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Michael Jackson morreu há 5 anos: recorde a longa caminhada do Rei da Pop

No dia em que passam 5 anos sobre a morte de Michael Jackson, recordamos o percurso do adolescente tímido que se tornou a maior estrela pop de sempre.

Terra de fábricas de aço, Gary, no Indiana, é uma das muitas localidades da cintura industrial de Chicago, cidade de que dista apenas 25 quilómetros, apesar de se situar já noutro estado. Joseph Walter Jackson, agora com 80 anos, mudou-se para Gary quando casou com Katherine Scruse (79 anos completados no passado dia 4 de Maio), para trabalhar como operador de gruas na U.S. Steel. Ele tinha 20 anos, ela 19, e na natureza deste matrimónio encontram-se algumas pistas, seguidas pelo biógrafo J. Randy Taraborrelli, para perceber virtudes e problemas do "rebento" Michael. "Katherine disse que foi tão afectada pelo divórcio dos seus pais", escreve Taraborrelli, "e pelo facto de ter sido criada num lar desfeito que prometeu a si mesma que logo que encontrasse um marido haveria de se manter casada com ele independentemente das circunstâncias da vida". De acordo com os relatos, Joseph, antigo boxeur agora dedicado ao trabalho, não parecia dar grande trabalho à sua jovem esposa, revelando-se um marido dedicado e apaixonado. A paixão depressa trouxe frutos. "O primeiro rebento do casal, Maureen, carinhosamente tratada por Rebbie, nasceu a 29 de Maio de 1950. Os outros descendentes seguiram-se numa rápida sucessão. A 4 de Maio de 1951, no 21º aniversário de Katherine, nasceu Sigmund Esco, alcunhado de Jackie. Dois anos mais tarde, a 15 de Outubro de 1953, Tariano Adaryl nasceu; ele era tratado por Tito. Jermaine LaJuane seguiu-se a 11 de Dezembro de 1954; LaToya Yvonne a 29 de Maio de 1956; Marlon David a 12 de Março de 1957 (um de dois gémeos prematuros; o outro, Brandon, morreu 24 horas depois do parto); Michael Joseph a 29 de Agosto de 1958 ("com uma cabeça engraçada, grandes olhos castanhos e longas mãos", disse a sua mãe); Steven Randall a 29 de Outubro de 1961 e depois Janet Dameta a 16 de Maio de 1966", escreve-se em The Magic & The Madness. O despertar para a música O número 2300 de Jackson Street era demasiado pequeno para tanta gente: "Podia-se dar cinco passos a partir da porta da entrada e chegava-se ao fundo da casa", disse um dia Michael. Foi aqui que o talento dos Jackson começou a ser "domado". Joseph alimentou por breves momentos a fantasia de ser uma estrela da música, com a explosão rock and roll de meados dos anos 50, e chegou mesmo a formar uma banda, os Falcons, com o seu irmão Luther. Mas o grupo não causou qualquer tipo de impacto e Joseph depressa regressou às gruas da U.S. Steel. Lá em casa, entretanto, a rádio alimentava sonhos e os irmãos mais velhos, Jackie, Tito e Jermaine depressa começaram a revelar alguma inclinação musical. O pai reparou na musicalidade dos filhos quando um dia os surpreendeu a brincarem com a sua guitarra. Inicialmente, Joseph ficou muito zangado pois tinham-lhe partido uma corda da guitarra, mas ao ouvir os três filhos a fazerem harmonias vocais, uma ideia começou a florescer na sua cabeça, regressando os sonhos e delírios de grandeza que tinha alimentado uma década antes nos Falcons. A primeira ideia de Joseph, implementada em 1964, traduziu-se nos Jackson Brothers, com Jackie, Tito e Jermaine a serem ajudados pelos vizinhos Reynaud Jones e Milford Hite - que tocavam guitarra e bateria. Esta era a época da British Invasion e os Beatles cantavam "I Want to Hold Your Hand" ou "A Hard Day's Night", mas a pop da Motown dava igualmente cartas através das Supremes e de êxitos avassaladores como "Baby Love". Este era o mundo onde Joseph Jackson queria deixar marca através dos seus filhos. Em 1965, o clã Jackson deu um passo de gigante em direcção à imortalidade, quando Michael e Marlon se juntaram aos irmãos para tocar pandeireta e congas. Não demorou muito tempo para que Michael começasse a revelar especial talento.

