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Brasil chora a morte de Marília Mendonça, a “rainha da sofrência”

O meteoro sertanejo morreu mas não se apagou. Um acidente de avião matou a cantora brasileira Marília Mendonça e fez nascer o mito do "feminejo". A parceria com "as patroas" brilhou na Times Square e quando tudo parecia estar a começar, acabou. O Brasil está de luto e com o coração apertado. Milhares de pessoas acorreram ao velório e a família abriu a cerimónia aos fãs da cantora

Christiana Martins

A música brasileira está de luto. Minutos antes de o avião que levava a cantora Marília Mendonça para um espetáculo na cidade de Caratinga levantar voo, a artista telefonou para alguns fãs, em chamadas surpresa. Agora, a sua morte está a ser comparada à de Ayrton Senna. Com 26 anos, a artista tinha cerca de 40 milhões de seguidores nas redes sociais e já tinha composto 324 músicas.

O governador do estado de Goiás decretou luto oficial e um estádio foi preparado para prestar as últimas homenagens à cantora. O velório foi aberto ao público às 16h (Portugal continental) deste sábado e são esperadas cerca de cem mil pessoas. Antes, durante duas horas, a família teve direito a uma cerimónia privada. As ruas de Cuiabá encheram-se de pessoas simples, ostentando a bandeira brasileira. O sepultamento estava previsto para o fim da tarde deste sábado, numa cerimónia restrita.

Em fila indiana, ordeira, com flores e fotos nas mãos, milhares de pessoas acorreram de todo o país a Goiânia para a última despedida a Marília Mendonça. Idosos, crianças, homens e mulheres, muitas mulheres, o público a quem mais a cantora se dirigia. Compareceram no estádio muitos músicos sertanejos, e as bancadas serviram para prender dezenas de coroas de flores enviadas de todo o Brasil.

Incansáveis estavam as parceiras Maiara e Maraísa, que não se afastavam da urna e amparavam a mãe de Marília Mendonça durante a vigília. Do lado de fora, o público aplaudia e cantava músicas de Marília Mendonça e a cavalaria chegava no fim da tarde deste sábado para acompanhar o cortejo até ao cemitério.

Avião embateu em fios de alta tensão

O avião bimotor está partido sobre as pedras numa corredeira, numa área florestal a dois quilómetros da cidade de Caratinga, no estado de Minas Gerais. Já há pistas sobre as causas do acidente: a aeronave embateu em fios de alta tensão, antes de cair, a dois quilómetros do aeroporto. O aparelho levava cinco ocupantes: três tripulantes, além do tio e assessor e do produtor da cantora.

Supersticiosos, aos brasileiros não escapou a partilha feita por Marília Mendonça numa rede social há exatamente dois anos. Segundo o "G1", a 5 de novembro de 2019 a cantora partilhou: "Cada um nas suas dificuldades, eu trocaria qualquer coisa para não ter que ficar pegando avião. Só para ficar pertinho da família. Mas é isso! Somos mais fortes do que imaginamos!"

História de sucesso

Marília dias Mendonça nasceu em Cristianópolis, no interior do estado de Goiânia, em 1995, e em 2015 já tinha vendido a primeira composição, "Minha Herança", para a dupla sertaneja João Neto e Frederico. A música tinha sido escrita com 12 anos, em homenagem ao avô.

Criança de família humilde, começou a tocar violão com aulas pagas pelo avô e a cantar na igreja, mas o primeiro palco foi um bar gerido pela própria mãe. Os pagamentos eram entregues à família, para ajudar a pagar a conta da luz.

Há um mês, Marília Mendonça celebrou o regresso aos palcos após a pandemia, num espetáculo em São Paulo cujo relvado foi atravessado por uma passadeira vermelha.

"Infiel" foi o primeiro grande sucesso de Marília Mendonça. É uma música cuja letra fala de traição, dor, motel e, sobretudo, a capacidade de as mulheres de darem a volta por cima. A carreira da cantora teve início nos bares de Goiânia, capital do estado no interior do Brasil, mas aos 26 anos já se tinha afirmado como uma voz de afirmação feminina na música sertaneja, um segmento tradicionalmente dominado pelos homens.

"A mulher parou de cantar o que o homem quer ouvir e passou a cantar o que a mulher gosta de ouvir. Antes, as mulheres tinham que ouvir a música voltada para o homem", afirmou Marília Mendonça, em 2016, citada este sábado pelo jornal digital brasileiro "G1".

Marília Mendonça foi a voz central do "feminejo", que colocou as mulheres como protagonistas das suas músicas. Mas a sua presença ultrapassou fronteiras, tendo gravado inclusive com Gal Costa.

O maior projeto da carreira da artista, contudo, foi "Todos os Cantos", quando fez uma digressão por todo o Brasil, tendo gravado uma música em cada capital do país de dimensões continentais e que vendeu mais de 240 mil cópias. Marília Mendonça aparecia de surpresa nas cidades e fazia apresentações gratuitas em praças públicas. Desse álbum saíram sucessos como: "Ciumeira", "Todo Mundo vai Sofrer", "Apaixonadinha", "Supera" e "Graveto", refere o "G1".

Há dois anos e três meses apenas depois de ter sido mãe de Leo, que completa dois anos em dezembro, a cantora regressou aos palcos. Recentemente empreendeu a parceria "as patroas", com as cantoras Maiara e Maraísa, que a levou a Times Square, em Nova Iorque, e a projetou internacionalmente, tendo agendada uma digressão que a traria a Portugal e a levaria aos Estados Unidos.

Nas redes sociais, Marília Mendonça era um fenómeno. Artista mais ouvida do Brasil nos últimos dois anos, tinha cerca de 37 milhões de seguidores no Instagram, passando para 40 milhões desde o anúncio da sua morte. A cantora realizou em 2020 a maior emissão ao vivo desde a criação do Youtube, com 3,2 milhões de pessoas a assistir em simultâneo. Na plataforma de streaming Spotify tinha 21,3 milhões de seguidores, sendo 8,3 milhões de ouvintes mensais.

Famosos em luto

Todos vieram a público manifestar pesar: Gal Costa, Anitta, Gilberto Gil, Wesley Safadão, Caetano Veloso, que tem inclusivamente uma música do seu último disco a citar Marília Mendonça. Mas também Neymar, o Chapecoense, clube de futebol que perdeu toda a equipa num acidente de avião, e até o Flamengo, em pleno Maracanã, prestaram homenagens à cantora.

A cantora Roberta Miranda, uma das primeiras vozes femininas da música sertaneja brasileira, passou mal ao saber da morte de Marília Mendonça, tendo sido atendida na urgência do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, revelou o jornal "Extra".

Até os jornalistas revelaram estar abalados, com declarações em direto na Rede Globo, que alterou toda a sua programação para acompanhar os trabalhos de transporte dos corpos. Os jornalistas perderam o distanciamento e assumiram-se como fãs da cantora. "É muito triste estar aqui", afirmou a repórter da CNN Brasil. Nas transmissões em direto, há até psicólogos a ajudar os fãs a lidar com a dor: "O Brasil está num luto coletivo."