Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

João Ribas, o último dos moicanos [obituário]

Liderou bandas como Ku de Judas, Censurados ou Tara Perdida, marcos na história do punk rock entre nós, mas recusou o estatuto de "pai do punk português". Ribas (1965-2014) faleceu aos 48 anos.

O moicano de João Ribas não lhe marcava o perfil, antes o espírito. Têm sido inúmeras as vozes da música - de Zé Pedro dos Xutos & Pontapés a Tó Trips, hoje nos Dead Combo - ou da rádio - como Nuno Calado e Henrique Amaro - a identificar o vocalista dos Censurados e Tara Perdida como o genuíno representante do espírito punk na cena musical portuguesa. A história de Ribas recua ao intenso período do boom do rock português quando, com João Pedro Almendra, criou os míticos Ku de Judas, colocando Alvalade como o terceiro vértice de um triângulo punk na zona da Grande Lisboa que podia também passar pelos Olivais e pela Margem Sul do Tejo. Os Ku de Judas deixaram material gravado na compilação Vozes da Raiva Vol. 3, só editada em 1997. Nessa altura já os Censurados eram uma lenda: a banda nasceu em 1989 com João Ribas como vocalista (papel que assumiu ainda nos Ku de Judas depois da saída de Almendra), Orlando Cohen (que vinha dos Peste & Sida), Samuel Palitos (dos Overdose) e Fred (ex-Trip d'Axe). A estreia discográfica (homónima) dos Censurados chegou a estar programada para a Ama Romanta, de João Peste, mas acabou por ser apadrinhada pela El Tatu, dos Xutos & Pontapés, que também edita o segundo álbum da banda em 1991, Confusão, título certamente inspirado no ambiente dos concertos que a banda costumava assinar em salas como o Johnny Guitar e que em muito contribuíram para o estatuto de João Ribas como "showman". São muitos os testemunhos que afirmam que Ribas vivia no e para o palco: quando não estava a atuar à frente de uma das suas bandas estava certamente na primeira fila a aplaudir as prestações de outros grupos. Os Tara Perdida nasceram após a extinção dos Censurados, em 1994, no bairro lisboeta de Alvalade, que assistiu à primeira prestação ao vivo do grupo, com Ribas, Cró, Oregos e João Rui a espalharem palavras de ordem a partir do palco do Grupo Dramático Ramiro José. O álbum de estreia (homónimo) desta banda chegou às lojas em 1996, editado pela Música Alternativa, selo que lançou ainda registos como Só Não Vê Quem Não Quer (1998) e É Assim (2002). Lambe Botas (2005) teve edição da Difference e Nada a Esconder, de 2008, marcou a estreia da banda numa major, a Universal. Esta mudança levou alguns fãs a questionar a banda e, em 2009, numa entrevista concedida à BLITZ que reuniu perguntas sugeridas pelos seus leitores, João Ribas reafirmava a verdade do seu grupo: "continuamos a ser os mesmos, a fazer a música de que gostamos. As pessoas pensam que as malhas dos nossos primeiros discos são mais punk-rock, mas temos nesses discos coisas mais limpinhas do que algumas que andamos a tocar agora". Nessa mesma entrevista, Ribas recusou o estatuto de pai do punk português - "Não gosto muito de falar nisso, mas poderia mencionar Minas & Armadilhas, Corpo Diplomático, Xutos & Pontapés, Faíscas e por aí adiante", explicava, quando pressionado para identificar os pioneiros do movimento punk em Portugal. Já a propósito dos Tara Perdida e da sua vontade de prosseguir carreira com o grupo, Ribas era peremptório: "claro, esse é o nosso plano. Continuar em frente, fazer sempre coisas diferentes e cada vez melhores. Sei lá se de hoje para amanhã não entramos numa de pensar em ir lá para fora e dar umas voltinhas que ainda não conseguimos dar? Fomos apenas uma vez a França. Quem sabe?". Na mesma entrevista, o vocalista dos Tara Perdida defendia que o espírito punk era compatível com a meia idade: "o punk já tem 30 anos. O pessoal que tinha 12 anos quando o punk apareceu, como é o meu caso, já tem 40 e tais e há até gente mais velha que sempre manteve esse espírito. Há uma geração punk-rock completamente diferente, a dos putos de 18 anos que começam agora a interessar-se por isto. Até a esse nível há uma evolução e por isso é lógico que o punk evolua como o metal também evoluiu, com montes de novas categorias". Internado desde o início do mês de março devido a complicações sérias nas vias respiratórias, João Ribas não resistiu e faleceu ontem, domingo, dia 23. O músico, nascido a 6 de maio de 1965 em Lisboa, contava 48 anos. Texto: Rui Miguel Abreu Foto: Rita Carmo/Arquivo BLITZ