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Fernando Tordo em 1970, um ano antes da edição de 'Cavalo à Solta', na foto da capa do single 'Escrevo às Cidades'

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101 canções que marcaram Portugal #69: 'Cavalo à Solta', por Fernando Tordo (1971)

Há 50 anos, realizou-se o Festival da Canção mais disputado de sempre. A canção de Fernando Tordo e Ary dos Santos, primeira composição em conjunto, não venceu mas assumiu-se como uma das mais belas criações musicais por cá produzidas. Com versos de raiva e amor, doçura e intransigência, ‘Cavalo à Solta’ contém as linguagens poética e musical que influenciariam a nova canção ligeira. É a 69ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Cavalo à Solta'
Fernando Tordo
1971

Paulo de Carvalho fazia o serviço militar na Amadora durante o dia e tocava no Casino do Estoril de noite. Numa dessas viagens de regresso, num carro conduzido por Edmundo Silva, seu antigo parceiro nos Sheiks, tiveram um grave acidente, na curva do restaurante Mónaco. Paulo de Carvalho ficaria com o pescoço imobilizado. Daí a um mês realizar-se-ia o Grande Prémio TV, conhecido como Festival RTP da Canção, e os ensaios de ‘Flor sem tempo’ ser-lhe-iam penosos – mais ainda por ser apontado como o grande favorito nesse ano. Seria o festival mais disputado de sempre, quer pelas canções quer pelas editoras (sobretudo Movieplay, Philips e Zip-Zip). A Movieplay organizara um concurso para que se adivinhasse qual a flor (a remeter para a letra da canção) que Paulo de Carvalho iria usar na lapela. Como uma premonição do ‘E Depois do Adeus’, três anos mais tarde, a flor escolhida foi um cravo vermelho.

Paulo de Carvalho retirou o colar cervical segundos antes de entrar em palco; ainda debilitado, cantou com segurança e verve a canção de José Calvário / José Sottomayor, a destoar do monopólio Ary dos Santos – que era autor da letra de um terço das canções desse festival, o festival Ary dos Santos, dizia-se.

Paulo de Carvalho era favorito, tal como Fernando Tordo, precursores do rock português, no tempo do Yé-Yé. Tinham-se cruzado nos Sheiks. Tinham arejado a música portuguesa, ventilados pela pop inglesa e francesa, e estavam ali agora como concorrentes, mais uma vez para fazer diferente. Nenhum venceu. Fernando Tordo ficaria em terceiro lugar e Paulo de Carvalho receberia como consolação o protesto das 1.200 pessoas que enchiam o Teatro Tivoli nessa gélida noite de Fevereiro.

A vencedora seria Tonicha com a sua ‘Menina do Alto da Serra’, com letra de Ary dos Santos e toada de nacional-cançonetismo, conceito a que muitos dos concorrentes se queriam opor. A canção apelava ao povo, à ruralidade – a preceito dos júris regionais, impressionados com a sucessora de Madalena Iglésias e Simone de Oliveira e sobretudo com a sua mise-en-scène jovial e descomprometida. A dupla Ary dos Santos/Nazareth Fernandes adquirira tarimba de glória: afinal tinham vencido com ‘Desfolhada’, dois anos antes, e a Nazareth Fernandes se devia ‘O Vento Mudou’, do vigoroso Eduardo Nascimento.

‘Cavalo à Solta’ é uma das canções mais bonitas do nosso património musical. Foi escrita num 5.º andar da Rua do Alecrim, em Lisboa, onde Ary dos Santos vivia então. Invariavelmente a sua poesia não era musicada; as letras eram escritas sobre uma base musical, ao contrário das parcerias de Vinícius de Moraes – que escrevia desconhecendo como a canção seria harmonizada. A melodia de ‘Cavalo à Solta’ germinou à porta do Vá-Vá, no bairro de Alvalade. Fernando Tordo, a trautear maquinalmente, como uma mnemónica, atravessou a rua e tocou à campainha de João Maria Tudella, o aristocrata que lhe tinha apresentado semanas antes Ary dos Santos. Tudella vivia (na intermitência da sua função como agente-secreto sob o comando de Jorge Jardim) no edifício da pastelaria Sul-América e Tordo pediu-lhe para gravar a melodia que encasquetara no seu gravador suíço Nagra. Dali, Tordo seguiu ao encontro de Ary. Iriam, dali a horas, criar a sua primeira composição – uma parceria que se estenderia por quase 10 anos. A dupla Ary dos Santos – Fernando Tordo manifestou-se como o mais fértil encontro criativo da música produzida em Portugal.

