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101 canções que marcaram Portugal #65: 'Dunas', pelos GNR (1985)

Remete para praia, mãos dadas e amores enlevados em noites de verão. Foi a banda sonora de muitos adolescentes nas décadas de 80 e 90 e ainda hoje para quem dedilha os primeiros quatro acordes na guitarra. 'Dunas' é tão só uma das facetas criativas dos GNR – e a 65ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Dunas'
(GNR)
1985

De uma banda com mais de 40 anos e um percurso consistente, não há uma canção que se deva escolher. Quem muito ouviu GNR - ou Rui Veloso, ou Jorge Palma, ou Elvis Presley, ou Beatles, como exemplo ilustrativo – considerará que as suas canções mais consensuais não são as suas eleitas. Porventura porque, de tanto repetidas, se manifestam esgotadas. Desconsidera-se a comoção que aquela canção – ou aquele poema pueril, ou aquela comédia romântica; os exemplos são incontáveis - provocou na primeira vez que se ouviu. ‘Dunas’ é uma duplicação na memória (e na exaustão auditiva) de ‘Love Me Tender’, ‘Love Me Do’, ‘Canção do Mar’, ‘Jardins Proibidos’ ou ‘Chiclete’. Em todo o caso, a arte é imutável; o que se altera é a perceção que desta se adquire.

É uma canção marcante para a banda do Porto, imprescindível para estes e para quem, ainda hoje, dedilha os primeiros quatro acordes de guitarra. A sua história começara seis anos antes, no Griffon’s e no Batô – paragens noturnas de Vítor Rua e de Alexandre Soares, mas sobretudo da música punk e new-wave, entrecortada por outras sonoridades tão invulgares como Elvis Costello ou Talking Heads. Queriam fazer novo, acompanhar as novas tendências, desadequar-se de um Portugal estereotipado de canções de intervenção ou açucaradas. Tiveram o ímpeto de muitos outros grupos que fizeram impulsar o boom do rock português.

O tempo corria ligeiro e em pouco tempo tinham banda formada – a Vítor Rua e Alexandre Soares juntou-se o baterista Tóli César Machado, o baixista Mano Zé e a vocalista Isabel Quina. Soares substitui a vocalista pouco depois e é já ele que assume o primeiro single dos GNR, ‘Portugal na CEE’ (cujo clip é filmado no Rock Rendez Vous, onde haveriam de tocar muitas vezes) e ‘Espelho Meu’. Alexandre Soares não era, todavia, um frontman. O destino tinha traçado para o Grupo Novo Rock décadas de modernidade pop – em contraciclo com a efemeridade das centenas de bandas dessa nova vaga rock. E esse seu destino começou a ser desenhado a partir da entrada de Rui Reininho na banda. A sua verve em palco, a sua elegância e sobretudo as suas letras extravagantes permitiram aos GNR agregar a aceitação do público a uma certa sobranceria estética. Rui Reininho trata bem as palavras. Sabe ocupar-se da sua métrica. Passaram, a partir daí, a firmar uma identidade. Percorreriam décadas a entreter mas também a mudar, a imprimir modernidade à música que se fazia então e que se vem fazendo desde então.

Há pontos de inflexão no trajeto de quem se dedica à música. O dos GNR deu-se em 1985, com o álbum “Os Homens Não se Querem Bonitos”, que continha justamente ‘Dunas’: não devido a esta música (que enfim terá influído), mas porque tinham subsistido ao ocaso do rock português e sobretudo porque conseguiriam alumiar o seu futuro. Os álbuns anteriores marcavam-se de certo experimentalismo e tateamento da sua personalidade (releva-se os 26 minutos de ‘Avarias’, de 1982, e o instrumental ‘Maré Baixa’, de 1984). A partir de 1985, os GNR passaram a impor-se como um dos grupos reconhecidos da música que se fazia em Portugal. Como as carreiras se fazem vulgarmente breves, os GNR adquiriram nesta época o status de veteranos – ainda que ilustrando novas linguagens e modernidade. Todavia, mesmo depois de terem atuado em Vilar de Mouros em 1982, de terem enchido coliseus, de terem sido a primeira banda portuguesa a esgotar o estádio de Alvalade, de terem criado uma ode ao norte de Portugal, certo é que durante décadas se cingiram a notas de rodapé na imprensa – o que os amargurou. Em todo o caso, nunca se deixaram reduzir à vulgaridade e à melancolia. Escolheram ser diferentes e desengajados do mainstream – que foi precisamente o que fez dos GNR uma banda singular