"Ele tornou-se num pequeno grande imitador", recorda Jermaine citado por Taraborrelli. "Ele via uma coisa qualquer - outro miúdo a dançar ou talvez James Brown na televisão - e de repente Michael tinha memorizado os passos e sabia exactamente o que fazer. Ele adorava dançar. O Marlon era um bom dançarino, talvez até melhor do que o Mike. Mas o Mike tinha mais paixão. Andava sempre a dançar pela casa. Apanhávamo-lo muitas vezes a dançar sozinho em frente ao espelho. Ele desaparecia sozinho para praticar e depois aparecia e mostrava-nos um novo passo. Incorporávamos esses passos no espectáculo e o Michael começou a coreografar o que fazíamos todos em palco", conclui. O nascimento dos Jackson Five Foi na Roosevelt High, escola de Jackie, que Michael ganhou um concurso de talentos juntamente com os irmãos em meados de 1966, atraindo as atenções de Shirly Cartman, professora de música na escola, que imediatamente percebeu o potencial dos irmãos, especialmente de Michael. Foi ela que sugeriu que o grupo se passasse a chamar Jackson Five e que Johnny Jackson e Ronnie Rancifer - músicos experimentados que asseguravam a bateria e os teclados - substituíssem os vizinhos eleitos por Joseph. Tito passou a ser o guitarrista principal e Jermaine passou para o baixo. A vitória no concurso de talentos deu a Joseph o argumento perfeito para começar a explorar o chamado "chitlin circuit", verdadeiro viveiro de talentos e sustento para muitas futuras estrelas da soul que tocavam nestes clubes para negros numa época em que a segregação ainda era uma realidade. As raízes para os problemas futuros de Michael também se podem encontrar já nesta época: não só a disciplina era imposta de forma férrea por Joseph Jackson, que não permitia que os filhos falhassem uma nota ou se esquecessem de um passo, como o grupo era obrigado a um calendário violento que inclusivamente os levava a tocar em clubes de strip. Charles Shaar Murray escrevia em 2003 sobre este período da carreira de Michael Jackson: "De facto, o jovem Michael era um pequeno cantor tão bizarramente dotado que, na época formativa pré-Motown, quando eles trabalhavam nos clubes e bares do "midwest" na zona mais próxima da sua cidade natal de Gary, no Indiana, artistas zangados por serem esmagados por eles nas provas de talentos convenciam-se de que o Michael não era realmente uma criança, mas um talentoso e altamente experiente anão. Quando era pré-adolescente, ele tocou em alguns dos mais nefastos clubes e bares da América, vendo strippers das zonas laterais do palco enquanto esperava pela sua vez de subir ao palco, fazendo depois um número que incluía espreitar pelas saias das mulheres sentadas nas primeiras filas e - depois dos Jackson Five se tornarem num caso de sucesso - partilhando quartos de hotel com os irmãos mais velhos que não se coibiam de praticar sexo de forma entusiástica com a admiradoras que os seguiam depois dos concertos". A chegada à Motown Foi em 1968 que os Jackson Five conseguiram a atenção da Motown. As boas performances no circuito de clubes foram-lhes permitindo conseguir espectáculos de melhor qualidade e uma temporada como cabeças de cartaz no Guys and Gals Cocktail Lounge de Chicago valeu-lhes o passaporte para o Regal Theater onde foram escalonados para abrirem para Bobby Taylor & The Vancouvers, grupo da Motown de Berry Gordy. Impressionado, Taylor organizou uma audição com Suzanne de Passe, executiva da editora de Detroit. Berry Gordy não esteve nessa audição, mas viu uma gravação em vídeo dos Jackson Five a interpretarem "I Got The Feelin'" de James Brown. As crónicas rezam que o patrão da Motown não ficou inteiramente impressionado e que só uma segunda audição perante os rapazes, ao vivo, o fez correr a buscar o livro de cheques. O grupo já se tinha estreado no início de 1968 com "Big Boy", na pequena etiqueta Steeltown, mas Gordy, percebendo o extremo potencial do