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101 canções que marcaram Portugal #66: 'Vida de Marinheiro', pelos Sitiados (1992)

Foi o impulso de que os Sitiados precisaram para chegar às rádios e ao público. É uma canção festiva e enérgica. A letra simples fazia apetecer e veio por isso para a rua. Os Sitiados quiseram todavia demarcar-se do seu maior êxito. Tinham obra para além de 'Vida de Marinheiro', a 66ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Vida de Marinheiro'
Sitiados
(1992)

A Naifa foi o último projeto de João Aguardela, uma fusão entre a urbanidade e as origens da música portuguesa. Juntava letras de poetas contemporâneos com versos menos complexos, mas que se ajustavam à matriz da sua singularidade musical. No terceiro álbum, o vocalista e mentor d’ A Naifa trouxe para estúdio um conjunto de letras, admiradas pelos integrantes do projeto, declarando que tinham sido escritas por uma fã, Maria Rodrigues. Dois anos depois, apurou-se que as letras estavam inscritas na Sociedade Portuguesa de Autores no nome de João Aguardela e que afinal Maria Rodrigues era uma fã, sim, mas com laços muito mais estreitos. Maria Rodrigues era tão só a avó de João Aguardela – que decidira incluir os seus versos no seu projeto mais íntimo. A mesma avó que lhe tinha oferecido a sua primeira guitarra aos 11 anos.

O criador de arrojados conceitos musicais era um homem enraizado e afetivo – para com os amigos com quem compartilhava a sua arte e para com a sua família. Com o primeiro dinheiro substancial que ganhou, resultante das vendas do primeiro álbum dos Sitiados, comprou uma casa perto do bairro onde tinha crescido, onde os pais ainda viviam – e só depois da apreciação destes.

Os Sitiados quiseram traçar um rumo cuidado e direcionado, esgueirando-se de imposições de tendências de mercado. Todavia, esse mesmo mercado determina que é fundamental uma carreira alavancar-se com um grande tema. Laura Diogo, ex-Doce, manager dos Sitiados, apresentou a maquete a Tozé Brito, seu mentor e responsável pela BMG em Portugal. Não tendo ficado impressionado pela personalidade reservada e introvertida de João Aguardela, enlevou-se, isso sim, por aquela banda que agregava folclore, fado e rock nas suas composições – como não se tinha feito até então. Eram descendentes da Banda do Casaco, das pesquisas de Michel Giacometti e da génese mais autêntica das nossas raízes musicais. Mas eram também fazedores de novas linguagens – como a Sétima Legião, os Quinta do Bill ou os Ocaso Épico, seus contemporâneos: foram estas algumas das bandas emergidas em Portugal nos anos 80 que melhor conseguiram substanciar a raiz da música tradicional portuguesa e a modernidade sorvida da pop. Nasceram das nossas tradições inculcadas e de um futuro que se começava a trilhar.

Para mais, o atraente vocalista dos Sitiados, de olhos claros e cabelo comprido, metamorfoseava-se em cima do palco. Contagiava. Aglutinava espontaneidade, seriedade e flama. ‘Vida de Marinheiro’ foi o impulso de que os Sitiados precisaram para chegar às rádios e ao público. A canção (ou aquilo que representava de pastiche a uma conceção populista – e não popular), bem de ver, incomodou João Aguardela – que queria firmar o percurso da sua banda para além de ‘Vida de marinheiro; sobretudo para além de ‘Vida de Marinheiro’. Os Sitiados não se conseguiram demarcar do seu êxito maior, mas, como uma provocação, era a primeira canção que tocavam nos seus espetáculos

Vendeu 40 mil exemplares. A rádio tocou incessantemente aquela canção festiva e enérgica. A letra simples e humorada assoberbou Portugal e assumiu-se como um pregão para desventuras. Fazia apetecer e veio por isso para a rua. João Aguardela, apesar de tentar redirecionar o público para outras expressões que os Sitiados detinham, sentia orgulho no seu percurso, no seu sucesso. Sabia que o muito que faria começava ali. Durante meses, começava o dia a ouvir o álbum “Sitiados”, em vinil, honrado pelo respeito que Portugal depunha na sua obra.

Em 1999, doze anos depois de se terem estreado e sete anos depois do seu êxito tonante, João Aguardela decidiu fazer parar os seus Sitiados. Naquele ano, não tinha mais nada de novo para dizer. Era um ‘até já’ – que se veio a objetivar em um ‘até sempre’. Não queria repetir o (muito bom) que tinha feito. Tinha alcançado um sucesso rentável e repentino mas assumiu uma atitude inversa à maioria daqueles que se dedicam ao mercado musical: encontrou a sua essência quando infletiu (e renegou) aquilo que o mercado lhe retribuiu.

A partir de então, continuou a desbravar trajetórias pouco sondadas – ainda densas – na música portuguesa. Criou o projeto Megafone, em que cruzou a raiz mais tradicional (muito mais ainda do que com os Sitiados) com recursos digitais complexos, a Linha da Frente (um conceito revisitador dos grandes poetas da nossa língua) e A Naifa, o seu último património antes de morrer.

Os Sitiados não se esgotam no caráter de João Aguardela; foi ele todavia quem norteou o trabalho de coerência musical desta banda e dos outros projetos em que se envolveu. Era um líder popular, criativo e insatisfeito.

É utópico aferir a herança musical que João Aguardela nos deixa. O que se releva é sobretudo os fundamentos para uma correspondência entre as raízes da nossa música, as sonoridades de vanguarda e a sua transposição para o futuro.

Há quem navegue de porto em porto,
navegue de bar em bar.
Há quem procure fazer fortuna,

eu procuro naufragar.

Ouvir também: ‘A Noite’ (1988). Uma das canções escolhidas para participarem no ‘Concurso de música moderna’ do Rock Rendez Vous, em que ficaram em 2.º lugar. A canção seria recriada (e tornada célebre) pelos Resistência.