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Morreu José Serafim, da editora Movieplay

José Serafim foi diretor da editora discográfica Movieplay, onde se reuniu um mais importantes catálogos da história da música portuguesa, a par da Valentim de Carvalho. Faleceu no início de setembro, confirmou à BLITZ um seu antigo colaborador

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

José Serafim, que foi proprietário da editora discográfica Movieplay, morreu no passado dia 3 de setembro. A informação foi confirmada à BLITZ por Frank Hessing, norte-americano que trabalhou com José Serafim, na Movieplay, entre 1989 e 1995.

José Serafim faria 85 anos no próximo mês de dezembro e encontrava-se a morar num lar, com a saúde fragilizada, há vários anos. "O senhor Serafim foi uma pessoa de muita visão. Criou uma organização incrível e fez muitas coisas pela cultura portuguesa", afirma Frank Hessing. "Já na altura, o grupo de empresas que criou tinha uma estrutura incrível". A sua atuação no seio da indústria discográfica seria, no entanto, alvo de várias críticas, muitas vezes relacionadas com a publicação não autorizada de fonogramas. Era também ferrenho adepto do Sporting Clube de Portugal.

Da Movieplay faziam parte catálogos como Orfeu, que começou a ser criado por Arnaldo Trindade, Rádio Triunfo ou Alvorada entre muitos outros onde se encontram milhares de discos publicados em Portugal na segunda metade do século XX. Grande parte da obra de José Afonso, mas também algumas gravações de Amália Rodrigues, Carlos Paredes e seu pai Artur Paredes, Fausto, Sérgio Godinho, Vitorino e Dulce Pontes foram publicadas em Portugal com etiquetas que pertenceram ou vieram a pertencer à Movieplay. O catálogo de fadistas é igualmente impressionante e nele se contam Maria Teresa Noronha, Hermínia Silva, Fernando Maurício, Celeste Rodrigues, João Braga, Carlos Zel, Fernanda Maria, Ada de Castro, Teresa Silva Carvalho, Vicente da Câmara ou António Pinto Basto. A lista é infindável se juntarmos Tony de Matos, José Cid, Quinteto de Maria João, Duo Ouro Negro, Pop Five Music Incorporated, Quim Barreiros, Rão Kyao, António Chaínho, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Ronda dos Quatro Caminhos, Madalena Iglésias, Trio Odemira, Conjunto António Mafra ou Conjunto Maria Albertina. Raras gravações de escritores e portas portugueses fazem também parte deste espólio, como é o caso de Miguel Torga, José Régio, Sophia de Melo Breyner, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro e Jaime Cortesão.

"Éramos um grupo de empresas que se complementava, como uma mini major. Era tudo feito de forma muito inteligente e avançada", elogia o editor norte-americano. "O grupo tieve a primeira e única fábrica de CD de Portugal", a que se juntavam fábricas de cassetes e de discos em vinil. Segundo a Wikipedia, a Movieplay foi uma editora fundada originalmente em Espanha, corria o ano de 1968, ainda com o nome de Sonoplay. Posteriormente foi adquirida pelo grupo belga Movierecord, tendo passado a chamar-se Movieplay. Além da Movieplay (editora discográfica), o grupo era constituídoo pela Copisom e Sonovox (fábrica de cassetes), Namouche (estúdio), Riso e Ritmo (importação de produto acabado), Euroclube (distribuição nacional) e Sonovis (fábrica de CD e serviços de fabricação de plástico), além de outras quatro empresas fora de Portugal, em países como a Holanda e o Brasil.

A faceta internacional da Movieplay, que teve representações no Brasil, ficou patente nas suas presenças no MIDEM, em Cannes, onde ao longo dos anos 1990 exibiu alguns dos maiores e mais luxuosos pavilhões do certame que reunia os players mais importantes do mercado discográfico mundial. A edição do álbum "Onda Sonora: Red Hot and Lisbon" foi da responsabilidade da Movieplay e reuniu artistas como David Byrne, Caetano Veloso, K.D. Lang, Arto Lindsay, Durutti Column, Smoke City, Madredus, Vinícius Cantuária, Underground Sound of Lisbon, General D, Boga, Carlinhos Brown ou Marisa Monte. A compilação foi publicada em 1998 constitundo a 11º da série Red Hot, que visava angariar fundos para a luta contra a SIDA.

Vários músicos, compositores e produtores trabalharam de perto, em várias fases da sua carreira, com a Movieplay ou as marcas que posteriormente lhe ficaram associadas como foi o caso de José Niza ou José Calvário (que venceram o Festival da Canção em várias ocasiões), Carlos Cruz (promoção), Paulo Junqueiro, que hoje é presidente da Sony Music Brasil, Miguel Graça Moura, Orlando Leite (A&R, tendo assinado os Ithaka de Darin Pappas), Thilo Krassman (orquestrações), Ruben Carvalho (coleções de fado) ou Peter Cooper (que até há pouco desempenhava funções na Edel).

A Movieplay terá falido em 2012. e desde então não teve lugar qualquer exploração deste catálogo de gravações. Ainda duante a década de 90, a gestão da Movieplay foi entregue a João Serafim, filho de José Serafim.