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Morrissey no Coliseu de Lisboa: um vozeirão, uma dose de Smiths e terapia de choque pró-animal [reportagem]

E não é que ele veio? Recebido em êxtase, cantor inglês trouxe muito do novo álbum e pouco de êxitos antigos. Na memória ficam imagens variadas de massacre de animais ("Meat Is Murder", luta antiga de Moz) e a guerra declarada à McDonalds. Leia a reportagem e veja as fotos.

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Não poderia ser de outra forma. "Meat Is Murder", tema-título do segundo álbum dos Smiths não se serve sem explicações. Antes de proferir os versos sacramentais "Heifer whines could be human cries / Closer comes the screaming knife", Morrissey - um homem hoje vestido de branco a liderar uma banda que enverga t-shirts vermelhas a mandar às malvas ("Fuck" é a palavra) a editora do seu último álbum, a Harvest - incitou a populaça a pegar em tinta e empregar um cunho próprio a todo e qualquer publicidade à cadeia McDonalds que se encontrar "nesta linda cidade". Sugestão de inscrição? "Shit Shit Shit", "No No No". O que se segue é uma interpretação intensa, demoníaca, de uma canção de 1985 gravada originalmente por uma banda há muito finada. Feitas as contas do divórcio, Morrissey trouxe-a de baixo do braço como quem salva uma fotografia antiga, derradeiro artefacto de uma relação que acabou mal, mas teve os seus momentos. "Meat Is Murder" é uma das canções em que Morrissey diz a Johnny Marr: "esta é minha, fica antes com o carro". É também a canção em que professa, devotamente, o amor aos animais e o horror pela forma como estes são transformados em alimentação humana. Subtil na forma como tapa e destapa o novelo da sua biografia (e a esse propósito, Autobiography até nem é uma narrativa encriptada), Morrissey prefere ser óbvio e direto na causa que mais o move. E se isso explica que recorra a um tratamento de choque para fazer valer a sua posição - projetadas no Coliseu foram imagens horríficas do massacre de animais (vacas, vitelos, pintainhos, galinhas e perus, toda a chicha em que o vil humano crava o dente) - a adoção de um expediente desconfortável poderá surtir, em paralelo, um efeito de repulsa. Precisaremos de experimentar a aguça do cutelo para perceber que golpeia? Morrissey julga que sim e, naturalmente, está no seu direito. A ética é, aqui, a estética. A estética também é a estética, pura e simples, quando - antes do início do concerto - vemos um fragmento de um vídeo de apresentação em que os New York Dolls (fetiche assumido do jovem Morrissey) se apresentam no programa Musikladen da televisão alemã, nos anos 70. Em vez da música ambiente, a espera fez-se com uma colagem de imagens de proveniências variadas (entra aqui um LOL à morte de Thatcher? - entra, pois), passando em revista a polivalente iconografia (punk dos Penetration, chanson aguerrida de Charles Aznavour...) de uma das vozes mais idiossincráticas surgidas nas últimas quatro décadas. Evangelizando aí, ainda antes de dar a cara e o peito às balas, intromete-se "The Bullfighter Dies", canção do último álbum, com vídeo a condizer. A literalidade é, desde logo, assumida: na tourada de Morrissey, o animal sai, indubitavelmente, por cima. Às 21h26, o público que compunha (provavelmente a 3/4?) a lotação do Coliseu dos Recreios ficava com a certeza de que, ao contrário do que sucedera em Cascais há dois anos, Morrissey tinha um concerto para dar. A receção inicial refletiu, sem dúvida, o alívio quando esse quinhão de dúvida se esvaiu: palmas que o artista está entre nós. E foi sem fitas, birras ou hesitações que Moz e os seus 5 atacaram, com frenesim, "The Queen Is Dead", canção que dá título ao álbum de 1986 dos Smiths (Isabel II, dedo médio espetado, projetada logo por cima). Agora é que vai ser. Utilizando, sem subterfúgios, todas as suas valências vocais, Morrissey manda pôr o seu instrumento primordial bem alto na mesa de mistura. O trinado sobrepõe-se aos instrumentos, às vezes dando a impressão de que