grupo, comprou o contrato e dedicou-se a fazer o melhor que sabia: a transformar este grupo num fenómeno. O seu primeiro passo foi mudar Joseph e os rapazes para a Califórnia - Joseph e os três irmãos mais velhos viveram um tempo com Gordy e os dois mais novos, Michael e Marlon, ficaram com Diana Ross. Katherine manteve-se em Gary com o resto da família. O patrão da Motown percebeu imediatamente que a história dos irmãos precisava de alguns ajustes: não só a biografia do grupo foi "reescrita" de forma a fazer Michael parecer mais novo do que realmente era, aumentando assim o seu potencial de "cuteness", mas até a história da sua descoberta foi "moldada", tentando fazer crer que o grupo - agora renomeado ligeiramente como Jackson 5 - tinha sido descoberto por Diana Ross e Gordy num concerto beneficente organizado pelo "mayor" de Gary. O título do primeiro álbum dos Jackson 5 para a Motown - Diana Ross Presents the Jackson 5 - reforçava a cortina de fumo de marketing. A história deve ter resultado, entretanto, pois "I Want You Back", o primeiro single, ascendeu imediatamente ao primeiro lugar das tabelas de vendas. Gordy decidiu não correr riscos com a estreia dos irmãos. Não só desviou para eles uma canção que deveria ter sido entregue a Gladys Knight como nomeou uma super-equipa - alcunhada como A Corporação - para tratar da composição e produção do reportório dos Jackson 5: o próprio Gordy, Alphonzo Mizell, Freddie Perren e Deke Richards colocaram todo o seu saber e escreveram cinco números 1 para os Jackson 5, incluindo, "ABC", "The Love You Save" e o já citado "I Want You Back", canção que a Pitchfork não teve dúvidas em classificar como a segunda melhor canção dos anos 60 e "possivelmente, a melhor progressão de acordes na história da música pop". Este "bubblegum soul" era uma fórmula altamente refinada que a linha de montagem da Motown preparava para assaltar as tabelas de vendas e os lares de toda a América - não apenas a negra. O sucesso chegou com força suficiente para que Joseph Jackson pudesse trazer o resto da sua família de Gary para Los Angeles onde, em Março de 1971, comprou a mansão Hayvenhurst. Em 1972, Dave Marsh escrevia na influente Creem sobre os Jackson 5 e não tinha dúvidas em elevá-los até ao topo da montanha Motown: "A Motown foi sempre mais conhecida pelos pequenos do que pelos grandes e os Jackson 5 não são excepção. Este é sem dúvida o seu melhor álbum; faz tudo o que uma colecção de hits da Motown deve fazer - incluindo talvez fazer-vos chorar se por acaso tiverem estado suficientemente ligados a uma canção num determinado período das vossas vidas. Os Jackson 5 são provavelmente a melhor coisa a acontecer na Motown neste momento simplesmente porque são eles que agora recebem os melhores arranjos, o melhor material, são eles os mais bonitos e por aí adiante. Eles são um dos poucos grupos da Motown que escapa ao manto ácido de Norman Whitfield e de Barrett Strong (embora também exibam alguma da mais forte influência de Sly Stone na Motown) e até agora também têm evitado a musiquinha de restaurante. E vê-se: eles fervilham como se fosse 1965, e isso é menos uma referência histórica do que comentário enérgico". Continua Marsh: "O Michael Jackson soa frequentemente como um Smokey Robinson adolescente, o que é um chavão, suponho, mas nem por isso menos válido. Há nele suficiente influência de Sly Stone para deixar claro que só tem 12 anos (10 quando "I Want You Back" e "ABC" foram gravadas)". Uma pérola chamada Michael O potencial de Michael não passou despercebido a ninguém, mesmo tendo em conta que os Jackson 5 se tinham transformado num monumental negócio explorado em todas as vertentes possíveis numa altura em que o marketing pop ainda estava na sua infância, se comparado com o dos dias de hoje: canecas, lancheiras, roupa, séries de animação, especiais de TV, digressões e, claro, muitos discos número 1 fizeram do negócio Jackson 5 o mais rentável da Motown, superando mesmo a marca Supremes no departamento de contabilidade. Mas ainda assim, Gordy quis apostar numa carreira a solo para Michael que arrancou logo em 1971 com "Got to Be There" e a faixa título da banda sonora de Ben. O tema tinha sido pensado originalmente para Donny Osmond, do grupo rival dos Jackson 5 The Osmonds, mas o facto de se encontrar em digressão acabou por beneficiar Michael que assim iniciou com chave de ouro a sua carreira a solo. Com a chegada da década de 70, o grupo começou a dar alguns sinais de cansaço. Embora continuassem capazes de criar sucessos - como o clássico "Hum Along and Dance", um verdadeiro hino para os adeptos do breakdance de todo o mundo - os Jackson 5 começavam a denotar alguns problemas, nomeadamente alguma insatisfação com as estratégias da Motown que insistia em apresentá-los como um grupo de crianças. Em 1975, Joseph negociou novo contrato para os Jackson 5 com a CBS que ofereceu um incrível royalty de 20%, cerca de sete vezes superior ao que era pago pela Motown. Gordy ofereceu resistência inicialmente, mas acabou por deixar o grupo partir para uma nova fase da carreira, embora os tenha obrigado a mudar o nome para The Jacksons. O grupo ainda estendeu a carreira até 1989, data do último álbum, 2300 Jackson Street, mas por essa altura já era evidente que Michael e o sucesso de Thriller tinham eclipsado qualquer hipótese de maior longevidade do grupo. Michael Jackson gravou mais dois álbuns para a Motown depois de Ben, Music and Me de 1973, álbum que abria com um revelador "With a Child's Heart", e Forever, Michael, de 1975, que continha temas como "One Day In Your Life" e um som mais refinado que haveria de ser uma boa antecipação do futuro que chegaria com o período CBS. Michael encontra Quincy Jones O período pós 1975 foi intenso na carreira dos Jacksons, pelo que Michael só teve uma pausa em 1978, aproveitada para integrar o elenco de The Wiz. Tratava-se de uma versão afro-americana do clássico O Feiticeiro de Oz com banda sonora produzida pelo mago Quincy Jones, que imediatamente estabeleceu uma forte empatia com Michael que aí vestia a pele do Espantalho. "Eu nem sequer queria fazer o The Wiz", disse Quincy. "Pensei que de maneira alguma o público aceitaria uma versão negra de O Feiticeiro de Oz. Fartei-me de dizer ao Sidney Lumet que não o queria fazer, mas porque ele é um grande realizador e porque me contratou para eu fazer a minha primeira banda sonora [The Pawnbroker, 1965], eu aceitei. Dessa confusão veio a minha associação com Michael Jackson", escreve-se em The Magic and The Madness. Quincy e Michael revelaram ser extremamente compatíveis. O artista estava habituado a não ter palavra alguma a dizer nas ultra-controladas sessões da Motown, mas com Quincy as coisas funcionavam de forma diferente. O produtor gostava de reunir as melhores condições possíveis, a começar por um excelente estúdio, grandes músicos e, claro, canções de superior qualidade permitindo depois ao artista que explorasse o seu próprio espaço. Quando Quincy começou a acomodar as sugestões de Michael, algo mudou: "Quincy recordou que ao princípio ele achou o Michael muito, muito introvertido, tímido, pouco assertivo. Ele não tinha nada a certeza de que seria capaz de fazer um nome a solo. E eu também não tinha". E no entanto, Off The Wall acabou por se revelar um estrondoso sucesso. Editado em 1979, este foi o primeiro álbum americano a gerar quatro hits de top 10, incluindo os números 1 "Don't Stop Till You Get Enough" e "Rock With You". Com canções de Rod Temperton dos Heatwave, de Paul McCartney e Steve Wonder, este foi um álbum esculpido até ao mais ínfimo pormenor para transformar um grande artista numa mega-estrela. A estratégia resultou em pleno e Off The Wall vendeu milhões na época, tendo contabilizado até hoje cerca de 20 milhões de cópias vendidas. É obra.

