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Paulo de Carvalho e Tozé Brito na foto da capa de “Cantar de Amigos” (1979)

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101 canções que marcaram Portugal #75: ‘Olá, Então Como Vais?’, por Tozé Brito e Paulo de Carvalho (1979)

Tozé Brito é a grande referência da composição de música ligeira em Portugal. Criou algumas das grandes canções que fazem parte do percurso de Quarteto 1111, Green Windows e Gemini. Sobressaiu a partilhar o melhor de si. Na semana em que 12 das suas criações foram revisitadas num álbum de homenagem, recordamos uma das suas canções mais simbólicas, a 75ª de 101 que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Olá, Enquanto Como Vais?'
Tozé Brito e Paulo de Carvalho
(1979)

Uma das canções do álbum homónimo dos Beatles, de 1968, é ‘Martha, My Dear’. A canção escrita por McCartney era dedicada a Martha, a sua cadela Bobtail, que passou a ser a mascote da banda e acarinhada por todos os seus integrantes. O Bobtail era uma das raças favoritas de Pedro Albergaria, um dos criadores do programa de rádio ‘Em Órbita’, emitido no Rádio Clube Português a partir de 1965, ele que a partir dos anos 80 se dedicou à criação de cães, a ser júri de concursos nesta área e a apresentar programas na RTP dedicados aos animais. Quer os Beatles quer Pedro Albergaria teriam uma influência substancial no jovem Tozé Brito, que percebeu o seu destino ouvindo o primeiro álbum da banda de Liverpool, com a sua linguagem refinada, espiritual e vigorosa, a destoar do padrão francês e italiano, engravatado e austero, que se ouvia em Portugal. Os anos 60 estavam a ser vibrantes – musicalmente e não só: os Porfírios já não exigiam romarias a Londres para adquirir outfit arrojado e os cabelos compridos passaram a não ser reprovados. O futuro musical estava iminente e Tozé Brito acompanhou o seu curso. Comprara mesmo uma viola-baixo igualzinha à de Paul MacCartney e escolhera o instrumento (também) por causa do seu swag.

Tozé Brito vivia no Porto e gravava, com o seu gravador de bobines Revox, todas as emissões do programa ‘Em Órbita’, que divulgava em exclusivo música anglo-saxónica e que tinha como indicativo a canção dos Kinks ‘Revenge’. Em 1967, o ‘Em Órbita’ concedeu uma exceção: emitiu o EP “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, do Quarteto 1111, que Tozé Brito viria a integrar dali a dois anos. Antes passaria pelos Pop Five (Music Incorporated), em pandã com Filarmónica Fraude, Conjunto Académico João Paulo e Sheiks a tatear o rock que se fazia (e faria) em Portugal.

O Quarteto 1111 era o melhor ‘conjunto’ do país e em 1969, aos 18 anos, Tozé Brito viu o seu destino ser providente quando anos antes fora forçado a escolher a viola-baixo como o seu instrumento, nos Pop Five, porque sobravam guitarristas. O Quarteto 1111 procurava justamente um novo baixista, depois de Mário Rui Terra ter sido mobilizado para o Ultramar. Começaria aí, de facto, a certeza do rumo que iria seguir. E era já aí evidente a lucidez e pragmatismo de Tozé Brito – que exigiu ao Quarteto 1111 um salário de 7.500 escudos (cerca de 2.500 € atuais) mensais para trocar o Porto pela capital. Aos 18 anos, tinha a certeza de que não teria temperamento para indefinições financeiras. Com 18 anos, tinha a sensatez, por saber que não queria fazer outra coisa senão música, de assegurar o seu sustento – ao contrário dos membros da maioria das bandas de então, para quem a música era um interlúdio. Para mais, os cenários de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau toldavam o alento de estabilidade da maioria dos jovens de então – estivessem ou não envolvidos na música.

Quarteto 1111. Tozé Brito é o segundo a contar da esquerda

Quarteto 1111. Tozé Brito é o segundo a contar da esquerda

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O Quarteto 1111 era, dizia-se, o melhor ‘conjunto’ do país, disputando atenções com os Sheiks (de Paulo de Carvalho), que fantasiavam uma carreira internacional e cantavam em inglês. O Quarteto era, por seu lado, uma banda mais complexa, mais experimentalista, mais comprometida para com Portugal e para com o desconcerto político. Era todavia demasiado experimentalista para o mainstream e demasiado alternativa para o cenário musical de então. Manifestou-se, ainda assim, como a escola de Tozé Brito para a escrita de canções em português. José Cid foi um bom pedagogo, tal como seria Ary dos Santos anos depois (em meia hora, rematava um poema sublime para uma melodia; um poema com a métrica e tónica certas para uma melodia certa), quando Tozé Brito escreveu, em parceria com Ary, para Carlos do Carmo.