1971 foi um ano abundante para Fernando Tordo: começaria a sua ligação a Ary, estava noivo da Miss Portugal do ano anterior, Ana Maria Lucas (que apresentaria com Henrique Mendes o Festival RTP da Canção desse ano), e trilharia história musical com ‘Cavalo à Solta’. Quando ouviu a melodia, Ary dos Santos armou o seu circo criativo – com a mão em concha, como o menino que fora e ainda era, a tapar a sua obra para que não o espiassem enquanto ia escrevendo. Tordo ia repetindo a melodia, vezes e vezes, em catadupa, e cinco horas depois a obra estava erguida.

Faltava o título. Parece evidente, hoje, cinquenta anos depois, que o ‘Cavalo à Solta’ se chame ‘Cavalo à Solta’ e não ‘Laranja Amarga e Doce’, ‘Potro Doido’ ou ‘Amante, amigo’. Mas Ary dos Santos e Fernando Tordo não encontravam o título. Essa canção tem um título óbvio; chama-se ‘Cavalo à Solta’, rematou João Maria Tudella, que os juntara e que desbloqueara o nome de uma das criações maiores de Ary-Tordo.

A canção em dois andamentos, sem refrão, era uma exposição torrencial de raiva e amor, doçura e intransigência. Um poema transparente, à flor da pele, impetuoso, de emoções extremadas. A aludir à volúpia (‘Cavalo à solta pela margem do teu corpo’) e à denúncia social e política (‘Minha denúncia do que pensa / Do que sente a gente certa’). ‘Cavalo à solta’ agrega as linguagens poética e musical que haveriam de alumiar, a partir daí, a nova canção ligeira produzida em Portugal.

Ary dos Santos era um homem descarado. Contraditório. Provocador. Escrevia literatura e escrevia canções; as suas canções não eram só poemas e os seus poemas dificilmente seriam canções. Era de esquerda, aristocrata, privilegiado economicamente. Olhado de soslaio pela ‘comadrice literária da pseudo-esquerda lisboeta’ (como insultava os intelectuais puristas), recitava poesia no Tipóia ou no Faia, casas de fados no Bairro (mais) Alto (do sonho), ou no Chico Carreira, ao Parque Mayer, para colocar a poesia em movimento, para estar mais perto de quem mais lhe interessava – o povo. Insurgia-se contra os que o acusavam de, em contrapasso com a sua intelectualidade, ganhar dinheiro com publicidade e cantigas; mas o seu público não frequentava livrarias – estava antes de mãos calejadas em frente à televisão ou à rádio a consumir as suas criações. As letras para música eram enfim um veículo eficaz de colocar a poesia em movimento.

É a canção eleita por quem a tem ouvido nestes 50 anos. Que aviva emoções. Que não se agasta. ‘Cavalo à Solta’ iniciou uma união rica entre Ary dos Santos e Fernando Tordo; Portugal sente-se grato por esta canção fazer parte de nós.

Meu potro doido, minha chama, minha réstia
De luz intensa, de voz aberta.
Minha denúncia do que pensa
Do que sente a gente certa

Ouvir também: ‘Balada para os Nossos Filhos (1975). Escrita em outubro de 1975, dois meses depois de os gémeos de Fernando Tordo, João e Joana, terem nascido (João é um botão de cravo rubro / Joana é uma rosa cor de Abril). Ary dos Santos venerava-os e dedicou-lhes a letra. Ainda hoje Fernando Tordo se comove sempre que a canta.