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Venus Matina, Mema e Bang Avenue (esq-dir)

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Como três bandas em começo de carreira subiram ao palco do Teatro Aveirense: eis o projeto Monitor

Projeto de mentoria de jovens músicos, o Monitor chegou ao final na passada semana, em Aveiro. A BLITZ esteve presente no concerto que levou ao Teatro Aveirense as três bandas selecionadas e acompanhadas, ao longo de um ano, por uma equipa de 11 especialistas da área musical

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Ficar a conhecer melhor os trilhos da indústria musical, meio que muitos novatos consideram hermético e codificado, foi um dos objetivos do projeto Monitor, iniciativa da Câmara Municipal de Aveiro e do Teatro Aveirense que na passada quinta-feira chegou ao final, com três concertos naquela sala. Partindo de uma ideia de Rafaela Ribas, manager e responsável da agência aFirma, o Monitor, que se definiu como um projeto de mentoria, começou por receber mais de 30 candidaturas, escolhendo três finalistas aos quais foi dada uma orientação especializada, por parte de vários profissionais da área da música. Questões ligadas à contratação e remuneração dos artistas, ao marketing (tradicional e digtal) e à comunicação, à marcação de concertos e aos direitos de autor e conexos foram abordado com um painel de especialistas, que ajudaram os artistas selecionados a delinear uma estratégia para as suas carreiras. Além do aconselhamento, os grupos receberam 2 mil euros cada um, por parte da Câmara de Aveiro, para fazer face às primeiras despesas, como gravação de discos ou realização de vídeos e fotos promocionais. As dificuldades acrescidas trazidas pela pandemia não foram esquecidas, propondo-se o Monitor a “apoiar e motivar” os jovens artistas, “de forma a garantir que o país não perde toda uma nova geração de criadores”.

A caminhada de um ano chegou, então, ao seu destino na passada quinta-feira, com a apresentação ao vivo dos três projetos selecionados e acompanhados, com cuidado e carinho, ao longo dos últimos 12 meses. Numa noite de chuva quente, e perante o entusiasmo do público que encheu o Teatro Aveirense, começaram por subir ao palco os Venus Matina. Quarteto jazz/blues com voz feminina, os aveirenses foram ganhando confiança e mostrando as linhas com que se cosem; na entrevista em vídeo, conduzida por Henrique Amaro, projetada antes da atuação, o grupo disse ser admirador de Maria João, Fausto, B Fachada ou Ornatos Violeta, mas nos temas que apresentaram mostraram-se mais devedores de uma sonoridade jazzy, com o fraseado de Eva Paiva a lembrar, a espaços, o de José Afonso (de quem os Venus Matina são também fãs). Com um EP a caminho, os autores de 'Pessimismo em Fuga', que tocaram no festival Bons Sons em 2019 e foram uns dos vencedores do concurso de bandas da Festa do Avante em 2020, espalharam também um certo travo luso-atlântico e até, num dos primeiros temas, alguns toques de pós-rock.

Depois dos Venus Matina, foi a vez de Sofia Marques, nome artístico Mema, prestar provas. Nascida em Aveiro, a artista começou por estudar guitarra e voz no Conservatório de Música Calouste Gulbenkia destan cidade, tendo depois passado por Lisboa, Berlim e Dublin. Se na cidade alemã se envolveu em aventuras eletrónicas, da Irlanda trouxe uma salutar curiosidade pela música de cariz mais tradicional. No regresso a Aveiro (“Cidade de Sal”, como lhe chama no seu EP), decidiu adaptar o que vira e ouvira, “contando histórias com melodias tradicionais portuguesas”, como explicou na entrevista que antecedeu a atuação. Guitarras portuguesas, gaitas de fole e adufes são algumas das ferramentas de que se socorreu nesta sua missão, ainda que, em palco, se apresente sozinha com uma guitarra elétrica. Os demais instrumentos, ouvimo-los pré-gravados, num espetáculo de convincente dimensão cénica. Recebida com fortes aplausos, apresenta-se ladeada de focos de luz, enchendo o palco com a sua presença — tal como outra mulher de força dos nossos palcos, Capicua, é evidente que Mema “diverte-se imenseee” — e sobretudo com as suas canções. Na sua mistura de rock, eletrónica e música tradicional, 'O Devedor', 'Outro Lado' e 'Perdi o Norte' têm um carisma evidente, ainda que a mistura do som nem sempre nos deixe escutar cada elemento com a clareza desejada. Emotiva mas expansiva, a música de Mema é mais catártica do que contemplativa, como ficou à vista na canção que disse ser inspirada por um “quase break up. Hoje por acaso não chorei, mas atirei-me para o chão”, riu a cantora que, este ano, cantou 'Claro Como Água', de Stereossauto, no Festival da Canção. Estamos certos que voltaremos a ouvir falar de Mema.

A fechar a noite, os Bang Avenue, banda cujos músicos são de Viseu mas começaram por cruzar-se em Aveiro, onde estudavam engenharia eletrónica, foram outra ótima surpresa. Prova de que o palco faz magia, o teclista Leonardo Patrício e sobretudo Guilherme Marta, o vocalista, transformaram-se em verdadeiras estrelas rock mal as luzes se apagaram e os sons contundentes da percussão se fizeram ouvir. Ao fundo do palco, rodeando Tomé Silva, o percussionista convidado mas perfeitamente entrosado, a dupla começou o espetáculo da forma mais enérgica e cativante. Apresentadas foram, depois, canções “que não estão no EP”, alertaram, referindo-se ao seu primeiro disco, de título “Not An Album”. Entre o spoken word e as vocalizações mais teatrais, Guilherme Marta é um belo frontman, mas a sua performance não desvia a atenção do público de outra das forças da banda: canções que se metamorfoseiam em reviengas inesperadas, beijando vários géneros musicais — da eletrónica à eletricidade mais faiscante, passando por algum experimentalismo — sem nunca perder o norte, para citarmos a senhora que os antecedeu, Mema. Com um jeitinho especial para finais explosivos, os Bang Avenue mostraram que é possível fazer rock épico, por vezes até com riffs de rock clássico, sem perder a imaginação. A seguir com atenção.

A BLITZ viajou a convite da Câmara Municipal de Aveiro