Exigia-se, depois que fora o turbilhão dos primeiros registos do Quarteto 1111, sustento. E este veio manifestado nos Green Windows, que era a expressão mais temperada e descomplicada do Quarteto – desbloqueando a têmpera mais comercial com que Tozé Brito iria atravessar o final dos anos 70 com os Gemini. Nos Gemini, misturou Abba, disco sound e fórmulas certeiras. Que sabia certeiras. Ganhou dinheiro. Soube ganhar dinheiro e converter o seu talento em 'cash flow'. Soube perceber, numa ambiência revolucionária, que a cantiga não tinha de ser sempre uma arma. Havia, antes de paz, pão, habitação, saúde e educação, que dar circo ao povo, ao público. E que as canções não são feitas apenas de público; são feitas por músicos que se debatem com encargos e quotidianos comezinhos que custam dinheiro de que o público se alheia. Inverteu a dialética do músico comprometido com a mensagem, somente com a mensagem, e sofreu críticas truculentas de quem considerava que a substância da música não fazia sentido com melodias orelhudas, leves e de canções pop. Apenas isso: canções pop - de amor, de camas desfeitas, de amores perdidos ou por conquistar, de ardores afetivos. Do quotidiano enfim. Tozé Brito soube escrever sobre o quotidiano e soube ler para quem escrevia. Soube identificar targets. Soube enquadrá-los na génese daqueles que compravam discos, daqueles que compravam um bilhete para os concertos, daqueles para quem a música deveria retratar a sua rotina. Daqueles que queriam apenas cantarolar, dançar, reter as palavras dos refrões.

Os Green Windows em palco. Tozé Brito é o segundo a contar da esquerda

Os Green Windows em palco. Tozé Brito é o segundo a contar da esquerda

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Percebeu que tinha um dom. Muitos dons. Muitos dons na medida certa. Constatou que a música em Portugal precisava dele e que ele não conseguiria viver afastado desta. Constatou que era sobretudo um sublime escritor de canções. De canções sublimes. Escreveu 500 canções. Repete-se: 500 canções. Mas Tozé Brito não escreveu 500 canções reservado numa secretária imerso como um asceta. Escreveu 500 canções vivendo. Afugentando ladrões no tempo do Quarteto 1111 que lhes queriam roubar os sacos com notas de 20 e 50 escudos que amealhavam dos cachets. Passando a salto a fronteira de cabelo rapado, enquanto cumpria o serviço militar, sentado ao lado de um PIDE subornado – para não ter de combater em África. Estudando Sociologia em Londres e calcorreando caves escuras ao fim de semana farejando novos códigos musicais. Calcorreando Portugal em trilhos sinuosos para atuar em aldeias medievais. Vencendo um festival da canção e sentindo os seus joelhos a tremer pelo peso que era representar o seu país na Europa. Desempenhando funções diretivas no mercado editorial, achando talentos e enquadrando-os com aquilo por que o nosso mercado ansiava. Mas escreveu 500 canções. Sobretudo escreveu 500 canções. E é por isso que será recordado; é por isso que quererá ser recordado.

Esta semana foi editado um álbum que rememora 12 destas 500 canções – por músicos que o admiram. Músicos de outros segmentos musicais, com outras retóricas criativas. Que falaram com ele. Que falaram com o seu percurso e o desconstruíram. As canções há muito que são de todos nós – porque Tozé Brito pouco escreveu para si e quase tudo para outros por quem sentia afinidade afetiva. Mais emotiva que musical.

Em 1983, Herman José, para quem o futebol era uma ciência obscura, pediu a Tozé Brito e ao seu amigo – jornalista desportivo – António Tavares Teles que escrevessem os textos para uma personagem engajada com este desporto, o Estebes. O Estebes, ferrenho do F.C.P., homem do norte (como o eram Tozé Brito e Tavares Teles), de suíças, faces avermelhadas pelo excesso de vinho, casaco aos quadrados e gravatas bizarras, substanciava-se também muito nos textos destes parceiros treinados. Tinham já escrito canções juntos. Tinham escrito uma das canções que faria parte do hemisfério de Tozé Brito e Paulo de Carvalho: ‘Olá, Então Como Vais?’. Em 1979, fora imposto a Paulo de Carvalho gravar um último álbum para a editora Danova antes de assinar pela Polygram de Tozé Brito, que assumira recentemente as funções de responsável de artistas. Mais: fora imposto que o álbum teria de ter a parceria com Tozé Brito. Nascia assim o álbum “Cantar de Amigos” e neste uma das canções mais simbólicas das suas carreiras.

Com coros de Adelaide Ferreira, Mila Ferreira, Fátima Padinha e Lena Coelho, o álbum viveu sobretudo para comprovar que vozes diferentes podem coabitar e o que as une musicalmente é a empatia. As vozes de Tozé Brito e de Paulo de Carvalho, porventura o cantor mais talentoso da sua geração, afeiçoaram-se e ‘Olá, então como vais?’ poderia ser tomada como cartilha para a escrita de canções ligeiras. É um diálogo entre dois amigos, de consolação depois de um amor desfeito. Com nenhuma referência que não a esse amor desfeito. É uma canção de amor. De desamor. De uma ruína com vestígios de afeição, povoada de passados e de ilusão de reatamento. Só. Tanto. Tão simples e tão complexo. Harmonizando afetos, acordes, timbres e versos. Em catadupa. Em aprumo. É uma canção elegante. Intemporal. De histórias desde sempre contadas. Que nos continua a povoar – a nós, à nossa música e (espera-se) a quem compõe e comporá canções de amor em Portugal.

Tozé Brito faz 70 anos e mantém-se inquieto. Compondo. Vivendo. Sorrindo. Partilhando o melhor de si – porque jamais quis infletir essa sua génese.

Quando ela entrou e sorriu e me olhou, não deixou ficar
O nosso amor pelo chão para eu arrumar
Pôs a ternura a aquecer toda a noite à lareira
Pôs o amor a correr e a alegria no ar para eu cantar

Ouvir também: ‘À Tua Espera’ (1980). Cantada por Simone de Oliveira, com letra de Tozé Brito e música do seu irmão Pedro Brito. O processo de composição começava invariavelmente com a música a ser criada por Pedro Brito e a letra a ser acrescentada depois sobre a base musical. Esta canção foi uma exceção, com a letra a ser criada antes da música. Compuseram muitas canções juntos, tais como 'Zé Gato', a que Pedro Brito deu voz.

  • 101 canções que marcaram Portugal #74: ‘Vígaro Cá, Vígaro Lá’, por Lena d’Água & Atlântida (1981)

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    Canção de revolta e de inquietação, a primeira composta por Luís Pedro Fonseca para Lena d’Água depois da saída de ambos da Salada de Frutas. À melodia e letra bem desenhadas, sobrepôs-se uma figura hipnótica de minissaia, botas, fita na cabeça e trejeitos sedutores. Lena d’Água assumia-se como um ícone do rock português na fase mais vigorosa. Esta é 74ª canção de 101 que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #73: ‘Loucos de Lisboa’, pela Ala dos Namorados (1994)

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    Assentes na figura extravagante e voz de contratenor de Nuno Guerreiro, nas composições de Manuel Paulo e João Gil e nas letras elegantes de João Monge, a Ala dos Namorados combina várias linguagens para conceber grandes canções. ‘Loucos de Lisboa’ é uma homenagem a figuras desimportantes da cidade de Lisboa, aquelas que compõem a sua substância. Bem-vindos à 73ª canção de 101 que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #72: ‘A Casa da Mariquinhas’, por Alfredo Marceneiro (1961)

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    Alfredo Marceneiro cantava o fado como se rezasse. Conhecia as suas raízes: o seu sentido mais erudito e os seus mistérios mais arraigados. O fado tornou-se naquilo que Marceneiro impôs. Os poetas e os guitarristas que o acompanharam entenderam o seu estilar, o seu pontuar, o seu ritmo. ‘A Casa da Mariquinhas’, extraída do álbum “The Fabulous Marceneiro”, passou a definir a raça mais autêntica da canção de Lisboa. É a 72ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #71: 'Fado do Campo Grande', por Carlos do Carmo (1977)

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    “Um Homem na Cidade” é uma obra-prima. Fez sair o fado dos seus meios mais reservados. A partir deste álbum, o fado passou a não estar datado. As canções celebram Lisboa: os seus pregões, as suas figuras, os seus lugares, os seus emblemas e os seus retratos sentimentais. O ‘Fado do Campo Grande’ é a génese mais íntima dos seus criadores e que agrega a homenagem que fizeram à sua cidade. É a 71ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #70: 'Balada da Rita', por Sérgio Godinho (1978)

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    "Kilas, o mau da fita" estreou-se há 40 anos. A ‘Balada da Rita’ foi uma das canções compostas para este filme por Sérgio Godinho, coargumentista e autor da trilha sonora. É uma canção densa, emotiva, com um arranjo doce e palavras cruas. Poderia ser a sinopse de mulheres desencantadas com amores arriscados, instáveis e fatais. É a 70ª de 101 canções que marcaram Portugal