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Punk em Portugal: estudo confirma a existência de 600 bandas nacionais desde 1977

Trabalho sociológico demonstra o desenvolvimento do fenómeno em solo nacional e o dinamismo de uma corrente de rebeldia política e irreverência cultural.

Um estudo intitulado Keep it Simple, Make it Fast sobre o Punk em Portugal, da autoria da socióloga Paula Guerra, confirma a existência de 600 bandas do género musical desde 1977 e também de 400 música, que estão ainda a ser analisadas pelo sociólogo Augusto Santos Silva, da Universidade do Porto (e ex-ministro da Defesa Nacional).

Segundo notícia da agência Lusa, este trabalho académico debruça-se sobre a evolução do movimento em território nacional, demonstrando o dinamismo de uma corrente de rebeldia política e irreverência cultural, e já recolheu rasgados elogios do investigador britânico Andy Bennet, professor na Griffith University da Austrália que participou hoje no colóquio sobre o Punk em Portugal, no Porto, coordenado pela autora da investigação.

"Este projeto português é altamente original e é um dos melhores trabalhos sobre o punk que alguma vez foi feito", defendeu Bennet à Lusa, "nos Estados Unidos e no Reino Unido há livros publicados, mas este tipo de investigação é diferente. Tem uma análise muito profunda e mais crítica sobre o punk".

O termo Punk, que é usado por algumas "bandas de garagem" no início dos anos 1970, acaba por gerar um movimento de contra cultura e rebeldia nos Estados Unidos e no Reino Unido que ultrapassa a música (Ramones, Sex Pistols e Clash) tornando-se um dos fenómenos mais revolucionários da cultura ocidental das últimas décadas.

A investigação sobre a realidade portuguesa que se prolongou durante um ano, estabelece o início do movimento em Portugal, em 1977, com o aparecimento da banda Faíscas que mais tarde dá origem aos Corpo Diplomático e aos Heróis do Mar mas estuda também trinta anos de um movimento rebelde com especificidades regionais, analisando o percurso dos intervenientes ao longo dos anos, detetando as origens sociais e atitudes políticas, culturais e artísticas.

Além da análise das músicas e das bandas portuguesas, a investigação sociológica refere estar a tratar de um movimento constituído por 98 por cento de indivíduos do sexo masculino e aborda também a questão do envelhecimento e a forma como os princípios e as referências do movimento face à sociedade são mantidos ao longo dos anos, apesar da idade e dos diferentes percursos de vida.

O projeto da investigadora da Universidade do Porto é acompanhado pelo antropólogo espanhol, Carles Feixa da Universidade de Lleida e por Andy Bennet que considera a investigação singular.

"É diferente porque faz uma avaliação do punk em diferentes níveis: a dimensão política e ideológica (final dos anos 1970 e início dos anos 1980 em Portugal) e também a dimensão histórica a que não é alheia a situação económica do país. A realidade portuguesa é completamente diferente da realidade do Reino Unido mas para o que interessa - e este trabalho não foi feito no Reino Unido - é que politica e ideologicamente, o punk é igual onde quer que se esteja, depois é influenciado pelo contexto local, mas o punk é punk", sublinha o britânico à Lusa.

"O punk tem objetivos que dizem respeito à música e à política e, é por isso, que acho importante que este trabalho tenha sido feito aqui e nesta altura e, em muitos aspetos, é importante que tenha sido feito num país que não seja anglo-saxónico porque confere a importância global do punk", reforça o académico britânico acrescentando que o movimento nunca acabou e soube adaptar-se e evoluir ao longo das últimas décadas.

"Não penso em termos românticos sobre uma coisa que desapareceu e que é recordada porque o punk seguiu em frente. O punk transformou-se numa base, num ponto de partida para uma forma de expressão política que continua a influenciar os mais jovens que não aceitam, como no passado, uma sociedade normal", refere Andy Bennet.

O colóquio sobre o Punk em Portugal da investigadora Paula Guerra vai contar com as presenças do sociólogo Augusto Santos Silva, dos académicos Carles Feixa e Andy Bennet e decorre hoje no Gallery Hostel no Porto e pode ser acompanhado nas redes sociais.

Com Lusa

Na foto: Tédio Boys