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Alfredo Marceneiro

101 canções que marcaram Portugal #72: ‘A Casa da Mariquinhas’, por Alfredo Marceneiro (1961)

Alfredo Marceneiro cantava o fado como se rezasse. Conhecia as suas raízes: o seu sentido mais erudito e os seus mistérios mais arraigados. O fado tornou-se naquilo que Marceneiro impôs. Os poetas e os guitarristas que o acompanharam entenderam o seu estilar, o seu pontuar, o seu ritmo. ‘A Casa da Mariquinhas’, extraída do álbum “The Fabulous Marceneiro”, passou a definir a raça mais autêntica da canção de Lisboa. É a 72ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

Alfredo Marceneiro
'A Casa da Mariquinhas'
1961

Um fadista, um poeta e um guitarrista entram num bar: um bar elegante, com copos a cintilar dispostos em linha, paredes com espelhos e sofás forrados a veludo. Bebia-se sobretudo scotch. O fadista não estava acostumado à penumbra senão quando as luzes esmoreciam enquanto se cantava o fado. Naquela noite, tinham-no convencido a ir até ali – para fora do seu Bairro Alto, da sua Alfama, da sua Mouraria e das casas de fado onde era recebido como se fosse a sua casa. Pediu vinho tinto, uma bebida que só muito mais tarde passou a ser chique. Alfredo Marceneiro, ignorando a estranheza do garçom, bebeu dois goles do vinho e retirou da sacola um embrulho de papel pardo que acomodava uns carapaus de escabeche cozinhados pela sua mulher, a Ti Judite, que era quem melhor conhecia os seus apetites exigentes. Ali comeu, naquele bar elegante, como comeria em qualquer outro lugar, carapaus cozinhados em casa – como um imperturbado imperador.

Dum lado e doutro casas bordadas de flores – e silêncio. Uma paz súbita, quase secreta. Uma intimidade que se sente já antiga. Esta vila, este pátio, tem qualquer coisa de palco aberto, basta olhar. Dum lado, varandas voltadas para a cena, em fundo a fachada dum prédio com os seus ornatos coloridos e o túnel de acesso à cidade. Assim descrevia José Cardoso Pires a Vila Berta, à Graça, no seu “Lisboa, Livro de Bordo”. Muitas décadas antes de Cardoso Pires se ter fascinado pela Vila Berta, já Alfredo Duarte aí trabalhava, nos anos 30, nas oficinas de Diamantino Tojal, como marceneiro – com pouco lirismo e bem mais com 12 horas diárias de suor e sacrifício.

Já nessa época Alfredo Duarte era reconhecido enquanto fadista pela sua profissão fora do fado, tal como muitos dos fadistas (mesmo os de nomeada) de então, que eram identificados pelos seus traços físicos ou pelo seu ofício: Britinho Estucador, Júlio Janota, João Mulato, Jorge Caldeireiro, Chico Maluco ou Júlio Proença Estofador tinham cognomes distintivos, a remeter para o casticismo do fado vivido nos recantos sombrios de Lisboa.

Alfredo Marceneiro tinha começado a cantar ainda sem esse cognome. Pertencia a uma geração posterior à primeira fase do fado, cantado em tabernas, onde velhacos e madraços se reuniam. Começou por ser apenas Alfredo Duarte, mas brevemente iria ter um cognome (de entremeio entre Duarte e Marceneiro) advindo da sua forma elegante de se vestir e calçar – com fato, camisa engomada, plastrom ao pescoço e calçando polainites de polimento: Alfredo Lulu, pois então. Teve de palmar, até chegar a ser Alfredo Marceneiro, muitas provações – sabendo todavia o percurso que queria seguir e o relevo que daria ao fado. Começara a ensaiar atuação nas cegadas, fantasiando-se de mulher (nas cegadas, representações teatrais populares, era vedado acesso ao género feminino) e cantando o tema da peça ao som da guitarra. Como cegante, tomava assim, pela primeira vez, contacto com o fado. Sair em cegadas fê-lo aguçar o instinto pela noite, pelas casas de fado, pelo meio mais genuíno da sua Lisboa. Ensaiou, para além das cegadas, tarimba no Chiado Terrace, no intervalo das ‘fitas’ do cinema mudo. O fado era então acompanhado ao piano, com bandolim ou com guitarra. Era uma canção com letras sobretudo de revolta e de amor, abordando temáticas desventuradas: de operários que ficavam sem uma perna ou um braço, eram despedidos e atirados para a miséria; de órfãos abandonados; de raparigas vindas da província que se perdiam desamparadas nas vielas obscuras da Lisboa cruel; de operários que na noite de sábado esbanjavam a féria nas tabernas do cais; de rameiras e de dramas de arrabalde. Alfredo Marceneiro, todavia, detinha a intuição de escolher outros poemas - os melhores poemas dos melhores poetas que escreviam então para o fado. Alfredo Marceneiro trouxe para o fado outra fisionomia. Com ele, o fado passou a cantar-se à meia-luz, com lastro de solenidade: eram apagados os candeeiros de acetileno e dispostas velas em gargalos enquanto se cantava. Antes de Marceneiro, os fadistas cantavam sentados; gerava-se ruído com a assistência a levantar-se para estar mais perto destes. Marceneiro, levando a sério o ofício, impunha cerimónia ao fado, passando a cantar de pé, concentrado, exigindo circunspeção e deferência.

