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101 canções que marcaram Portugal #68: ‘O Mundo a Meus Pés’, pelos Três Tristes Tigres (1993)

Oriundos de um Porto catalisador de referências estéticas, faziam confluir música e poesia. Em cinco anos criaram património para uma geração de ouvintes e de músicos, num início de década vibrante e agitada. A sua sonoridade elaborada não se esgotava contudo no êxito que lhes permitiu obter visibilidade, ‘O Mundo a Meus Pés’, a 68ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

‘O Mundo a Meus Pés’
Três Tristes Tigres
(1993)

Os anos 90 começaram como os anos 80: fraturando passados e propulsando essa inquietação a partir do Porto. Rui Veloso lançara o seu “Ar de Rock” em 1980 e o rock português seria, a partir dessa obra seminal, uma vaga oblíqua, chegando ao grande público como uma torrente. O Porto exibia uma pujança criativa e inspiradora, como um contrassenso do seu conservadorismo. No Porto, os conceitos tinham mais tempo para serem trabalhados e amadurecidos. Os Ban e os GNR pertenciam a essa turba de criadores, frequentadores da noite seleta e sofisticada do Griffon’s, do Batô ou do Aniki Bobó – onde afluíam figuras de vários meios artísticos, em particular ligados às artes plásticas. Na noite do Porto, no final dos anos 80 e início dos anos 90, menos flutuante do que hoje, havia uma voragem de fazer novo, agregando géneros e linguagens transversais.

Os Três Tristes Tigres, nome que remete para um trava-línguas, produziam pop elegante. E diferente: não só na sua sonoridade como na abordagem inesperada das suas palavras. Regina Guimarães fazia parte dos Três Tristes Tigres – porque era quem escrevia a maioria das letras e, por isso, apesar de não atuar em palco, era um elemento substancial para a sua identidade. Ana Deus fora vocalista dos Ban e empenhava-se agora neste projeto que fazia confluir música, inovação e poesia. As primeiras atuações dos Três Tristes Tigres foram justamente no Aniki Bobó, apenas com Ana Deus e Paula Sousa (dos Repórter Estrábico) nas teclas: performances em toada de cabaret pop, balouçando entre o registo poético e o interventivo. Chamaram a atenção de Alexandre Soares, ex-GNR, músico atento a novas tendências e sobretudo a tendências incomuns.

Os Três Tristes Tigres estariam destinados ao nicho, como tantos outros projetos arrojados e relevantes, se os seus integrantes não se tivessem esforçado para compor uma canção com mais de recetividade do que de inusitado ou excêntrico. A canção foi ‘O Mundo a Meus Pés’. Começava com a voz límpida de Ana Deus a cappella e o registo instrumental ia sendo integrado em gradação. A letra era intrincada, invulgar e cativante. Interpretava enfim o hoje que se vivia e passaram a figurar ao lado de Rui Veloso, Sitiados, Xutos e Pontapés ou Luís Represas. Eram um contraponto às xaropadas servidas pelas rádios como Whitney Houston, Eros Ramazzotti ou Michael Bolton.

No início dos anos 90, a música portuguesa fazia a correspondência entre o passado, traduzindo também as novas linguagens influenciadoras. Os Três Tristes Tigres souberam dosear a vocação lírica de Regina Guimarães com o exotismo musical de Alexandre Soares e o fulgor e ondulação de Ana Deus – tendo sido visionários nessa atitude. A vocalista sabia ser, quer nas canções registadas quer em palco, delicada mas também violenta, concreta e surrealista, melindrando e ferindo, comovendo e enternecendo. Representava os versos existencialistas de Regina Guimarães, como se as palavras tivessem escolhido uma voz. Alexandre Soares era o seu reflexo: ora num registo eletrónico ora acústico, ora acre ora melodioso, ora excêntrico ora convencional. Os Três Tristes Tigres tinham uma sonoridade elaborada – que não se esgotava em ‘O Mundo a Meus pés’. Em cinco anos de existência criaram património para uma geração de ouvintes e de músicos. Mereceram admiração e respeito.

‘Anos noventa bem medidos’, dizia a letra de ‘Zap Canal’ – que era aquilo que se estava efetivamente a vivenciar no país e na música: um Portugal promissor, vibrante e agitado. Não era todavia o registo que Ana Deus e Alexandre Soares queriam seguir. Com um percurso (e hipotético futuro) de glória, redirecionaram o seu trabalho para uma matriz mais intimista e introspetiva. Mais desafiante. Sem todavia renunciarem à sua génese de inquietação. Criaram os Osso Vaidoso – um conceito acústico, com menos visibilidade, em que cruzam poesia e instrumentação minimal, em que musicam tristeza e humanidade. Continuam os três envolvidos em projetos ligados à dança, ao cinema e ao teatro, abdicando do protagonismo mainstream. Empenham-se naquilo em que reside a sua substância, tal como o tinham feito nos anos 80 e 90 – em que os Três Tristes Tigres foram um desvio, ainda que estimulante.

Mais de vinte anos depois do lançamento do seu último álbum de originais, os Três Tristes Tigres regressaram todavia aos discos e aos concertos. Amadurecidos cultural e musicalmente, escolheram agora traçar um rumo mais periférico; ainda que houvesse ainda muito para dizer, esse muito não se acomodava num projeto que não os Três Tristes Tigres.

Foram uma das referências do início dos anos 90. De um tempo singularmente novo. De uma música singularmente nova. Aproximaram a vanguarda do público. Deram-lhes poesia em forma de canções. Para quem os vivenciou nessa época, manifestam-se como uma memória do muito bom que se consumia então. Para os que os descobrem hoje, atestarão a sua influência em muita da música que hoje se produz.

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Ouvir também: ‘Luna Motel’ (1996). Poema escrito em francês por Regina Guimarães, com uma atmosfera de final de noite. Um convívio entre a modernidade e o passado.