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Manuel Freire

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101 canções que marcaram Portugal #67: 'Pedra Filosofal', por Manuel Freire (1969)

Escrita por António Gedeão e musicada por Manuel Freire, defendia o inconformismo. Foi uma cartilha, antes e depois da revolução, daquilo que o homem constrói quando trabalha. O verso ‘O sonho comanda a vida’ migrou para o povo e a cantiga tornou-se num hino à liberdade. Continua a fazer tanto sentido hoje como quando foi escrita.

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Pedra Filosofal'
Manuel Freire
(1969)

16 de março de 1974: golpe (gorado) dos militares das Caldas da Rainha que, já perto de Lisboa, se aperceberam de que os seus camaradas de Mafra, Lamego e Santarém, tal como estivera planeado, não se lhes juntariam na deposição do regime - o que aconteceria todavia pouco mais de um mês mais tarde. Em todo o caso, era um sinal da premência do final de um ciclo.

29 de março de 1974, Coliseu dos Recreios, Lisboa: I Encontro da Canção Portuguesa – que juntaria alguns dos músicos referenciados pela Censura e um público de 5 mil pessoas. Ary dos Santos foi vaiado (tal como Fernando Tordo) por ser conotado com o Festival da Canção, um evento pouco comprometido com a reação. Afirmou: ‘Vim aqui dizer poesia; se não gostarem, manifestem-se no fim’. Acabou por ser ovacionado depois de ter dito o poema SARL (O salário é sagrado/o direito é divino/mais o caso arrumado/do poder que é bovino). Carlos Paredes tocaria ‘Verdes anos’, sendo todavia apupado para tirar a gravata (tira a gravata, pá!); não tirou. As ausências mais sentidas nessa noite foram as de Sérgio Godinho e de José Mário Branco, exilados em Paris.

A José Afonso, que encerraria o espetáculo, só lhe fora permitido cantar ‘Milho Verde’ e ‘Grândola, Vila Morena’. Quis ter aqueles que atuaram nessa noite no palco para a última canção da noite, cantada em coro, à maneira de um grupo alentejano: abraçados, a marcar o ritmo com os pés, tal como na canção. Adriano Correia de Oliveira, Fausto, José Barata Moura, José Jorge Letria, Vitorino e Manuel Freire, entre os muitos que atuaram nessa noite, entoaram ‘Grândola, Vila Morena’ à meia-luz. O público, enlevado pela atmosfera de renovação, imitou aqueles que construíam a mudança por meio de palavras e cantigas.

Nessa noite, Manuel Freire não cantou ‘Pedra Filosofal’, a canção que seria a sua alegoria e que seria uma das que materializariam a liberdade e a capacidade de o homem substanciar utopias – antes e depois do 25 de Abril.

‘Pedra filosofal’ foi escrita em 1956 e apresentada em 1969. Foi criada por António Gedeão e musicada por Manuel Freire, apresentada no "Zip-Zip" – um programa de televisão que vivia ainda a quimera de um novo tempo e no qual muito do que não deveria ser permitido foi tolerado. Estava em formação um movimento de baladeiros e convidaram Manuel Freire para o integrar e ir à televisão. Escolheu ‘Pedra Filosofal’.

Rómulo de Carvalho, que criou o pseudónimo António Gedeão, era um homem desencantado - que não acreditava que os homens pudessem agir sem beneficiar os seus interesses pessoais. Não era todavia um homem amargurado, antes conformado. Não era um poeta engajado. Nunca se sentou na mesa quer do poder quer do povo. Não se vinculou à ditadura, muito menos à revolução (reformou-se aliás poucos meses depois de Abril, desiludido com a nova pateguice democrática, como sinonímia da salazarice bolorenta). De qualquer modo, António Gedeão não era um homem comprometido e a escolha deste poema por Manuel Freire foi inusitada. A mensagem servia contudo o objeto do contexto ideológico em que o músico se inseria. Para mais, é um texto cadenciado, com uma morfologia clara e avesso ao pedantismo pseudo-erudito

O poema tinha a intenção de impelir à desacomodação, ao inconformismo. Manifesta-se como uma cartilha daquilo que o homem constrói quando trabalha, faz acontecer e se abstém apenas de sonhar. Transporta um sentido de urgência do construir – e não de contemplar e devanear. ‘O sonho comanda a vida’: os versos migraram das páginas de Gedeão para o ecrã da televisão e desta para o povo - para os cafés, para os convívios, para a conspiração, para as ruas enfim.

A canção tornou-se num hino à liberdade, um canto inocente que materializou um desígnio particular, num tempo particular de Portugal, mas que poderia ter sido ajustada a quaisquer outras conjunturas – noutro tempo e noutra latitude. A aceção deste texto de Gedeão visava porém bem mais o futuro do que o seu tempo – por mais que não se arredasse do mundo de que falava. Dignificou o homem comum, o seu quotidiano. Escreveu ‘Calçada de Carriche’ (Anda, Luísa/Luísa, sobe/sobe que sobe/sobe a calçada) e ‘Lágrima de Preta’ (nem sinais de negro/nem vestígios de ódio), numa matriz neorrealista; desprezou por isso que a ditadura tivesse usado o seu poder para domínio de minorias tanto quanto desprezou mais tarde que a democracia se tivesse servido da ilusão da liberdade para impor a sua autoridade. Desagradou-lhe por isso que a sua génese se tivesse acantonado na luta pela liberdade e em alguns versos influenciadores.

Manuel Freire imprimiu na cantiga o alcance a um público mais vasto. ‘Pedra Filosofal’ passou a não estar circunscrito à elite intelectual que consome poesia. Manuel Freire deu-lhe densidade, projeção, relevo estético – e modelou os versos para que estes se manifestassem como um paradigma de uma atitude interventiva, enérgica e inflamada. Que continuam a fazer tanto sentido hoje como quando foram escritos.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Ouvir também: ‘Dulcineia’ (1971). Versos de José Gomes Ferreira. Foi apresentado no I Encontro da Canção Portuguesa, referido no início do texto. O que ficou para a história desta canção – que defendia os direitos das mulheres – foi a censura aos últimos versos (Dulcineia, Dulcineia, deixe de ser ideia e torne-se a carne e a alma da nova luta). Manuel Freire argumentou ironicamente que tinha viajado de comboio e que os últimos versos tinham voado com a corrente de ar. Continuou a tocar a canção e o público encarregou-se de completar a letra em coro.