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Jorge Palma em 1990 numa das fotos da sessão realizada para a arte gráfica do LP “Só”

João Tabarra

101 canções que marcaram Portugal #76: ‘Só’, por Jorge Palma (1991)

É o álbum mais icónico de Jorge Palma, um registo sem rede da sua intimidade, provando que as grandes canções são grandes canções mesmo desamplificadas. ‘Só’ dá título a este disco despojado e a suas palavras poderiam ser uma resenha do percurso desassossegado do seu autor. A 76ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

‘Só’
Jorge Palma
(1991)

Depois de um jantar no restaurante Arcos, em Paço de Arcos, José Fortes, Francis e Jorge Palma regressavam ao estúdio da Valentim de Carvalho para continuar a trabalhar no álbum “Só”. Neste estúdio, inaugurado em 1963, tinham gravado António Calvário, Amália Rodrigues ou Carlos Paredes; “Só” seria a sua despedida. Os três regressavam, naquele dia de Outono, no Mini azul-escuro de Jorge Palma, ao mítico estúdio onde tinham começado as gravações a meio da tarde e só de lá saíram de madrugada, como era habitual. Dali a poucos dias ficaria pronto um dos álbuns mais icónicos da carreira de Jorge Palma e da música portuguesa.

Jorge Palma estava, em 1991, numa encruzilhada. A sua carreira (mais um trilho musical que uma carreira linear) requeria uma inflexão, numa fase em que estabilizara o seu público (pouco para além do nicho), em que atingira o seu break-even. Era, reconhecia-se, um contador de (grandes) histórias, um compositor e músico talentoso. Mas faltava-lhe fundamentar essa vocação em vendas, transversalizar aqueles que compravam discos, competir comercialmente com Rui Veloso ou Sérgio Godinho (com este último aprendera a escrever canções em português, depois de um tirocínio com Ary dos Santos em 1972). Era um autor que prestigiava o catálogo da sua editora, mas que não a fazia obter dividendos substanciais. Não que os tenha alcançado com “Só” – que é bem mais um álbum que se tem vindo a degustar por décadas do que tendo alcançado sucesso imediato -, mas teve todavia a virtude de dar a conhecer Jorge Palma a um auditório mais amplo e reajustar o seu percurso.

A ideia configuradora de “Só” foi de Tozé Brito, responsável da Polygram, que não detinha orçamento para gravar um álbum dispendioso com Jorge Palma. Propôs por isso a edição despojada das grandes canções de Palma, como um recital: só voz e piano. Para este trabalho intimista, foram concedidos três privilégios: dois técnicos tarimbados (José Fortes e Francis, ex-guitarrista dos Xutos e Pontapés) e um gigante Steinway de concerto. Só. Palma, a sua voz e um piano. De resto, apenas silêncio.

O álbum minimalista (até no título) estava imbuído do Conservatório de Piano – de Lizst, de Bach, de Mahler, de Debussy – que Jorge Palma frequentava. Os seus dedos tinham a expertise que Olga Prats, sua professora, exigia. A voz estava límpida, vigorosa, tanto quanto anos antes, em que precisava de a projetar nas carruagens do metro de Paris. A canção que dá título ao álbum, ‘Só’, é uma reflexão com vários sentidos da sua intimidade e do mistério de que é feito. É uma canção dogmática, paradoxal e lúcida. É uma canção habitada por contradições, por labirintos e por encruzilhadas – que são conceitos transversais à sua génese (‘Há divórcio entre o dentro e o fora’). Jorge Palma teve sempre ‘duas almas em guerra’ e sempre soube que nenhuma iria ganhar. Foram sempre o leitmotiv da sua intimidade e da sua identidade. A canção é uma tessitura das suas inquietações, dos seus cambiantes, da sua densidade (‘Fiz a cama na encruzilhada / E chamei casa a esse lugar’).

Nunca foi um músico engagé. Tem feito da liberdade o seu vinco. Sacudido consciências com a sua verve introspetiva. Cartografado desassossegos. Feito sonhar com deambulações e ambientes de penumbra. Para Jorge Palma, o caminho, a estrada, é bem mais substancial que os pontos de partida ou de chegada. Durante décadas, seguiu o fundamento do Gato de Cheshire em “Alice no País das Maravilhas”, em que ‘não se sabendo que caminho seguir, qualquer caminho serve’. O perto, para Jorge Palma, foi muitas vezes longe de casa. Houve sempre estradas que o levaram ao encontro de pessoas com quem não previu relacionar-se, lugares onde não concebeu estar, aventuras que não fantasiou viver. Não evitou as margens (sobretudo predispôs-se a viver as margens) e nunca se acantonou em correntes serenas. Tem vivido sem bússola. Em movimento sincopado, provocador e denso. Tem sido aclamado, decalcado, mitificado e perdoado. Tem sido bem mais Álvaro de Campos que Ricardo Reis. Mais disfórico que aprumado. Mais sentimental que cerebral. É uma combinação de Bob Dylan, Jack Kerouac, Ary dos Santos e Charles Bukowski. Um reverso do previsível e da ponderação. É em toda esta massa que reside a sua improvável aclamação. É este o perfil que inverte as probabilidades, que é a exceção num mercado ditado por regras racionais e convencionais.

“Só” é a legenda mais concreta da sua identidade. Da sua identidade servida com sobriedade e elegância. Provando que as grandes canções são grandes canções mesmo desamplificadas. Sobretudo desamplificadas. É um álbum autêntico. Porventura o seu álbum mais icónico. Mais emotivo. Mais espontâneo. Mais despretensioso. Perdurou no tempo e na memória mais arraigada da nossa geografia sentimental.

Mais que um disco, “Só” é uma peça concetual. Um compêndio sem rede da intimidade de Jorge Palma. Um álbum referencial no seu percurso. Um álbum marcante na música portuguesa. Uma das poucas criações musicais não datadas. Que se ouvirá sempre. Sem marcas de passado. Mais que se ter conservado, cresceu com o tempo. É um álbum atual e sê-lo-á em qualquer época. Ajuda ter sido captado num registo sóbrio, mas sobretudo é um álbum atual porque é uma obra-prima muito bem executada.

Tenho as chaves do céu e do inferno
E deixo o tempo decidir

Ouvir também: ‘Jeremias, o Fora da Lei’. A canção fora sempre tocada à guitarra, mas nesta versão do álbum “Só” trasvestiu-se de uma atmosfera do ragtime, mais compassada e rápida do que a original.