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Lena d'Água no videoclip de ‘Vígaro Cá, Vígaro Lá’

101 canções que marcaram Portugal #74: ‘Vígaro Cá, Vígaro Lá’, por Lena d’Água & Atlântida (1981)

Canção de revolta e de inquietação, a primeira composta por Luís Pedro Fonseca para Lena d’Água depois da saída de ambos da Salada de Frutas. À melodia e letra bem desenhadas, sobrepôs-se uma figura hipnótica de minissaia, botas, fita na cabeça e trejeitos sedutores. Lena d’Água assumia-se como um ícone do rock português na fase mais vigorosa. Esta é 74ª canção de 101 que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

Agosto de 1950: o Benfica de Rogério Pipi, Arsénio e Julinho chega ao Lobito, na província de Benguela, para defrontar a ‘seleção’ local, o oitavo dos 15 jogos da sua digressão por Angola. O Benfica tinha vencido em Junho a Taça Latina ao Bordéus, num jogo com 160 minutos, tendo Julinho marcado o golo da vitória aos 146 minutos. José Águas trabalhava na Robert Hudson do Lobito, representante da Ford, e foi chamado para integrar a ‘sua seleção’ contra o clube que venerava. Colara mesmo na parede do seu quarto um poster dos heróis da Taça Latina desse ano, mas pisar o mesmo campo dos seus ídolos era já forma bastante de se sentir integrado. Quis o destino e a sua destreza que nessa tarde marcasse dois dos três golos com que o Lobito derrotou o Benfica – e que impulsaram a contratação de José Águas pelo clube liderado por Mário Madeira ainda em Angola e o fizeram integrar a equipa nos últimos três jogos que ainda restavam no seu país.

A pequena Lena d'Água na capa da revista “O Benfica Ilustrado”

A pequena Lena d'Água na capa da revista “O Benfica Ilustrado”

DR

Uma das paixões de José Águas era a música, bem mais que o futebol, o qual encarava como um ofício. Aproveitava as digressões com o Benfica para comprar discos de jazz, das big bands de swing como Count Basie e dos grandes cantores como Frank Sinatra, Louis Armstrong ou Nat King Cole. À noite, na sua casa no Bairro de Santa Cruz, onde vivia desde 1958, cantava para os três filhos as canções que ouvia no seu gira-discos, com as pronúncias espanhola e inglesa a conviverem combinadas, o que provocava risota. Lena d’Água acostumara-se assim a frequentar a música desde cedo através do seu pai – ainda longe do timbre de primeira vocalista do rock português e longe da figura sensual nos anos 80.

A vida de Lena d’Água povoa-se de figuras masculinas marcantes. Pisou um palco a primeira vez em 1976 ao lado de Tó Leal, um rapaz franzino de cabelos longos, nos Beatnicks. Os Beatnicks eram liderados por Ramiro Martins, seu marido, e faziam-se transportar para os concertos na carrinha de distribuição de leite do sogro de Lena d’Água. Tinham de ir e regressar no mesmo dia - que o transporte tinha serventia artística mas sobretudo de sustento na manhã seguinte. Tocavam rock sinfónico, progressivo, embalados por Yes, Genesis ou King Crimson, mas o percurso de Lena d’Água trilhar-se-ia bem mais de um rock menos psicadélico dali a pouco, com os Salada de Frutas.

Em 1978, já depois do fim dos Beatnicks, sabia já qual iria ser o seu destino e estava já obstinada a lutar por ele. Os Salada de Frutas seriam o influxo de que Lena d’Água precisava para se projetar enquanto Lena d’Água, ainda que não o soubesse ainda. Numa banda povoada de bigodes e suíças, sobressaía uma figura hipnótica de mini-saia, botas, fita na cabeça e trejeitos sedutores. Lena d’Água absorvia atenções (quase todas, diga-se) e em 1981, depois do êxito de ‘Robot’, foi dispensada dos Salada de Frutas, a banda criada também por Luís Pedro Fonseca, que não tolerou a desonra e acompanhou Lena d’Água na saída. Os anos 80 tinham começado pujantes e havia muito que fazer. Haveria de se fazer ‘Sempre que o Amor Me Quiser’, ‘Nuclear não, obrigado’, ‘No fundo dos teus olhos de água’ ou ‘Demagogia’, mas antes havia que fazer ‘Vígaro Cá, Vígaro Lá’.

Foi a primeira canção pós-Salada de Frutas composta por Luís Pedro Fonseca para Lena d’Água e a banda que a acompanhava, a Banda Atlântida. É uma canção de revolta – como muitas que comporia em favor da intransigência – e de inquietação. Seguiu-se à indisposição que a banda anterior lhe provocara, mas o vigarista que se propunha vender monumentos da cidade de Lisboa era uma alegoria para burlões e charlatões que inundavam a sociedade. O vígaro manifestava-se enfim como um alerta para contratempos. O refrão era orelhudo e a música bem urdida – com andamentos, variações harmónicas, vocais e instrumentais cativantes. A letra era engenhosa e melódica. Pegou. Marcou. Assumiu-se como um ícone do rock português na sua fase mais vigorosa. Até hoje. Lena d’Água tinha a Banda Atlântida, mas sobretudo a Banda Atlântida tinha Lena d’Água – e a Valentim de Carvalho tinha a intuição que Lena d’Água e a Banda Atlântida tinham tudo para dar certo. Levaram as canções para estúdio de supetão e poucos meses depois de terem deixado os Salada de Frutas o álbum “Perto de ti” estava pronto. ‘Vígaro cá, vígaro lá’ era um dos hits que passaram a repetir na rádio.