o aparato instrumental - ultimamente até algo rococó em disco, como prova a sofisticação de World Peace Is None of Your Business - está ali apenas para que o cantor acerte nos tempos. Bateria metronómica, pouco surpreendente e algo quadrada, baixo a figurar esborratado na folha de presenças, guitarras acústicas (de Boz Boorer, "maestro" da vida solo de Moz) mais proeminentes do que as elétricas (pecado de uma "First of the Gang to Die" final, aqui demasiado despida), ocasional acordeão e trompete, teclados porventura demasiado atmosféricos. No limite, tudo muito cumpridor. Mas não peçam ao gangue para fazer milagres. Primeiro concerto de uma digressão europeia que marca o regresso do artista aos palcos depois de uma primavera/verão aziaga (a saúde não ajudou), o segundo concerto de Morrissey em Lisboa (quarto em Portugal) pareceu querer servir o registo mais lento e saboreado de um artista que já teve êxitos de fazer tremer a pista de dança indie, mas que aqui foram olimpicamente ignorados. Só no pós-You Are The Quarry (2004 em diante) haveria muito por onde escolher: "Irish Blood, English Heart", "You Have Killed Me", "The Youngest Was The Most Loved", "All You Need Is Me" ou "That's How People Grow Up". Nicles. Já nem falamos do que não pertence, seguramente, ao Morrissey de 2014 - quem, incauto, foi a pensar que ouviria, no calor outonal de Lisboa, "Suedehead", "Everyday Is Like Sunday", "November Spawned a Monster", "The More You Ignore Me, The Closer I Get", "The Last of the Famous International Playboys" ou "We Hate It When Our Friends Become Successful", terá saído a pensar seriamente em afogar as mágoas na Ginjinha Sem Rival, ali bem perto. Do passado mais longínquo, além do revolver do baú dos Smiths (as referidas "The Queen Is Dead" e "Meat Is Murder", mais "Hand in Glove" - 2014 a aplaudir 1983 como se não houvesse amanhã - e, já no encore, "Asleep"), serviram-se "Speedway", via Vauxhall and I (1994), "Certain People I Know" (o tema de Your Arsenal, de 1992, que só lá foi à segunda), e "Trouble Loves Me", balada midtempo do mal amado Maladjusted (1997). De resto, picou-se o ponto de Years of Refusal (2009) com "One Day Goodbye Will Be Farewell" e "I'm Throwing My Arms Around Paris" (refrão entoado, assolapadamente, pelo público) e abriu-se, generosamente, o cardápio do álbum de 2014, com as entusiasmantes "The Bullfighter Dies" e "Kiss Me a Lot", mas com menor poder de choque no início da "segunda metade" com uma sequência letárgica de "Kick the Bride Down the Aisle" (com direito a mais uma alfinetada à família real, agora com a exibição das fotos dos duques de Cambridge e a legenda "United King-Dumb"), "One of Our Own" e "I'm Not a Man". Menos familiarizado com o disco novo, o público aproveitou para, à revelia do livro de conduta da sala, puxar do cigarro. Parco em tiradas extracurriculares, Morrissey foi igual a Morrissey: espetou o peito, com galhardia, nas notas mais complicadas (e que vozeirão bem tratado, é justo notar), tocou - qual xamã - o povo mais afoito (mas sem exageros), fez as vénias devidas quando o fim se aproximou e - 1 hora e 20 e poucos minutos depois da primeira ovação - saiu sem deixar margem a pedinchices de última hora, mas ofertando à audiência a camisa escura que vestiu antes do encore. Queixamo-nos do alinhamento (e acreditamos que não estamos sozinhos), mas não se porá em causa a entrega, os pingos de suor e o "showmanship" sem artifícios de um homem que desafia, com palavras pouco mansas, a perenidade em tempo de estrelas cadentes. Devia era aparecer mais vezes. Alinhamento The Queen Is Dead Speedway Certain People I Know The Bullfighter Dies Kiss Me a Lot I'm Throwing My Arms Around Paris World Peace Is None of Your Business Istanbul Neal Cassady Drops Dead Earth Is the Loneliest Planet Trouble Loves Me Kick the Bride Down the Aisle One of Our Own I'm Not a Man Hand in Glove Meat Is Murder One Day Goodbye Will Be Farewell Encore: Asleep First of the Gang to Die Texto: Luís Guerra Fotos: Rita Carmo/Espanta Espíritos