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As 10 melhores canções de protesto portuguesas, por Nuno Duarte (Homens da Luta)

Uma lista de canções de combate, de José Afonso a Valete, de Sérgio Godinho aos Peste & Sida, escolhida e documentada por Nuno Duarte, voz (e megafone) dos Homens da Luta.

1 O Que Faz Falta JOSÉ AFONSO Esta canção foi interpretada pela primeira vez para um grupo de trabalhadores em protesto contra o lock-out promovido pelo patrão de uma fábrica, ainda antes do 25 de Abril de 1974, e representa a costela mais engajada de José Afonso: fala da corja que topa da janela, imagens paradigmáticas do que era o Estado Novo. Editada em Coro dos Tribunais, o primeiro álbum depois da Revolução de Abril de 1974, transmite uma mensagem de mobilização popular, algo a que Zeca recorreria bastante nos anos que se seguiriam, tendo inclusive gravado um single para a L.U.A.R., "Viva o Poder Popular". O período consequente à Revolução foi aquele em que mudou o seu estilo de escrita, abandonando as metáforas e alegorias a que a censura o obrigava e adotando um discurso ultrarrealista, de "chamar os bois pelos nomes", algo criticado pelos seus companheiros de estrada que, na sua maioria, tinham ficado parados no tempo e no estilo do passado.
2 Confederação G.A.C. "Eu vi este povo a lutar para a sua exploração acabar" eis a primeira frase desta emblemática música do G.A.C., escrita por José Mário Branco, membro fundador deste coletivo de artistas que chegou a participar no mais politicamente engajado Festival da Canção da história, em 1975, com a música "Alerta". Com um ritmo intenso e quase bélico, esta canção transmite toda a força dos ideais defendidos pelo coletivo na sua curta existência. Formado a 1 de maio de 1974 com o objetivo de participar ativamente nos acontecimentos políticos da época, o G.A.C. lançou-se de cabeça no P.R.E.C. e nas célebres campanhas de dinamização cultural que ocorreram pelo país. As suas músicas sempre politicamente investidas refletiam também uma realidade musical esquecida pelo estado novo; ritmos como a chula, o corridinho, e o fandango foram redescobertos pelo Grupo e inseridos numa discografia que, melhor que qualquer outra, reflete o que foram os anos quentes pós revolucionários.
3 Liberdade SÉRGIO GODINHO "Paz, pão, habitação, saúde, educação": esta letra é um tratado político que reflete aspirações não só de um artista, mas de um povo saído de 48 anos de ditadura. O mais cosmopolita dos cantores da sua época não estava indiferente ao que se passava à sua volta e este seu hino à Liberdade trazia consigo o que eram, para ele, as condições essenciais para que esta se concretizasse. Como a maioria dos seus contemporâneos, também participou nas campanhas de dinamização cultural que por esse país fora davam a conhecer, a uma população, na sua maioria analfabeta ou iletrada, novas formas culturais e artísticas. As influências rock e folk que Sérgio trazia para a sua música eram o reflexo do que tinha bebido nas suas viagens pelo mundo, algumas com o famoso grupo Living Theater. Esta amálgama de referências deu a Sérgio Godinho um lugar único na constelação musical portuguesa, tornando-o um artista incontornável também na canção de protesto.
4 Tourada FERNANDO TORDO Vencedora polémica do Festival da Canção de 1973, esta canção foi interpretada como um inteligente protesto contra um regime que pressentia-se na altura não duraria muito. Ary dos Santos, militante do PCP, era já um nome grande da cena cultural nacional, mas é com esta música que começa a revelar um sentido crítico aguçado que, sobretudo depois da Revolução, o viria a tornar um dos expoentes máximos do engajamento político do P.R.E.C.. Polémico e histriónico, Ary encontrou em Fernando Tordo o contraponto perfeito para a sua veia poética, tendo os dois composto dezenas de obras nem todas de cariz político. A analogia à festa taurina trazia consigo uma subliminar mensagem de ataque não só ao regime, mas também a uma elite corporativa eternamente beneficiada e medíocre. "E diz o inteligente que acabaram as canções".
5 Pedra Filosofal MANUEL FREIRE Se houve um centro disseminador dos novos cantautores nacionais nos anos imediatamente anteriores ao 25 de Abril, esse foi o Zip Zip, programa televisivo da RTP da autoria de Carlo Cruz, Fialho Gouveia e Raul Solnado. Foi neste saudoso programa que o país ouviu, pela primeira vez, o poema de António Gedeão musicado por Manuel Freire. A retórica maniqueísta do "eles não sabem nem sonham" não deixava dúvida para quem era dirigida esta canção: um regime que amordaçava os seus criadores artísticos e um povo triste e pobre que na sua maioria não podia sonhar. Esta canção rapidamente ganhou o estatuto de hino à liberdade e o seu estilo foi muitas vezes copiado até à exaustão tendo, nesse mesmo Zip Zip, Raul Solnado criado uma personagem humorística que satirizava a proliferação de cantautores à guitarra que se registava na época.
