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Carlos do Carmo

101 canções que marcaram Portugal #71: 'Fado do Campo Grande', por Carlos do Carmo (1977)

“Um Homem na Cidade” é uma obra-prima. Fez sair o fado dos seus meios mais reservados. A partir deste álbum, o fado passou a não estar datado. As canções celebram Lisboa: os seus pregões, as suas figuras, os seus lugares, os seus emblemas e os seus retratos sentimentais. O ‘Fado do Campo Grande’ é a génese mais íntima dos seus criadores e que agrega a homenagem que fizeram à sua cidade. É a 71ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

Carlos do Carmo
'Fado do Campo Grande'
1977

O oficial açoriano (e republicano) Augusto de Medeiros fora nomeado governador-geral da Madeira e, nessa condição, por bajulação ou tentativa de influência, Adolf Hitler enviou-lhe uma condecoração, em forma de medalha, que nunca usou - mesmo quando recebia representantes do Führer no Palácio de São Lourenço, no Funchal, o que causava compreensível mal-estar.

Em 1976, há muito que António Vitorino D’ Almeida fora obrigado a deixar a casa onde nascera e crescera. O seu avô Augusto comprara essa vivenda na esquina da Avenida 5 de Outubro e a atual Avenida das Forças Armadas (antes Avenida dos Estados Unidos da América e depois Avenida 28 de Maio, que assinalava o golpe de estado que abrira caminho à implementação do Estado Novo) e dividira a casa em 4 apartamentos – um para si e os outros três para cada uma das suas filhas, uma delas mãe de António Vitorino D’ Almeida.

Verão de 1976: o maestro ia no banco da frente da carrinha Mazda azul-escura de Carlos do Carmo. Atrás acomodava-se José Carlos Ary dos Santos. Seguiam para o apartamento desabitado de Carlos do Carmo na avenida dos Estados Unidos da América; Judite e os três filhos do fadista estavam a passar férias na Costa da Caparica e Carlos do Carmo gostava que se trabalhasse no seu refúgio, mais que no corrupio da Rua da Saudade. Tinham jantado no restaurante Gôndola, na Praça de Espanha, e passavam agora pelas ruínas do palacete onde Vitorino D’Almeida crescera: ‘Se tivesse dinheiro, comprava esta casa e vivia aqui para sempre’. Os três relembraram as casas onde tinham crescido e arreigado afetos. Um homem tem uma casa só ao longo da vida, mesmo passando por muitos lugares. Carlos do Carmo tinha tido uma casa só, no bairro da Bica – e dali se mudara para as avenidas novas no início dos anos 70. Ary dos Santos vivera até aos 16 anos – idade em que passou a viver sozinho, pouco depois da morte de sua mãe - numa moradia em Benfica, na Estrada da Luz. As casas onde habitavam em 1976 não eram já as casas da sua infância – aquelas que os faziam desfiar memórias mais puras.

Nessa noite, nasceram, no piano Petrof vertical da casa de Carlos do Carmo, os primeiros acordes do ‘Fado do Campo Grande’. Um fado composto por um compositor clássico, com variações de fado menor, no início, e de fado corrido, no refrão. O mote de Ary tinha sido mesmo a passagem e os lamentos, pouco antes, pela casa do Campo Grande: ‘A minha velha casa / por mais que eu sofra e ande / é sempre um golpe de asa / varrendo o Campo Grande’. A canção ficaria pronta de madrugada; a noite era atilho criativo - entre vapores de emoção.

1976 estava a ser um ano preenchido para Carlos do Carmo. Tinha sido escolhido para interpretar todas as canções do Festival RTP; um festim de criadores, poetas e democracia - em nome de um só executante. À inglesa. Carlos do Carmo não concebia a competição entre amigos – mas assim estava bem; só havia competição consigo próprio. Foi o festival das palavras, da fraternidade, da intervenção, da liberdade. Carlos do Carmo quase nunca esteve sozinho em palco: partilhou-o com os autores das canções - tocando, cantando ou dizendo – e sempre sustentado por António Chaínho na guitarra e José Maria Nóbrega na viola. Ganhou uma canção (um fado; um fado-canção) com letra patriota, aproveitando o amor de Pedro e Inês, mas poderia ter ganho qualquer uma das restantes sete. ‘Lisboa, Menina e Moça’ não seria uma das oito canções selecionadas – muito devido à letra de Joaquim Pessoa original, ‘Cantiga do Algarve ao Minho’, ainda não ter sido transmutada por Ary a homenagear a capital. Venceu ‘Uma Flor de Verde Pinho’, mas o grande projeto de Carlos do Carmo estava por chegar dali a poucos meses, lançado no ano seguinte: “Um Homem na Cidade”, primeiro de uma trilogia Carlos do Carmo / Ary dos Santos da qual só completariam dois terços (“Um Homem no País” seria lançado em 1983 e “Um Homem no Mundo” não seria já editado com o cunho do poeta).

