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Bon Iver no Coliseu dos Recreios, Lisboa [texto + fotogaleria + alinhamento]

Coliseu de Lisboa cheio para receber estreia ambiciosa e feliz de Bon Iver em Portugal. "Uma das melhores noites de sempre", jurou Justin Vernon. Veja o alinhamento.

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É bonito ver como Justin Vernon passou de lobo solitário (e ferido) a homem com um plano e uma grande banda - o espetáculo que, ontem à noite, o nativo da pequena cidade de Eau Claire, no Wisconsin, trouxe ao Coliseu de Lisboa, num encontro pelo qual o público há muito ansiava, nada tem a ver com a crueza do primeiro Bon Iver que conhecemos. Às voltas com um desgosto de amor, na cabana gelada de que reza a lenda, o norte-americano assinou, em For Emma, Forever Ago, canções desalinhadas de qualquer referência que lhe pudéssemos apontar, num disco tão singular que se tornava complicado imaginar-lhe um sucessor. No ano passado, Bon Iver, Bon Iver mostrou-nos um Justin Vernon panorâmico, de vistas largas e arranjos mais arrojados, ainda que o detalhe à canção e à melodia, que mais uma vez pareciam esculpidas no gelo ou cravadas na pedra, se mantivesse. Ao vivo, percebemos ontem, a tendência para crescer confirma-se: não só Bon Iver, grupo de nove músicos em palco, é hoje um fenómeno de popularidade (Coliseu esgotado há semanas e a explodir de entusiasmo) como o som que praticam - entre percussão dupla, sopros, violinos, sintetizadores e acordeões, além dos mais convencionais instrumentos rock - é progressivamente pomposo, por vezes mesmo bombástico. Nunca pensámos dizê-lo, mas nesta estreia no Coliseu de Lisboa (segue-se o do Porto) demos por nós a pensar que a música de Bon Iver já é grande demais para um palco destes. E, no entanto, não se pode dizer que Bon Iver, o grupo, tenha feito qualquer cedência - terá sido antes o público a correr na sua direcão. O concerto, promovido a grande evento da noite e da região depois do cancelamento de Morrissey em Cascais, começou pontualmente, após primeira parte de Sam Amidon, e depressa se percebeu que, o que quer que Vernon e companheiros fizessem em palco, a partida estava ganha. Irrompendo em aplausos eufóricos a cada canção, os admiradores mais dados a exteriorizar as suas emoções acabaram por manchar momentos de maior intimismo, com gritos agudos e declarações de amor nas alturas erradas (havê-las-á?). Bem melhor que a indiferença palradora dos festivais, é certo, mas ainda assim algo perturbante. Engalanado com tecidos que pendiam do teto e tanto nos pareciam véus como rendas ou teias de aranha, o palco do Coliseu começou por receber, ainda na penumbra, a quase raridade "Woods". Ajoelhado e estilhaçando a voz com auto-tune, desde logo Justin Vernon conquistou a aclamação sem reticências da plateia - mesmo que o palco permanecesse às escuras e os músicos ocupassem, ainda, os seus lugares, não foram poucos os que quiseram registar o momento com câmaras de telemóvel. Após esta introdução algo inesperada, e sob as "rendas" agora coloridas pelas luzes, o concerto entrou então no ambiente estranhamente luxuriante de Bon Iver, Bon Iver, pela mão de "Perth". Se em disco as canções são amplas, ao vivo, mercê de sopros apocalípticos e guitarras que trovejam, o céu (ou o teto do Coliseu) é o limite. Assim foi, também, em "Towers" e "Holocene", ou em "Blood Bank", do EP do mesmo nome lançado entre os dois álbuns. Não obstante a entrega e a emoção da banda - Vernon mostrou-se especialmente tocado com a receção dos portugueses, considerando esta uma das melhores noites de sempre da sua banda - por vezes, sobretudo no início do concerto, o som pareceu-nos algo confuso e sentimos a falta da minúcia de estúdio, como se (lá está) o palco fosse curto para tanta grandiosidade. Noutras ocasiões, foi a incontinência emocional dos espectadores a quebrar belos momentos como "Flume", do primeiro disco, que a meio como que se desdobraria numa segunda canção, ou a magia de "re:Stacks" - Vernon inspiradíssimo, sozinho com guitarra elétrica, sob fundo de admiradores incapazes de manter o silêncio. Outros momentos houve, todavia, que interferência alguma seria capaz de arruinar: e é aqui que confessamos a nossa estupefação por vermos "Skinny Love", certamente uma das canções mais desesperadas dos últimos anos, transformada em hino que se canta a plenos pulmões num coliseu, como se de um êxito transversal se tratasse, com as tiradas "and I told you to be patient and I told you to be kind..." entoadas ao jeito de mantra pelo povo, a reluzirem contra a bateria poderosa da banda. Foi, até àquela altura, o momento mais impressionante do concerto, mas ainda teríamos, a abrir o encore, "Wolves (Act I and II)": uma peça de força imensa que, talvez galvanizados pela humildade dos agradecimentos de Vernon, os fãs ajudaram a construir, numa sintonia e emoção belas de se ver e boas de se aplaudir. Foi um daqueles finais apoteóticos e para a história, não se desse o caso de, após este instante em que tudo brilhou, a banda ainda ter tocado "For Emma". Foi então que, de mão no peito e, tudo leva a crer, coração nas mãos, Justin Vernon e sua imensa banda se despediram do público. Para trás ficava uma noite especial, onde pudemos vê-lo(s) crescer, explorar, mostrar diferentes facetas de uma música com muitas caras e conjugar mestria musical e emoção partilhável com a plateia. Mas não será, estamos em crer, o nosso último encontro com Bon Iver: e o próximo - mesmo além do do Campo Pequeno, em outubro - será, com toda a certeza, ainda maior. 1. Woods 2. Perth 3. Minnesota, WI 4. Flume 5. Towers 6. Hinnom, TX 7. Wash 8. Creature Fear 9. Holocene 10. Blood Bank 11. re: Stacks 12. Skinny Love 13. Calgary 14. Beth/Rest Encore: 15. The Wolves (Act I and II) 16. For Emma Na primeira parte, Sam Amidon apresentou-se, com coragem, sozinho com um banjo e uma mão cheia de canções folk que tanto traziam à memória Iron and Wine, o Sufjan Stevens anterior à metamorfose ou mesmo Nick Drake (em "Way Go, Lily"). Ainda sozinho, o norte-americano referiu-se ao seu projeto como "uma banda", e mais tarde, tendo já tocado alguns temas à guitarra, recebeu a companhia de um clarinetista e de um violinista (membros dos "majestosos" Bon Iver, como lhes chamou). No final, pediu a colaboração do público para cantar "Relief", versão de um "grande escritor de canções de Chicago": não percebemos na altura, mas é de um original de R Kelly que se trata. Já com vontade de fazer a festa, a multidão que enchia o Coliseu não atinou com o coro mas compensou com palmas a compasso, que parecem ter encantado o rapaz que, durante o dia, diz ter visitado as "montanhas" (colinas?) de Lisboa. Texto de: Lia Pereira Fotos de: Rita Carmo/Espanta Espíritos