‘A Casa da Mariquinhas’ é uma criação sua, com letra do poeta e jornalista Silva Tavares. Alfredo Marceneiro não era um instrumentista e muito menos sabia ler pautas de música. Conhecia, todavia, as raízes do fado: o seu sentido mais erudito e os seus mistérios mais arraigados – produto da cidade velha e obreira, produto das ramboiadas, cantado em retiros ou nas ruas, nas noites calmas e mais genuínas da capital. Foi Armandinho, um dos maiores guitarristas do seu tempo, quem o ajudou a registar as suas criações, os seus ‘estilos’ na pauta musical. Foi Armandinho, sobretudo, mas também os peões de brega, guitarristas que deambulavam pelas casas de fado: Luso, Adega da Lucília, Adega Machado, Adega Mesquita, Tipóia, Márcia Condessa, Parreirinha de Alfama, Timpanas, Taberna do Embuçado ou Senhor Vinho; eram estes em quem Marceneiro achava o símbolo real da alma que o fado deveria ter: terno e acre; que fere e cura; que exprime rancor e afeto. O fado tornou-se naquilo que Marceneiro impôs. Armandinho e os peões de brega entenderam esse estilar, esse pontuar, o seu ritmo ditado em cada verso, a sua expressividade, o desdobramento com que ondulava cada sílaba, as suas pausas, as suas carícias à cantiga com aquela voz velada, modulada por motes e glosas, semi-rouca e invulgar. Alfredo Marceneiro cantava o fado como se rezasse. Alfredo Marceneiro, sem o ser, era um poeta: sabia dizer versos a cantar e entendia a poesia do fado.

Aprumado, saía da sua casa em Campo de Ourique, num pátio típico na Rua da Páscoa, ao erguer da noite. Havia sempre um chauffeur de táxi que, ao reconhecer Ti Alfredo, parava o carro e perguntava para onde o deveria levar. Invariavelmente a primeira paragem era o Bairro Alto, mas naquele dia de 1960 Alfredo Marceneiro não iria calcorrear os seus refúgios habituais. Naquele dia de 1960, Alfredo Marceneiro iria gravar um disco nos Estúdios da Valentim de Carvalho, na Rua Nova do Almada, ao Chiado – a contragosto (como aparentava fazer tudo na vida, com o seu difícil génio). Ao chegar ao estúdio, ficou consternado ao ver o arsenal de máquinas e aparelhagens a interpor-se entre ele e o fado. Faltava-lhe o público a que estava acostumado, faltava-lhe analisar as suas reações. Para atenuar a timidez, fechou os olhos e ensaiou cantar. Não era recurso bastante. Só conseguiu cantar em completa escuridão, usando o plastrom que trazia ao pescoço para vendar os olhos. Conseguiu-se registar, enfim, de olhos vendados, um grande álbum – “The Fabulous Marceneiro”, que continha ‘A Casa da Mariquinhas’ e outras referências ainda hoje do fado mais tradicional e seminal. O povo, o seu juiz, já o tinha reverenciado, mas a partir deste álbum Alfredo Marceneiro desmarginalizou o fado. Passou a ser a grande referência da canção de Lisboa – como definidor da sua raça mais autêntica.

Escutar ‘A Casa da Mariquinhas’ é observar um quadro real de uma moça (porventura) desventurada vivendo desambientada em Lisboa. Enquanto marceneiro – não enquanto Alfredo Marceneiro – moldou, numa escala 1/10, em madeira, a casa da Mariquinhas – esculpindo com plainas, formões e enxós os pormenores descritos nos versos de Silva Tavares – por tanto que a cantiga lhe assentava, por tanto que a cantiga assentava na alma mais popular.

Alfredo Marceneiro cantava o fado por vocação e não porque tivesse vocação para cantar. Cultivou-o numa reverência mística. A cantiga, o estilo, que se inflexionou a partir dele, detonado por ele, transversalizou o fado para além das vielas de Lisboa e fê-lo assumir-se como catalisador do género que melhor define a génese da música portuguesa.

É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Canta o fado à guitarra
De comovida até chora

Ouvir também: ‘Fado bailado’. Este fado serviu de base a ‘Que Estranha Forma de Vida’, com letra de Amália Rodrigues e incluído no seu álbum homónimo (o álbum do busto), de 1962, composto por Alain Oulman.