“Um Homem na Cidade” nasceu de um desacordo entre Carlos do Carmo e Ary dos Santos. O poeta queria festejar a democracia, empunhar valores de Abril, fazer durar a liberdade. Carlos do Carmo queria compor uma obra-prima, fazer sair o fado da penumbra e dos seus meios mais reservados ou marginais. Carlos do Carmo queria desdatar o fado. E o fado passou a não estar datado desde “Um Homem na Cidade”. Este álbum celebra sobretudo Lisboa: as suas figuras, os seus lugares, os seus emblemas e retratos sentimentais. Foi um álbum pensado, estruturado, que viveu mais de disciplina que de improviso. O que terá satisfeito Ary foi o convívio de criadores, o entrosamento exultante entre poetas, compositores, ele próprio Ary e a voz de Carlos do Carmo. “Um Homem na Cidade” trouxe um convívio entre José Luís Tinoco, Paulo de Carvalho, Vitorino D’ Almeida, Frederico de Brito, Fernando Tordo ou Joaquim Luís Gomes. Carlos do Carmo convocou António Chaínho e Raúl Nery para metamorfosearem canções em fados, fados em canções, fundindo géneros num objeto elegante e intemporal (‘O Cacilheiro’, como exemplo, tinha sido composta por Paulo de Carvalho num ritmo bossa-nova).

Ary dos Santos celebrou Lisboa – a Lisboa que o revoltava e contentava. A Lisboa de Cesário Verde, que observava varinas a embalar nas canastras, junto do peixe, os filhos que depois naufragariam nas tormentas. Ary, tal como Cesário, era um deambulador da capital. Conhecia-a antes de a ter vivenciado e depois de se despedir. Conhecia as suas origens, o seu presente e predizia o seu futuro. Conhecia os seus humores de verão e de inverno. Os seus aromas. A sua geografia. A sua atmosfera. Os seus pregões. Conhecia os cauteleiros, os manobradores dos elétricos, os homens das castanhas. Conhecia o seu dia, a sua noite, o seu crepúsculo e a sua aurora. Tal como Carlos do Carmo: o entusiasta de Sinatra, de Marceneiro, de Brel, de sua mãe Lucília – de referências do passado e do presente – modelava neste álbum o seu caráter e uma nova abordagem ao fado.

O ‘Fado do Campo Grande’ é a composição que mais bem agrega as 12 canções. É uma canção com uma melodia sublime, intrincada, complexa, com uma letra sublime, intrincada, complexa – harmonizadas para resultar numa canção simples, melódica, emocional e fluida. ‘Um Homem na Cidade’ caracteriza o álbum; ‘Fado do Campo Grande’ fundamenta a sua génese mais íntima, ‘das origens da ternura’. O último verso ‘Ai, Lisboa, como eu quero / é por ti que eu desespero’ subsiste como um manifesto de todos aqueles que se envolveram em “Um Homem na Cidade” para alumiar o fado que se produziria desde então.

Sou a gaivota que derrota
Todo o mau tempo no mar alto
Eu sou o homem que transporta
A maré povo em sobressalto

Ouvir também: ‘O Homem das Castanhas’ (1977). Do mesmo álbum. Música de Paulo de Carvalho e letra de Ary dos Santos, que criaram um refrão, tal como tinham feito em ‘Lisboa, Menina e Moça’, com uma pergunta e uma resposta: ‘Lisboa, menina e moça – menina / Teus seios são as colinas – varina’; neste caso, o diálogo do refrão assumiu-se como um pregão lisboeta: ‘Quem quer quentes e boas? – Quentinhas’.