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Massive Attack no Super Bock Super Rock: A trovoada chegou mais cedo

Prevista para sábado, a "tempestade" chegou ao Meco com o poderio dos Massive Attack, pela 15ª vez em Portugal e com várias músicas novas. 29 mil pessoas (segundo números da organização) neste primeiro dia de festival.

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Se gostámos das projeções psicadélicas dos Tame Impala, o que dizer dos Massive Attack? No seu 15º concerto em Portugal, a banda de Bristol provou que, no seu dicionário, a expressão "espetáculo audiovisual" não é um termo oco, antes um sinónimo de perfeita aliança entre forma e conteúdo. Na antecipação da passagem pelo Super Bock Super Rock, os ingleses já haviam prometido rechear a sua atuação de uma forte componente política, mas esta foi comunicada de forma simultaneamente subtil e poderosa. No ecrã ao fundo do palco, surgiam manchetes do dia, muitas delas traduzidas em português, mostrando a aleatoriedade da máquina noticiosa, que no mesmo algoritmo mistura boatos e política, futebol e guerras sangrentas. As promessas de Tony Blair em 2013, em contraste com as imagens do conflito iraquiano que se seguiria, ou as referências aos confrontos israelo-palestinianos foram acompanhando a música dos Massive Attack (já lá vamos), e neste universo festivaleiro, a avalanche de marcas multinacionais que desabou no ecrã aos primeiros minutos de concerto faz pensar duas, ou três vezes.

Nada disto seria interessante por si só, contudo, se em palco não estivesse uma grande banda - uma instituição que, nas últimas três décadas, envelheceu sem rugas, cresceu sem ganhar bolor e, em palco, continua elegante, atlética e poderosa. Capazes de criar ambientes oníricos ou opressivos, os Massive Attack partem para o concerto com uma percussão dupla, o que desde logo explica boa parte da força da sua artilharia. Ao longo da noite, vão chamando a palco a prata da casa: Horace Andy, ainda imperial aos 63 anos, Martina Topley-Bird, graciosa e enigmática, e Deborah Miller, uma mulher-soul capaz de espalhar pelo recinto os arrepios que a temperatura amena (felizmente) não trouxe. Hip-hop, electrónica, muito dub, rock, aquilo que se encaixota como world music: todos estes géneros e mais algum passaram e continuam a passar pela máquina dos Massive Attack, que esta noite foi uma autêntica nave espacial no Meco. Não censurando, de todo, as bandas em causa, pois o cansaço é direito que a todos assiste, temos cada vez mais a sensação de que, ao enésimo concerto de festival, muitos músicos se apresentam saturados, desmotivados, quase blasé. Hoje, os veteranos de "Blue Lines" surgiram perante nós como um grupo amadurecido pelos anos, mas com a frescura da tenra idade. O rigor musical, a tensão que rebenta em catarse - e é curioso notar que, numa banda onde a mensagem é central, a palavra não o é - e a forma como todas as peças, coordenadas pelos maestros Robert Del Naja e Daddy G, encaixam na construção de um todo que não só maior, como é gigante, fazem com que tenha sido um privilégio assistir ao concerto desta noite.

A nave espacial (ou a camioneta Fly by Nite, que vimos estacionar ao lado do palco minutos antes) levantou voo após "Unfinished Sympathy" desrespeitar o seu próprio bilhete de identidade (fevereiro de 1991) e soar perfeita para uma noite onde as palavras "avião", "Malásia" e "guerra" são pronunciadas com inesperada frequência. "Teardrop", "Angel" e "Safe From Harm", outras das pérolas mais populares do repertório dos Massive Attack, arrancam da plateia participativa o entusiasmo esperado, mas também em "Paradise Circus" o brilho de Martina Topley-Bird ofusca, tal como Horace Andy empresta calor e profundidade a todas os momentos que protagoniza ("Vai, Morgan!", incentiva alguém atrás de nós, certamente pensando no senhor Freeman). Foi um dos melhores concertos que vimos nos últimos tempos, ao qual nem promissor material novo faltou, e, na despedida sentida, pressentimos que os Massive Attack também saíram do Meco com a sensação de dever cumprido - e algo mais.

Lia Pereira

Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos