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Peter Murphy no Coliseu dos Recreios, em Lisboa [texto + fotos]

Músico britânico, em plena forma, tocou Bauhaus e foi recebido de braços abertos pelo público lisboeta.

Num momento em que a sonoridade pós-punk parece voltar a impor-se no presente - vejam-se e ouçam-se as Savages - é natural sentir-se curiosidade perante esta Mr Moonlight Tour, a digressão em que Peter Murphy volta a pegar na obra dos seus Bauhaus, um dos grupos-chave da tal era que a banda de Silence Yourself parece agora decidida a revisitar. Os quatro álbuns que os Bauhaus editaram nos primeiros anos da década de 80 - In The Flatfield, Mask, The Sky's Gone Out e Burning From The Inside contêm material de elevadíssima qualidade, sobretudo quando o lado angular herdado da cartilha punk encontra as estruturas mais fluídas aprendidas no dub, como acontecia em momentos de absoluto génio como "Bela Lugosi's Dead". E quem nunca viu os Bauhaus em palco tem aqui uma oportunidade de ouro, mesmo que apenas o seu vocalista assuma as despesas de representação.

Peter Murphy no Coliseu de Lisboa
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Peter Murphy no Coliseu de Lisboa

Logo no arranque do concerto, em ponto às 22 horas, com uma sequência em crescendo com "King Volcano", "Kingdom's Coming", "Double Dare" e "In the Flat Field", percebe-se que não são os Bauhaus em palco, mas o baixo continua a carregar o peso dramático da arquitetura daquelas canções, com a guitarra a assumir a devida derrapagem punk. Soa bem, ultra coeso e com todos os pormenores no lugar.

Não há adornos neste concerto, não há ecrãs ou quaisquer elementos de distracção cénica e percebe-se que este é um espetáculo que no essencial rodou por pequenos clubes, pelo menos nos Estados Unidos onde os relatos falam de salas para 500 pessoas. O que permite que Peter Murphy vista a sua melhor pele de Ziggy Stardust, aqui de negro, e invista numa performance mais teatral, indo em certos momentos buscar uma luz branca que aponta ao rosto e que o faz parecer um mimo. Como Bowie. Mas Murphy é demasiado grande em Portugal para pequenos clubes e o Coliseu, mesmo sem encher parece mais adequado à escala da sua música. Porque afinal de contas, quem inventou a expressão "big in Japan" nunca tinha pensado no estatuto de que gozam bandas como Gene Loves Jezebel no nosso país. Murphy não é "huge", mas é "big in Portugal". E sabe devolver o fervor com que é recebido debitando elogios a Lisboa, "a beautiful city".

"Kick in the Eye", em que Murphy usa uma melódica para dar alguma cor ao monocromatismo do baixo, guitarra e bateria, o ambiente aquece e o povo conhecedor embarca nos "oh oh ohs" no tempo certo, sinal de que esta gente passou muito tempo na companhia da música dos Bauhaus. Essa é aliás uma marca óbvia da multidão que se juntou no Coliseu: são poucas as pessoas que parecem deslocadas, pequena a variação etária, uniforme a opção de guarda-roupa Os fãs que aqui estão são fãs há muito tempo e demonstram-no conhecendo os recantos de todo o repertório que vai sendo desenrolado em palco com uma competência extrema. E Murphy coroa os arranjos claramente rodados com uma performance sem espinhas, mostrando que continua em plena forma. Física e vocal. Na verdade, nem por um momento subsiste a mais pequena dúvida de que é Peter Murphy que enche o palco e que comanda a acção. Durante o ultra-intenso "Bela Lugosi's Dead", Murphy até encarna o espírito de King Tubby e comanda os efeitos que marcam a bateria de Nick Lucero, atirando-a para os terrenos do dub, enchendo o espaço com estilhaços sonoros. Antes, uma assistente de palco ajudou o cantor a vestir o blusão de cabedal, como quem coloca um manto nos ombros de um soberano. Naquele palco transpira-se nobreza...

A melódica regressa para "She's In Parties", outro momento mais dubby com o baixo de Jeff Schartoff em grande destaque, enquanto a guitarra de Mark Thwaite (que passou pelos Mission, precisamente um grupo de discipulos da escola Bauhaus) vai escorregando por entre notas, acrescentando brilho metálico aos tons de negro de que se fazem estes últimos temas. Com "Stigmata Martyr" e "Dark Entries" nada se altera e os níveis de intensidade continuam no vermelho. Ou no negro...

"Severance", um original dos Dead Can Dance chega precisamente no momento em que os autores originais tocam no Porto, uma espécie de alinhamento cósmico perfeito que Peter Murphy enfrenta prostrado no chão, talvez para recuperar da entrega total dos temas anteriores. O mítico cantor dos Bauhaus parece deixar toda a comunicação para a sua linguagem corporal e para as próprias canções, evitando discursos de ocasião ou de qualquer outro género entre as canções. Os fãs parecem não levar a mal. E talvez seja mesmo melhor assim. É chegado o tempo do encore.

O primeiro elemento a brilhar é o baixista, mas com um solo no violino que precede uma resposta acapella de Peter Murphy antes do salto no abismo com a versão incontornável de "Ziggy Stardust", talvez a melhor encarnação desta canção do lado de cá dos Spiders From Mars. Nem se sentiu a falta de Mick Ronson e isso não é dizer pouco dos argumentos de Mark Thwaite... O concerto só podia mesmo terminar aqui, com a banda na boca de palco a agradecer aos fãs. A comunhão parece absoluta e só resta regressar ao presente... Só que o público recusa, com o ritual do bater os pés no chão de madeira, forçando um regresso ao palco que provavelmente não estava previsto.

E sem que nada o fizesse prever, nem a consulta de alinhamentos de espectáculos anteriores nesta tour, o concerto termina com Joy Division, com Peter Murphy a parecer possuído pelo espírito de Ian Curtis, assumindo alguns dos seus gestos durante uma reverente passagem por "Transmission". O público recebeu uma justa recompensa pela entrega num concerto onde, por estranho que possa parecer, o único bem transacionável foi... a música. Nem hypes forçados, nem a força dos números típica dos festivais, nem um hit de rádio recente, nada. Só a memória de uma grande banda. Às vezes é o suficiente.

Texto: Rui Miguel Abreu

Fotos: Dário Cruz