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101 canções que marcaram Portugal #70: 'Balada da Rita', por Sérgio Godinho (1978)

"Kilas, o mau da fita" estreou-se há 40 anos. A ‘Balada da Rita’ foi uma das canções compostas para este filme por Sérgio Godinho, coargumentista e autor da trilha sonora. É uma canção densa, emotiva, com um arranjo doce e palavras cruas. Poderia ser a sinopse de mulheres desencantadas com amores arriscados, instáveis e fatais. É a 70ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

Sérgio Godinho
'Balada da Rita'
1978

Diogo Freire tinha três anos quando Sérgio Guimarães entrou esbaforido em casa dos seus pais, nas avenidas novas, e lhes pediu o seu filho emprestado. O menino burguês seria arrastado para o aeroporto de Lisboa, onde lhe seriam rasgados a camiseta e os calções, sujado as pernas, os braços, as mãos e a cara para encenar a fotografia mais icónica do 25 de Abril: um menino a colocar um cravo em uma espingarda segura por três braços, representando os ramos das Forças Armadas. Diogo Freire não percebeu a encenação mas o seu pai ofereceu-lhe um triciclo no dia seguinte para o compensar do transtorno. Dali a poucos meses, o seu pai, Pedro Bandeira Freire, inauguraria o multiplex Quarteto e morreria pouco depois de este ter sido encerrado compulsivamente, em 2008, porventura de tristeza e deceção.

Quando a fotografia foi registada, já a Sérgio Guimarães faltava o dedo mindinho da mão esquerda. Cortara-o 15 anos antes, quando Lia Gama ameaçara (mais uma vez) deixá-lo: ‘se te vais embora, leva já agora um pedaço de mim’. O fotógrafo, maquetista e pintor era uma personagem espampanante, excessiva e excêntrica. Lia Gama tinha então pouco mais de 15 anos e inspirava já arrebatamento.

Junho de 1982: Manuel Reis e Carlos Fonseca inauguraram o Frágil, um lugar que iria reorientar a noite do Bairro Alto e transformar a sua matriz num conceito elegante e sofisticado. Lia Gama encenaria no Frágil, em 1985, uma performance musical, com canções de Sérgio Godinho, mas também de Serge Gainsbourg (outro SG), Jacques Brel ou Juliette Gréco. Esse período sucedeu à glória enquanto femme fatale em filmes como "Crónica dos bons malandros" (em que Pedro Bandeira Freire – que isto anda tudo ligado - desempenhou a personagem de Doutor Flávio) e sobretudo a Pepsi Rita de "Kilas, o mau da fita". Lia Gama apartava-se em 1985 do cliché dessa tipologia feminina e teve de procurar outras veredas até renascer mais versátil enquanto atriz.

O argumento de "Kilas, o mau da fita" foi escrito a três mãos – pelo realizador, José Fonseca e Costa, pelo autor das canções, Sérgio Godinho, e pelo brasileiro Tabajara Ruas (a ele se deve a inclusão no elenco de Lima Duarte, com a sua voz dobrada, e da estonteante Natália do Vale). "Kilas, o mau da fita" imergia-se numa Lisboa pré-sofisticada (pré-Frágil). Subsistiam referências de uma capital arcaica, ainda com vestígios dos anos 60 e de personagens-tipo codificadas. Luís Barradas, o ‘Cerdan’, serviria de impulso a Kilas (papel maior de Mário Viegas) para treinar boxe mas morreu durante a rodagem do filme e essa responsabilidade passou a caber a Tereno (Luís Lello, que também morreria pouco depois de terem terminado as filmagens e que já não assistiu à estreia no Cinema Éden): ‘ouve lá, ó Kilas: com uma mona dessas que parece que adivinhas o jogo do parceiro, devias era tratar do físico. Um bocado de boxe não te fazia mal’. Kilas passa a treinar com Ricardo Ferraz, lenda do boxe do Sporting (interrompendo os exercícios para ajeitar a melena ondulada). O boxe estava também representado no filme por Tony Morgon, habitante lendário do Bairro Alto e ator secundário em várias longas metragens – pela sua pose vigorosa e intimidante (é ele quem aplica uma surra a Kilas no final do filme). "Kilas, o mau da fita" é um filme sobre uma Lisboa que já então estava em transformação: os boleros dançados na Casa do Alentejo, os cabarés vazios na madrugada, o contrabando de transístores, as atrações musicais do Parque Mayer que alternavam em boates de má fama, as calças à boca de sino, os casacos floridos com gravatas de largura XL ou os proxenetas marialvas faziam parte de uma capital bas-fond e com marcas de decadência.

A Sérgio Godinho interessava, para além do filme, compor sobre o passado das suas personagens-tipo. Pepsi Rita arcava passado longo – e adivinhávamo-lo nos seus trejeitos. Transportava um passado desencantado e funesto. O seu passado estava enrugado por amores arriscados, instáveis e fatais; o seu alento amarfanhado por abismos. Representava a descrença e o ceticismo. Mas representava sobretudo, por essa descrença e por esse ceticismo, um ressurgimento: os desalentos que vivera (e viveria decerto no futuro) eram uma anáfora de episódios já experimentados. O assombro já tinha sido vivenciado; o presente e o futuro decerto não seriam uma antítese daquilo que a vida a acostumara.

É uma canção densa, emotiva, com um arranjo doce e palavras cruas. Ainda que não tenhamos atravessado as agruras de Rita, ouvir a sua Balada (que poderia ser uma endecha, pela sua essência melancólica) faz-nos doer o ar, o coração e o chapéu, como dizia Lorca. É uma canção que corta rente a nossa quietude, que expõe sem pudor interrogações e denúncias. Sérgio Godinho terá observado mulheres como a Pepsi-Rita (terá sido ele a achar este pseudónimo?), o que terá feito ebulir a sua disposição criativa e escavado as raízes sensíveis da génese e da vida da personagem – igual à de muitas mulheres autênticas.

Sérgio Godinho desvelou memórias – pela observação que apreendeu enquanto viajante pelo mundo e pelo desamor – e tricotou uma letra afetiva e singular. Terá usado pela primeira vez num poema para canção a palavra ‘exangue’; deambulou por um enredo de contrastes (berço/caixão; glória/desdita; amor/solidão) e por uma amosfera de infortúnio. Um monólogo, enfim, de uma mulher desencantada e infeliz.

No final do filme, a Pepsi-Rita, no miradouro da Senhora do Monte, despe-se de si: dos seus adornos e do seu passado recente. Porventura com vontade de cambiar o seu destino ou conformar-se com o que a vida, implacável, lhe trará. Sérgio Godinho corporizou em Rita os versos de Camões: ‘Errei todo o discurso de meus anos; dei causa a que a Fortuna castigasse as minhas mal fundadas esperanças’. Esta sua balada manifesta-se como uma das mais belas composições da música portuguesa e um retrato da essência de um dos nossos mais felizes criadores.

E a solidão não erre
se ao chamá-la o seu nome
me vai que nem uma luva

Ouvir também: ‘É terça-feira (valsa da Ana)’ (1981). Da banda sonora de "Kilas, o mau da fita". Ana era a personagem interpretada por Paula Guedes, uma prostituta dissimulada e com um passado trágico em Angola. Era o grande amor (a que não correspondia) de Kilas no filme. Como curiosidade, Paula Guedes era a companheira de José Fonseca e Costa na época em que a longa-metragem foi filmada (entre fevereiro de 1978 e Julho de 1979; a rodagem esteve interrompida quase um ano por falta de apoio financeiro).