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Emir Kusturica & the No Smoking Orchestra no Campo Pequeno [texto+fotos]

Noite de festa em Lisboa. Realizador sérvio - e a pandilha de músicos que o acompanha - destruiu todas as barreiras com o público e trouxe um verdadeiro circo cigano a Lisboa.

A sala do Campo Pequeno, que se apresentava meio cheia à hora marcada, foi pequena para receber a descarga de energia servida em hora e meia de um concerto memorável. O realizador de cinema e músico sérvio Emir Kusturica voltou a Lisboa para, com a sua No Smoking Orchestra, incendiar um público ávido de festa.

 

 

A noite estava chuvosa, mas os ânimos aqueceram bem numa actuação que passou a pente fino as bandas-sonoras de filmes como Gato Preto, Gato Branco, A Vida é um Milagre ou Underground. Entre invasões consentidas de palco, acrobacias, duelos instrumentais, cantorias no meio da plateia e solos que revisitaram temas de Pink Floyd, ouviram-se canções memoráveis, como "Pit Bull" ou "Bubamara".

Passava meia hora do previsto quando o público, já impaciente e em número suficiente para praticamente encher a sala, recebeu de braços abertos a orquestra liderada por Emir Kusturica e muito bem conduzida pelo vocalista Nele Karajlic, vestido com um body de spandex azul com asas de morcego. O início foi solene, mas rapidamente se fez ouvir o tecno rock com rasgos ciganos da No Smoking Orchestra.

O protagonismo foi parar tanto às mãos e voz de Karajlic, sempre enérgico a percorrer o palco de lés a lés e a convidar raparigas garbosas a juntar-se a ele e aos companheiros, quanto a um violinista bem disposto, a um saxofonista sexy (o único elemento da banda a quem se aplica este adjecivo, disse a dado momento Karajlic), quanto a um acordeonista que também toca trombone, quanto aos dois guitarristas (um deles, o próprio Kusturica).

"Lisboa" foi uma das palavras que mais se ouviu da boca de Karajlic, com uma pronúncia bastante apurada, mas as canções acabariam por passar para segundo plano perante uma actuação recheada de encenações e um espectáculo rico em distracções espontâneamente coreografadas. A mestria dos músicos não é, no entanto, nunca colocada em causa.

"Unza Unza Time" foi um dos temas que mais rapidamente conquistou o público, que dançou, saltou, bateu palmas e abanou os braços como se não houvesse dia seguinte. A explosão de sonoridades de leste, toques orientais e mesmo tango levou a plateia ao êxtase em canções como "Upside Down", "Fuck You MTV" (na qual participou activamente, dentro e fora de palco), ou "Was Romeo Really a Jerk", que teve direito a uma Julieta em palco, escolhida por Kusturica.

O final do concerto adivinhou-se quando Karajlic começou a fazer comentários futebolísticos depois de apresentar a banda - o próprio era Rui Costa, mas também Cristiano Ronaldo, enquanto Kusturica era o rei Maradona. Antes de um encore que contemplou um tema da banda-sonora de Underground, Karajlic agradeceu ao público por mais uma "fantástica noite em Lisboa, uma das cidades mais bonitas do mundo". Não há dúvidas que o espectáculo servido por Kusturica e companhia foi um sucesso, mas para a próxima aconselhamos: afaste-se quem tiver problemas cardíacos.

Texto: Mário Rui Vieira

Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos