a prestação do outrora aluno da London School of Economics é, ainda hoje, causadora de espanto entre as fileiras de espectadores que, lamentavelmente, não têm a sua preparação física (ou talento, ou carisma, ou teatralidade, ou...). Percorrendo o palco de uma ponta à outra, naquele misto de provocação e sedução, ou deixando-se avistar - numa silhueta mínima - no meio da multidão exultante, Mick Jagger continua a ser tudo aquilo de que já o "acusaram" - andrógino, maléfico, ágil, uma projeção das fantasias e da imaginação de quem, algo incrédulo, o vê dar uma lição exemplar do estilo que criou. Um dos grandes performers da história da música popular, sem margem para dúvidas, que teve a fortuna de encontrar almas musicais não gémeas mas melhor ainda - complementares. Tal como alguém disse do concerto dos Led Zeppelin na O2 Arena, em 2007, os Rolling Stones tocam, em 2014, muito perto uns dos outros. O palco é grande - nele cabem os muitos membros do Coro Ricercare, de Lisboa, que os ajuda a cantar "You Can't Always Get What You Want" - mas a banda parece tão íntima como sempre gostaríamos de a ter visto.

Num concerto desta escala, em que boa parte do alinhamento é fácil de adivinhar e muitos dos truques - há bom Português de Jagger, fogo de artifício a abrir e fechar - são já conhecidos dos espectadores, o que determina o sucesso da empreitada? Apostamos na energia, na entrega, na forma como a instituição ainda consegue mostrar-se incendiária, em virtude do fogo que ainda a consome. Acreditamos em Jagger quando, na ameaça/explosão condimentada por solo de harmónica de "Out of Control", cantou "I was young, I was foolish, I was angry, I was vain"; acreditamos quando, de plumas vermelhas e túnica negra, se dirige ao Chifrudo em "Sympathy For The Devil"; acreditamos na despedida emocionada, com "Satisfaction" - lema máximo de uma banda que, como muito poucas, traz tatuada na história a palavra "insaciável". Alinhamento: 1. Jumping Jack Flash 2. It's Only Rock and Roll (But I Like It) 3. Live With Me 4. Tumbling Dice (com Bruce Springsteen) 5. Wild Horses 6. Doom and Gloom 7. Respectable (com Gary Clark Jr) 8. Out of Control 9. Honky Tonk Women 10. You Got the Silver 11. Can't Be Seen 12. Midnight Rambler (com Mick Taylor) 13. Miss You 14. Gimme Shelter 15. Start Me Up 16. Sympathy For The Devil 17. Brown Sugar ENCORE 18. You Can't Always Get What You Want 19. (I Can't Get No) Satisfaction Texto: Lia Pereira Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos