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Michael Jackson morreu há 5 anos: como se fez uma obra-prima chamada Thriller

É, para muitos, o maior feito de Michael Jackson. Em 1982, Thriller entrava como uma flecha nos topes e firmava o seu autor como força suprema da pop. Mais de três décadas depois, ainda brilha.

Foi um ano especial para Michael Jackson, não apenas devido ao facto de, em 2008, se terem assinalado os 25 anos da edição de Thriller, mas também porque no dia 29 de Agosto completou meio século de existência. Esta foi, portanto, a altura ideal para olhar para trás e deitar contas à vida. E foi também a oportunidade de ouro para Jackson reconquistar quem porventura pudesse ter sido alienado pelos processos legais que terminaram em 2005 com a sua absolvição nos tribunais americanos. O mais famoso de todos os "moonwalkers" - como comparar o "pequeno passo para a humanidade" de Neil Armstrong na Lua com o passo de dança que Jackson mostrou no especial televisivo Motown 25: Yesterday, Today, Forever, em 1983? - regressou, no ano passado, para reconquistar o trono de rei da pop. Quando, em 30 de Novembro de 1982, Thriller chegou às lojas, o mundo não podia prever o impacto que essa colecção de canções teria. Michael Jackson já era o artista negro mais bem sucedido do planeta, graças à sua fulgurante carreira com os Jackson 5 e ao bem sucedido Off The Wall, mas Thriller quebraria recordes que a indústria não sonhava serem possíveis de atingir na época. O álbum de "Beat It" vendeu mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo, conduziu Jackson à conquista de oito Grammys em 1984 e gerou sete singles de Top 10, feito sem precedentes na história da indústria - incluindo "Billie Jean", o primeiro single de um artista negro a receber divulgação maciça na MTV. Com todos estes feitos, é seguro dizer que Michael Jackson redesenhou o mundo à sua imagem na primeira metade dos anos 80.

Grande como Elvis A mega-exposição de Jackson na década de 80 levou a que, nos anos 90, houvesse um certo divórcio entre um público mais informado e a sua música, facto agravado pela controvérsia em redor do cantor - feita de máscaras, casamentos e transformações físicas - e também pelo impacto negativo dos processos legais de que foi alvo a partir de 1993, que o transformariam num misterioso recluso, cada vez mais afastado do olhar do mesmo público que o ergueu até uma dimensão quase sobre-humana. Em 1991, no entanto, ainda era possível encontrá-lo na capa da Wire, num número em que os nomes de David Byrne, Wolfgang Amadeus Mozart e John Coltrane surgiam ao lado de uma foto altamente pixelizada do homem de Thriller, sugerindo a sua elevação através dos media. Numa peça de título Mad, Bad or Dangerous To Know?, Richard Cook argumentava a excelência de álbuns como Off The Wall, Thriller e Bad, e defendia que Jackson tinha uma inexplicável grandeza que nunca teria existido na pop antes de si: "Ícones como Presley e os Beatles eram ícones, de facto, mas as suas fragilidades e desejos sempre pareceram muito próximos das nossas próprias fragilidades e desejos", concluía. A mesma ideia parece ser defendida por Simon Reynolds num dos artigos compilados no livro Bring The Noise. Escrevia Reynolds, em What's Missing? The State of Pop in 1985, que a nova fornada de artistas de então o deixava nostálgico de uma certa "duplicidade e excesso" e que isso o levava a admirar "as poucas estrelas que parecem loucas, gajos marados como Prince ou Michael Jackson. O Michael a cantar sobre peixes ou as suas meias é muito mais excitante do que a Maior Paixão de Annie Lennox". Esse cenário mudaria com o passar dos anos: fora de certos círculos, o reconhecimento do enorme talento de Jackson praticamente desapareceu na última metade dos 90s. Nos últimos anos, pode dizer-se que nem a Wire nem Simon Reynolds se dignaram a mencionar sequer o nome de Michael Jackson (no blog de Reynolds, http://blissout.blogspot.com, não há uma referência ao homem de Thriller desde 2002...), facto explicável com o crescente afastamento de Jackson da produção discográfica e com a sua progressiva "loucura" que o levou a ser notícia por razões extra-musicais, como quando pendurou o seu filho de uma janela num hotel de Berlim, em 2002, ou quando, em 2003, foi pela primeira vez emitido o documentário Living With Michael Jackson, do jornalista britânico Martin Bashir. O último número 1 de Michael data de 1995 ("You Are Not Alone") - há muito que a música deixara de ser o principal ponto de sustentação da sua presença nos media... E foi por isso que as bodas de prata de Thriller foram tão importantes: permitiram a sua reconciliação com o seu público e com o seu passado. Nasceu uma estrela Os primeiros anos de vida artística de Michael, nascido em Gary, no Estado do Indiana, em 1958, não foram fáceis. O pai e líder do clã Jackson, Joseph, era extremamente severo e normalmente acompanhava os ensaios dos filhos com um cinto na mão. Joseph sabia que a ascensão da condição operária em que se encontrava dependia do talento dos filhos e, por isso, desde a formação do grupo, em 1964, o trabalho duro era a única realidade conhecida por Michael e pelos irmãos. Em 1966, os Jackson Brothers passaram a responder pelo nome de Jackson 5 e o papel de Michael tornou-se mais relevante quando conquistaram um prémio numa mostra de talentos e alargaram o seu raio de acção até à cidade de Chicago. As constantes digressões pelo "chitlin circuit" (as salas da Costa Este e do Sul que aceitavam artistas negros na época em que a segregação ainda se fazia sentir) renderam os seus dividendos quando, em 1968, os Jackson 5 assinaram um contrato com a poderosa Motown de Berry Gordy. Gordy terá percebido desde logo que a sua nova contratação era especial. O segredo da Motown até aí assentava na ideia de linha de montagem, com especialistas para as fases de escrita, orquestração, produção e execução dos temas a trabalharem para que o produto final se destacasse. Para tratar especialmente dos Jackson 5, Gordy criou "A Corporação", uma equipa de que faziam parte ele mesmo, Freddie Perren (que havia de escrever êxitos para os Sylvers e Gloria Gaynor), Deke Richards (que assinou "hits" das Supremes e Martha & The Vandellas) e Alphonso Mizell (parte dos Mizell Brothers, responsáveis pela definição do som da década de 70 com as suas produções para gente como Donald Byrd e Bobbi Humphrey, na Blue Note). O resultado da junção de tais talentos foi devastador: os primeiros quatro singles dos Jackson 5 chegaram todos ao primeiro lugar das tabelas - "I Want You Back", "ABC", "The Love You Save" e "I'll Be There" serviram de pilar a uma progressão incrível da carreira dos Jackson 5 e, sobretudo, de Michael Jackson. Em 1971, apenas um ano depois de "I'll Be There", Michael estreava-se a solo com Got To Be There, a forma encontrada pela Motown para fazer concorrência directa à estreia a solo de um membro de uma outra família musical famosa - Danny Osmond, dos Osmonds. A história não deixa dúvidas sobre quem terá ganho essa disputa... Ben, de 1972, foi o álbum seguinte de Michael, que se mantinha nos Jackson 5 ao mesmo tempo que impulsionava a sua carreira a solo. Music & Me, de 1973, e Forever, Michael, de 1975, foram os dois últimos registos de Michael na Motown, com o apropriadamente intitulado Moving Violation, também de 75, a ser o derradeiro trabalho dos Jackson 5 para a mesma editora. A Epic, selo discográfico mais tarde adquirido pelo gigante Sony, foi o passo seguinte dos irmãos Jackson, que deixaram na casa de Berry Gordy não apenas a sua designação oficial - a partir de 76 os Jackson 5 passaram a ser conhecidos apenas por The Jacksons - mas também o segundo irmão mais carismático, Jermaine, que por ser casado com uma filha do patrão da Motown acabou por não acompanhar a família na debanda. Joseph Jackson, o pai, comentou o facto na época: "É o meu sangue que corre nas veias de Jermaine, não o de Berry Gordy". Em 1978, Michael assumiu o papel do Espantalho na adaptação cinematográfica do espectáculo da Broadway The Wiz, uma nova leitura do clássico O Feiticeiro de Oz, de L. Frank Baum. Com um elenco inteiramente afro-americano - que registava participações de Diana Ross e Richard Pryor - dirigido por Sidney Lumet, The Wiz contava com a participação de Quincy Jones nas orquestrações dos temas escritos por Charlie Smalls e Luther Vandross. O filme foi um tremendo falhanço de bilheteira e crítica, mas aproximou Quincy Jones e Michael Jackson, que não tardariam a fazer história. Michael e Quincy Quincy Jones é uma verdadeira lenda. Nascido em 1933, em Chicago, aos 18 anos já tinha deixado claro que a música seria o seu futuro, quando aceitou levar a sua trompete em digressão com o lendário Lionel Hampton. Ainda na década de 50, andou em digressão com Dizzy Gillespie e, em 1957, mudou-se para uma Paris mais permissiva, onde estudou, entre outros, com Oliver Messiaen, um dos maiores compositores eruditos do século XX. No mesmo ano em que os Jackson 5 nasciam, Jones tornou-se o primeiro vice-presidente negro de uma grande companhia discográfica, a Mercury Records. Jones tinha passado por um mau bocado antes de chegar à Mercury e declarou à revista Musician que esse foi também um período de aprendizagem: "Tínhamos literalmente a melhor banda de jazz do planeta, mas mesmo assim passávamos fome. Foi então que descobri que existe a música e o negócio da música. Para sobreviver, tive que aprender a diferença entre os dois". Quincy Jones tornou-se um especialista nessa preciosa diferença e não tardou a aplicar esse talento na descoberta de fenómenos musicais: em 1963, Lesley Gore, descoberta por Jones, chegou a número 1 com o clássico "It's My Party". Outra área em que Jones se notabilizou foi a escrita para cinema - e aí também foi pioneiro, pois não era terreno