6 Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda) FAUSTO Sem dúvida o mais lírico dos cantores da sua época, participou ativamente no conturbado P.R.E.C. ao lado de José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino e muitos outros. No entanto, a sua música sempre foi mais polida e fina que a dos seus contemporâneos. Teve o privilégio de ver composições suas gravadas por José Afonso e produziu alguns álbuns do seu mestre depois de 1975. As suas influências africanas traziam um ritmo às composições que as faziam destacar da maioria das outras contemporâneas; a sua voz suave e melodiosa sobrepunhase a outras mais emocionadas pelo calor dos tempos. "Rosalinda" é uma canção de protesto contra o projeto de uma central nuclear planeada para Ferrel, perto de Peniche. Fausto escreve esta bela canção como uma mensagem a uma criança, avisando-a da poluição, exploração e desemprego inerentes ao progresso industrial que criticava. "Cuidado não te descaia / o teu pé de catraia / em óleo sujo à beira mar".
7 FMI JOSÉ MÁRIO BRANCO Esta música-performance é, provavelmente, o mais emocionante documento do que foi o P.R.E.C., período que José Mário Branco viveu de forma intensa e que aqui é retratado num misto de sátira, confissão e crítica. "FMI" nasceu como encore do espetáculo "Ser Solidário", que viria a resultar num álbum com o mesmo nome e, segundo o autor, foi escrito de rajada em 1978 aquando da primeira visita do Fundo Monetário Internacional ao nosso país. O autor discorre sobre assuntos da época, trivialidades e factos históricos, naquilo que pode ser interpretado como uma ressaca de um tempo onde sonhou que o desfecho poderia ser diferente daquele que veio a acontecer. Tirando alguns pormenores datados, o texto é premente e atualíssimo, mas o que impressiona mais é mesmo a emoção com que o autor entrega ao publico a sua visão de um processo que o desiludiu. Perto do fim desta feérica atuação, José Mário irrompe em lágrimas perante o silêncio de uma plateia incrédula com tanta veracidade artística.
8 Repressão Policial PESTE & SIDA Expoente máximo do movimento punk nacional, a banda de Alvalade incorporou no seu som as premissas do que se tinha passado em Inglaterra dez anos antes: uma forte componente de contestação contra assuntos concretos como o serviço militar obrigatório e a violência policial, que fez de algumas das suas músicas bandeiras de uma geração que, embora não tivesse vivido o período quente revolucionário, não deixava de ser crítica em relação a aspetos vários da sociedade onde se inseria. Embora com uma letra minimal "repressão policial, terrorismo oficial" esta música tornou-se um cântico obrigatório, sobretudo nas manifestações estudantis que contestaram a introdução das propinas ou a malograda Prova Geral de Acesso (P.G.A.), no inicio dos anos 90 do século passado.
9 Parva que Sou DEOLINDA Os Deolinda são hoje um nome incontornável da canção de protesto nacional muito devido a letras inteligentes, construídas onde a ironia e o humor se cruzam, operando uma crítica incisiva a vários aspetos da vivência em sociedade. Estreada em 2011 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, esta canção foi a inocente senha para as gigantescas manifestações que viriam a ocorrer em Portugal nos últimos tempos, facto propulsionado pela emocionada plateia que a recebeu e tratou de a propagar nas redes sociais. Cantada na primeira pessoa, fala do desencanto que atravessa toda uma geração bem qualificada mas que tarda a encontrar as oportunidades que procura num país cada vez mais desigual e injusto.
10 Anti-Herói VALETE É, provavelmente, o artista português mais contestatário do momento. Dono de uma inteligência e cultura acima da média, faz das suas músicas símbolos e reflexos do que pensa em relação à realidade nacional. Sem subterfúgios estilísticos, Valete é hoje a vanguarda da canção de protesto dentro de um estilo, o hip-hop, que sempre foi marcado pela crítica social. Neste "Anti-Herói" expõe, mais uma vez, o seu pensamento em relação a uma sociedade e sistema que considera injustos e viciados, mas também apresenta uma cartilha de intenções e referências revolucionarias que vão desde Mandela a Che Guevara. Um artista sem rodeios e longe da generalidade dos holofotes mediáticos, mas com uma legião de seguidores fiéis que o reconhecem como porta-voz de uma geração.
Foto: Arquivo Gesco Publicado originalmente na edição de janeiro de 2014 da BLITZ