Passou também a exigir-se um clip (então teledisco) para propulsar visualmente as canções. O teledisco de ‘Vígaro Cá, Vígaro Lá’ foi gravado à beira-Tejo num gélido dia de Novembro – que o tempo corria depressa e havia centenas de bandas a querer revelar-se nesse tempo de fausto criativo e avidez do público em sorver novos sons. Lena d’Água tentou abstrair-se do vento glacial desse dia, mas não podia prescindir do outfit provocante e reduzido – em consonância com o ícone que representava. Bem tentou abrigar (pelo menos) as mãos, sem efeito no frio que sentiu – mas o teledisco foi registado e começaria ali a sua carreira exuberante.

Atravessou as décadas que se seguiram (até hoje) produzindo canções de qualidade, rodeando-se de músicos de qualidade, flexível para com novas linguagens musicais e recetiva a novas abordagens para com aquilo que produziu no passado. Manteve-se inquieta, acesa, determinada a substanciar um lugar que conquistou e que lhe pertence na música portuguesa. Depois de muitos anos remetida à indiferença por parte do mercado mainstream, encontrou em 2019 quem bem se conjugasse para avivar um (novo) percurso que se considerava improvável. Continua a viver serena e agitada – como um oxímoro daquilo que sempre foi. Lena d’Água continua a ser magnética. Desassossegada. Genial. A representar o melhor que a música portuguesa tem como referência. Desalmadamente.

Há centenas por aí
À espera de encontrar
Um pato pra ovo pôr (quá quá quá)
Vão convencer-te a comprar
o Marquês de Pombal
O Campo Grande ou os Jerónimos

Ouvir também: ‘Estou Além’ (1987). De António Variações, que tratava Lena carinhosamente por Aguinha. Este álbum (“Aguaceiro”) contém, entre outras canções, originais depurados de José Afonso (‘Era um Redondo Vocábulo’) ou Sérgio Godinho (‘A Barca dos Amantes’).

  • 101 canções que marcaram Portugal #69: 'Cavalo à Solta', por Fernando Tordo (1971)

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    Há 50 anos, realizou-se o Festival da Canção mais disputado de sempre. A canção de Fernando Tordo e Ary dos Santos, primeira composição em conjunto, não venceu mas assumiu-se como uma das mais belas criações musicais por cá produzidas. Com versos de raiva e amor, doçura e intransigência, ‘Cavalo à Solta’ contém as linguagens poética e musical que influenciariam a nova canção ligeira. É a 69ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #70: 'Balada da Rita', por Sérgio Godinho (1978)

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    "Kilas, o mau da fita" estreou-se há 40 anos. A ‘Balada da Rita’ foi uma das canções compostas para este filme por Sérgio Godinho, coargumentista e autor da trilha sonora. É uma canção densa, emotiva, com um arranjo doce e palavras cruas. Poderia ser a sinopse de mulheres desencantadas com amores arriscados, instáveis e fatais. É a 70ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #71: 'Fado do Campo Grande', por Carlos do Carmo (1977)

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    “Um Homem na Cidade” é uma obra-prima. Fez sair o fado dos seus meios mais reservados. A partir deste álbum, o fado passou a não estar datado. As canções celebram Lisboa: os seus pregões, as suas figuras, os seus lugares, os seus emblemas e os seus retratos sentimentais. O ‘Fado do Campo Grande’ é a génese mais íntima dos seus criadores e que agrega a homenagem que fizeram à sua cidade. É a 71ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #72: ‘A Casa da Mariquinhas’, por Alfredo Marceneiro (1961)

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    Alfredo Marceneiro cantava o fado como se rezasse. Conhecia as suas raízes: o seu sentido mais erudito e os seus mistérios mais arraigados. O fado tornou-se naquilo que Marceneiro impôs. Os poetas e os guitarristas que o acompanharam entenderam o seu estilar, o seu pontuar, o seu ritmo. ‘A Casa da Mariquinhas’, extraída do álbum “The Fabulous Marceneiro”, passou a definir a raça mais autêntica da canção de Lisboa. É a 72ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #73: ‘Loucos de Lisboa’, pela Ala dos Namorados (1994)

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    Assentes na figura extravagante e voz de contratenor de Nuno Guerreiro, nas composições de Manuel Paulo e João Gil e nas letras elegantes de João Monge, a Ala dos Namorados combina várias linguagens para conceber grandes canções. ‘Loucos de Lisboa’ é uma homenagem a figuras desimportantes da cidade de Lisboa, aquelas que compõem a sua substância. Bem-vindos à 73ª canção de 101 que marcaram Portugal