fértil para compositores negros. A convite de Sidney Lumet, assinou a banda-sonora de The Pawnbroker, a primeira de uma série de bandas-sonoras clássicas com o seu carimbo, como The Italian Job ou In the Heat of The Night, precursoras da explosão de talento negro nos grandes ecrãs com a blaxploitation dos anos 70. Quando Michael conheceu Jones, no "set" de The Wiz, não teve dúvidas e convidou o produtor e orquestrador para trabalhar na sua estreia a solo no catálogo da Epic - editado em finais de 1979, Off The Wall é produto de uma época em que a música negra atravessava um período de transformação. Os dias do disco-sound estavam a chegar ao fim e a nova época trazia consigo a promessa de um funk mais angular, apoiado nas novas tecnologias electrónicas. Richard Cook, no já citado artigo de capa da Wire, descreve Off The Wall como "um passo em frente na carreira de Michael, da mesma forma que Music of My Mind tinha sido um passo em frente para esse outro menino-prodígio da Motown, Stevie Wonder, quase dez anos antes". Com Rod Temperton (músico e compositor britânico que fez parte dos Heatwave, um grupo multi-nacional - com americanos, ingleses, um espanhol, um checo e um jamaicano a bordo! - que obteve enorme sucesso com o clássico "Boogie Nights") de serviço, Jones criou um álbum que definitivamente impôs Michael como o mais popular dos artistas negros da sua época, muito graças ao enorme impacto de temas como "Don't Stop Til You Get Enough" ou "Rock With You", que levaram Off the Wall a ter um comportamento de excepção na Billboard: 48 semanas no Top 20 que se traduziram em 20 milhões de cópias vendidas em todo o mundo! Um álbum chamado Thriller Em 1984, quando foram divulgadas as até então inéditas 12 nomeações do homem de Thriller para os Grammys, o New York Times escrevia que "no mundo da música pop, há Michael Jackson de um lado e todas as outras pessoas do outro". O incrível dessa frase é que, quando foi publicada, não continha o mínimo exagero - de facto, Michael era um singular caso de sucesso e talento.

Gravado entre Abril e Novembro de 1982, Thriller contou com a colaboração de vários dos membros dos então líderes do rock mais adulto, os Toto, que nesse ano tinham visto a sua reputação aumentar graças ao enorme sucesso do tema "Africa". Por esta altura, tudo indica que Quincy Jones já tinha dominado na perfeição a diferença entre música e negócio, conseguindo conjugar as duas faces da mesma moeda de forma perfeita. Richard Cook escrevia, em 1991, que "o que eleva este disco é a forma como Jackson ilumina os valores de produção absolutamente perfeitos de Jones com uma personalidade explosiva". Ou seja, Thriller, pode dizer-se, é um disco sem falhas que traduz a sua época ao mesmo tempo que antecipa o futuro, numa produção visionária encimada por uma interpretação de puro génio. "Billie Jean", "Beat It" ou "Thriller" são canções a todos os títulos perfeitas, que Michael transformou em poderosos clássicos que teimosamente recusam a passagem do tempo: todos os anos saem para o mercado de DJs bootlegs desses temas que provam a sua eterna vitalidade nas pistas de dança. Em 1984, a Time descrevia Michael Jackson como "estrela de discos, rádio e vídeos rock. Uma equipa de um só homem capaz de salvar a indústria. Um escritor de canções que estabelece o ritmo para uma década. Um bailarino com os pés mais sofisticados da rua. Um cantor que atravessa todas as divisões de estilo, gosto e até cor. Michael Jackson, 25 anos". Thriller era um álbum com nove temas. Sete chegaram ao top 10 de singles - e isso tem que querer dizer alguma coisa. Sozinho, Thriller deu à indústria discográfica uma das melhores performances até à época. E estabeleceu uma nova fasquia para o sucesso de um artista: em 84, John Branca, advogado de Michael, explicava à revista Time que o seu cliente tinha uma das mais altas percentagens de royalties do país, que se traduziam em dois dólares por cada unidade vendida. Multiplicando esses dois dólares pelos 100 milhões de cópias é fácil perceber de onde veio a sua vida de luxo, levada a partir do rancho Neverland, equipado com parque de diversões e zoo. Três décadas depois Mais de trinta anos após a edição de Thriller, fica claro que Michael Jackson nunca mais atingiu a fasquia desse álbum (apesar de haver momentos especiais em Bad, o registo que marca a última colaboração com Quincy Jones), mas também que a pop nunca mais foi a mesma. Em 2008, a edição especial de Thriller marcou o início de uma reconciliação com o público e a própria indústria musical. A morte trocou-lhe os planos, o que não apaga a proeza maior desta personagem singular da pop: conseguir criar pedaços de música intemporais como Thriller, um disco que resistiu aos últimos 25 anos sem uma única beliscadura. Texto: Rui Miguel Abreu Fotos: Arquivo BLITZ/Arquivo GESCO Originalmente publicado na BLITZ Extra dedicada a Michael Jackson, em junho de 2010.