Entretanto, outro acontecimento acabaria por ser importante para o futuro do cantor: uma queda durante um número de dança complicado teve como consequência directa um nariz partido que obrigou Michael a uma operação. "Quando as ligaduras saíram, o Michael gostou do que viu", recordou Gina Sprague nas páginas de The Magic and the Madness. "O resultado dessa primeira cirurgia", escreve o autor da biografia, "é o nariz que se vê na capa de Off the Wall, um nariz um pouco mais pequeno do que aquele com que tinha nascido. De facto, a cara de Michael tinha sido cirurgicamente alterada, confirmando a noção de que, para ele, a sua aparência era algo sobre a qual poderia exercer controlo se quisesse". Queixas ao nível da respiração levaram depois Michael até às mãos do Dr. Steven Hoefflin que lhe faria uma segunda operação para corrigir os problemas encontrados e que faria outras intervenções futuras a pedido do cantor. A explosão de Thriller O sucesso de Off The Wall permitiu a Michael vincar a sua ambição e em 1980 uma renegociação do seu contrato com a CBS transformou-o no artista com maior royalty da indústria - uns impressionantes 37 por cento! Uma canção na banda sonora de ET, O Extraterrestre, "Someone in The Dark", valeu-lhe um Grammy por Melhor Álbum para Crianças e preparou-lhe o caminho para Thriller, o álbum de todas as conquistas que o afirmou como maior artista vivo. O título de álbum mais vendido de sempre não esclarece devidamente os impressionantes números registados por este lançamento de finais de 1982: com um orçamento de 750 mil dólares, o disco terá vendido até aos dias de hoje mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo, colossal número que dificilmente será alguma vez superado; foram retirados sete singles, número tornado ainda mais impressionante quando se tem em conta que o álbum continha nove temas; em 1984, foram oito os Grammys arrebatados pelo álbum que passou um ano no Top da Billboard, incluindo 37 semanas no primeiro lugar; neste período, Thriller vendia cerca de um milhão de cópias por semana! Estes números são importantes para se perceber como Michael Jackson redifiniu as regras do jogo pop, levando a indústria a entrar no seu melhor período de sempre. Artisticamente, o álbum foi igualmente um triunfo, com revistas como a Time a escreverem que "o pulso da América e de muito do resto do mundo move-se irregularmente, batendo no ritmo do groove duro de "Billie Jean", da ária do asfalto "Beat It" e dos arrepios cool de "Thriller"". E Michael não era um mestre apenas no estúdio. No plateau revelou ser igualmente imbatível e mudou o paradigma de uma MTV demasiado comprometida com a nação rock da época. O próprio presidente da CBS, Walter Yetnikoff, foi obrigado a intervir: "Não vos vou dar mais vídeos e vou fazer declarações públicas sobre o facto de vocês não quererem tocar música de um gajo negro". "Billie Jean" e "Beat It" foram os primeiros clips a furar o bloqueio e depois veio o épico "Thriller" que mesmo com 14 minutos chegou a ser rodado duas vezes por hora pela MTV para satisfazer os pedidos do público. O primeiro canal de televisão dedicado à música descobria assim a América negra.

Nesta altura, Michael reinava sobre todo o planeta e alimentava os sonhos de milhões, parecendo efectivamente uma figura maior do que a vida, que mais do que caminhar deslizava, como quando estreou o seu passo registado, o "moonwalk", num especial de televisão dedicado aos 25 anos da Motown. No entanto, em Janeiro de 1984, Michael provou ser muito humano quando o seu cabelo pegou fogo durante a rodagem de um anúncio da Pepsi. O caso correu mundo e Michael processou mesmo a Pepsi que acedeu a pagar 1 milhão e meio de dólares extra-judicialmente que o cantor doou para um fundo criado em seu nome para tratar, precisamente, queimados. Esta faceta filantrópica seria igualmente muito importante durante toda a vida de Michael, embora ensombrada por outros acontecimentos ainda mais públicos. Em Maio de 1984, Michael foi mesmo condecorado pelo então presidente Ronald Reagan que assim reconheceu o seu generoso contributo para uma série de instuições de caridade. O seu empenho no hino "We Are The World", que gerou milhões para crianças famintas em África, marcou igualmente este período. Who's Bad? A generosidade de Michael Jackson estava também ligada à sua capacidade de gerar dividendos, tendo desde sempre revelado um astuto sentido de negócio. Terá sido durante as gravações de "The Girl is Mine" e "Say Say Say", as duas colaborações com Paul McCartney, que o ex-Beatle terá mencionado de que forma ganhava cerca de 40 milhões por ano através de catálogos de canções de outros autores de que era proprietário. Michael registou mentalmente a ideia e quando a Northern Songs - gigantesco catálogo que incluía boa parte da obra dos Beatles - foi colocada à venda instruiu o seu advogado para negociar a compra. Paul McCartney não gostou da ideia, mas também não avançou sozinho para o investimento porque não convenceu Yoko Ono a associar-se a ele nesse negócio. Os anos que se seguiram na carreira de Michael Jackson ficaram marcados por uma série de excentricidades e por uma presença constante nos media que explorava cada novo gesto do cantor de uma forma claramente sensacionalista. A câmara hiperbárica onde supostamente dormia para travar o processo de envelhecimento, os animais exóticos, incluindo o chimpanzé Bubbles, ou o episódio dos ossos do Homem Elefante foram amplamente divulgados nos media. Nalguns dos casos, a origem das notícias terá estado no próprio Michael que assim queria transmitir uma ideia de excentricidade que acabou por se voltar contra ele. A imprensa inventou mesmo o termo "Wacko Jacko" e explorou ao máximo cada ângulo da vida privada do cantor, incluindo a sua saúde que começou a sofrer revezes ainda na década de 80, quando lhe foram diagnosticadas as doenças vitiligo e lúpus, apontadas como razões para a perda de melanina. Apesar de todos estes sobressaltos, Michael conseguiu fechar a década em beleza com a edição em 1987 do álbum Bad que não atingiu as extraordinárias marcas de Thriller mas que ainda assim reconfirmou a sua capacidade de fabricar êxitos. Cinco singles número 1 extraídos de Bad, incluindo "The Way You Make Me Feel" ou "Smooth Criminal", e mais de 30 milhões de cópias vendidas até aos dias de hoje são uma invejável marca para qualquer artista, embora um relativo desapontamento para Michael que gravaria apenas mais três álbuns até ao final da sua vida - Dangerous, de 91 e com números de vendas semelhantes a Bad; HIStory, duplo de 1995 que alinhava sucessos e inéditos como "They Don't Care About Us", óbvio grito de revolta contra a perseguição dos tablóides; e Invincible, o álbum de 2001 que inclui "You Rock My World", talvez o derradeiro momento de grandeza da sua carreira, e que vendeu uns "singelos" 10 milhões de cópias tendo mesmo levado Michael a acusar a Sony de negligência na promoção.