A capa do 7 polegadas de 'Dunas'

A capa do 7 polegadas de 'Dunas'

Retomando a canção ‘Dunas’: remete para praia, mãos dadas, amores enlevados em noites de verão. Foi a banda sonora de muitos adolescentes nas décadas de 80 e 90. Faz ainda hoje parte do nosso cancioneiro. Numa época atreita a videoclips, no advento da MTV, o original de ‘Dunas’ foi realizado por Edgar Pêra, amigo de Reininho e parceiro de noites longas no borbulhante e emergente Bairro Alto. O videoclip é uma fusão de lances desencadeados – que servia todavia à delirante essência dos GNR. O que ficou para uma história raramente contada foi uma versão editada à revelia da banda pelo artista plástico André Gomes; apesar de mais linear do que a versão de Edgar Pêra, era uma narrativa polémica (para mais, em 1985). Subsiste uma tensão lasciva entre dois adolescentes do mesmo género, enquanto um Rui Reininho envelhecido vai rememorando o passado – ainda que factualmente o vocalista dos GNR desconhecesse o enredo que o realizador previa. Foi emitido na RTP e ainda hoje se reveste de uma matriz estética incomum

Rui Reininho, Toli César Machado e Jorge Romão continuam, 40 anos depois, a povoar o nosso cotidiano – com novas criações, com reinvenções das suas referências e com aquilo que de muito bom produziram ao longo de uma carreira sólida e aclamada. ‘Dunas’ é tão só um dos seus ícones – uma canção simples, inesperada (num álbum de teor experimental) – e uma das facetas criativas dos GNR. Manifesta-se como um clichê da nossa candura e ingenuidade afetiva – tão só, tal como a banda que a criou, um dos ângulos da nossa génese.

Quem nos visse deitados
Cabelos molhados, bastante enrolados
Sacos-cama salgados.

Ouvir também: ‘Bellevue’ (1986). De um dos seus álbuns mais aclamados, “Psicopátria”, com abundância de ‘clássicos como ‘Pós-Modernos’ ou ‘Efectivamente’. Das canções mais elegantes e mais complexas da banda, com uma ambiência de bas-fond e desventura.

  • 101 canções que marcaram Portugal #64: 'Remar, Remar', pelos Xutos & Pontapés (1984)

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    São a banda de rock&roll mais emblemática em Portugal. Com mais de 40 anos de existência, acumularam muita história, glórias e alguns insucessos. Um percurso com tanto de improvável como de exemplar. ‘Remar, Remar’ era o lado A de um single editado pela vanguardista Fundação Atlântica e perdura até hoje como uma das suas canções mais simbólicas, a 64ª de 101 que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #46: 'A Gente Não Lê', por Rui Veloso (1982)

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    Depois de “Ar de Rock”, a dupla Veloso/Tê teve de percorrer um caminho periférico até encontrar terra firme comercial. ‘A Gente Não Lê’, desse período, é uma das mais belas canções que se criaram em português. Uma canção de embalar. Uma canção simples, em homenagem a gente simples. Esta é a 46ª de 101 canções que marcaram Portugal, rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #14: 'Estou Além', por António Variações

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    António Variações viveu 39 anos e varreu Portugal em dois. Portugal ainda não se recompôs de António Variações. Variações não era de tempo algum e o nosso tempo ainda não chegou a Variações. Uma história da música em Portugal que cruza Amares, o Frágil, o Zé da Guiné, a Guida Gorda e Andy Warhol. Esta é a 14ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #4: 'Demagogia', por Lena d'Água