A chegada ao fim No início da década de 90, a indústria ainda tinha expectativas elevadas para o futuro e Michael Jackson conseguiu renegociar o seu contrato com a Sony encaixando a quantia recorde de 65 milhões de dólares, superando o valor que tinha sido atribuído à renovação do contrato de Neil Diamond. Parte deste dinheiro foi canalizado para caridade e para a Fundação Heal The World que entre outras coisas proporcionava momentos de lazer a crianças sem recursos levando-as até ao parque de diversões que Michael tinha montado no rancho de Neverland. Em 1993, o acto de levar crianças até ao rancho voltou-se contra Michael, quando Jordan Chandler, de 13 anos, esteve no centro de uma acusação de abusos sexuais e de uma verdadeira tempestade que foi a cobertura do caso por parte dos media. O caso foi supostamente resolvido fora dos tribunais, mas a imagem de Michael sofreu um ataque de que não voltou a recuperar. Houve inclusivamente quem tenha argumentado que o casamento de Michael com Lisa Marie Presley em 1994 tenha sido apenas uma estratégia para reafirmar a masculinidade do cantor. O casamento durou dois anos. Foi durante a digressão de apoio a HIStory, em 1996, que Michael voltou a casar, desta vez com a enfermeira Deborah Jeanne Rowe que conheceu quando lhe foram diagnosticados os problemas de pele. O casal teve dois filhos, Michael Joseph Jackson, Jr. e Paris Michael Katherine Jackson, e depois do divórcio, em 2009, Michael reteve custódia total do casal. Alarmantes foram os casos de atenção dos media pelas razões erradas que pareciam mostrar um homem à beira do colapso, como quando segurou o seu terceiro filho, Prince Michael Jackson II, de forma perigosa de fora da janela, a quatro andares de altura. Mas o pior ainda estava para vir, com novo caso de polícia, desta vez com origem em acusações de abuso sexual por parte do adolescente Gavin Arvizo. O pesadelo só terminou em Maio de 2005, quando o tribunal o absolveu de todas as acusações. A fase final da vida de Michael foi marcada por problemas financeiros, sinal de que as constantes investidas dos tablóides mais sensacionalistas começavam a pesar na gestão financeira da sua vida. O rancho de Neverland sofreu um abanão, mas Michael parecia estar prestes a registar um regresso em grande quando anunciou uma série de 50 concertos em Londres que seriam vistos por mais do que um milhão de pessoas já a partir do próximo dia 13 de Julho. No passado dia 25 de Junho, Michael desmaiou numa casa que tinha alugado em Los Angeles. Após uma hora de tentativas de reanimação, Michael Jackson foi declarado morto quando passavam 26 minutos das 22 horas em Portugal. Horas depois da notícia do seu desaparecimento correr o mundo, Thriller voltou ao primeiro lugar do Top no iTunes. Michael Jackson viveu e morreu a gerar números 1. Chamaram-lhe o Rei da Pop.

Texto: Rui Miguel Abreu Fotos: Arquivo BLITZ/Arquivo GESCO Originalmente publicado na BLITZ Extra dedicada a Michael Jackson, em junho de 2010.