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    'Demagogia' é uma canção da pré-ressaca do rock português. Uma canção politizada, de inquietação contra os políticos, uma canção de ressaca da saída de Lena d'Água da Salada de Frutas. Esta é a quarta de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #9: 'Amor', pelos Heróis do Mar

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    Foi uma das saídas fora de estrada que os Heróis do Mar fizeram para regressarem depois à sua matriz. À provocação do início seguiu-se uma canção doce, dançável, inflexão ao rock seco que se fazia então em Portugal. Ainda hoje, aquele ‘dráá-tá-tá-tá’ tem um efeito dopamínico. Esta é a nona de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #20: 'Cavalos de Corrida', pelos UHF

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    No final dos anos 70, como reação a canções de intervenção e delicodoces, passou a construir-se uma nova música em Portugal. Nascidos na margem a sul da capital, os UHF foram alento para uma nova geração de músicos e de público, regulando até hoje o rock que se faz por cá. Esta é a 20ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #31: 'Sete Mares', por Sétima Legião

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    A Sétima Legião foi uma das bandas mais elegantes da pop em Portugal. Agregavam consenso entre pistas de dança, imprensa e crítica. Nasceram na Fundação Atlântica, de Miguel Esteves Cardoso, mas queriam ser mais que uns Joy Division à portuguesa e transversalizar a sua arte. Se um dia formalizarem o seu fim, é certo que já terão inscrito com tinta permanente clássicos da nossa pop de maior qualidade

  • 101 canções que marcaram Portugal #38: 'Chamem a Polícia', por Trabalhadores do Comércio (1981)

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    Herdeiros do rock cantado em inglês dos anos 70 – com os Psico e os Arte e Ofício – quiseram satirizar a moda tornada popular por Rui Veloso, os UHF ou os Táxi e acabaram por se tornar parte desse movimento fulgurante e fugaz. O ‘chamem a polícia’, apesar de zombeteira, é uma canção de uma aprumada seriedade musical. Uma história que cruza António Garcês, um integrante da banda com 7 anos e a vitória num festival da canção

  • 101 canções que marcaram Portugal #42: 'Irreal Social', pelos Ban (1988)

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    A pop dos Ban era elegante e acetinada. As suas letras enigmáticas e exóticas. Ajudaram à integração de uma geração num Portugal padronizado. Acicataram o caos criativo, o sentido crítico. Convidaram-nos, enfim, a surrealizar por aí – no seu filme sempre pop. Esta é a 42ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa

  • 101 canções que marcaram Portugal #50: 'Chiclete', pelos Táxi (1981)

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    Foram a primeira banda rock portuguesa a alcançar um duplo disco de ouro. Ajudaram a construir o movimento herdeiro do pós-punk que avassalou Portugal. Vinham do sofisticado Porto e com ‘Chiclete’ passaram a ser aclamados em todo o país. Com Rui Veloso e os UHF, constituíam a tríade perfeita. Esta é a 50ª de 101 canções que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #49: ‘Latin'América’, pelos Jafumega

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    Carlos Tê escreveu algumas das canções mais marcantes do rock português. Os Jafumega, banda nascida da simbiose entre vários músicos, tendências e liberdades musicais, encomendaram-lhe a sua cédula comercial. Escreveu ‘Latin’América’, o hino da banda do Porto, identificável até hoje pelo riff inicial. Uma canção radiante e vigorosa, a 49ª de 101 que marcaram Portugal

  • 101 canções que marcaram Portugal #60: ‘Patchouly’, pelo Grupo de Baile (1981)

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    O Grupo de Baile é uma das bandas de que se fala quando se aborda o boom do rock português, apesar de ter sido uma 'one-hit wonder'. ‘Patchouly’ é uma canção sincopada, orelhuda e divertida (continha uma palavra que teve direito a 'piii'), que serviu de referência para aquilo que se produziu em seguida neste tempo fulgurante. Esta é a 60ª de 101 canções que marcaram Portugal