Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

101 canções que marcaram Portugal #64: 'Remar, Remar', pelos Xutos & Pontapés (1984)

São a banda de rock&roll mais emblemática em Portugal. Com mais de 40 anos de existência, acumularam muita história, glórias e alguns insucessos. Um percurso com tanto de improvável como de exemplar. ‘Remar, Remar’ era o lado A de um single editado pela vanguardista Fundação Atlântica e perdura até hoje como uma das suas canções mais simbólicas, a 64ª de 101 que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Remar, Remar'
Xutos & Pontapés
(1984)

Em gestão, aquilo que define a mais-valia relativamente aos concorrentes designa-se por ‘vantagem competitiva’. Por norma, essa vantagem pode ser determinada por cirúrgicos fatores ou, mais raramente, pela soma de um conjunto destes. No caso dos Xutos e Pontapés, a sua vantagem assentou justamente numa agregação de detalhes que os tornaram na mais aclamada banda de rock&roll de todos os tempos em Portugal.

Tudo começou do avesso. Quase tudo perdurou do avesso. As pedras que encontraram no seu caminho dificilmente seriam suficientes para construir um abrigo – quanto mais um castelo. A banda formada por Zé Leonel, Zé Pedro, Tim e Kalú detinham todos os ingredientes para se esgotar mesmo antes de ter começado. Mas os Xutos e Pontapés tinham a determinação que marca a diferença entre o ocaso e a glória.

Em 1977, Zé Pedro, influenciado pela carreira (já longa então) dos Rolling Stones, e Pedro Ayres Magalhães, mentor dos Faíscas, que eram um dos precursores do movimento punk em Portugal, selaram com o próprio sangue que haveriam de fazer uma carreira relevante na música em Portugal. Dois anos mais tarde, já com os Xutos formados, o mesmo Zé Pedro e Kalú fariam nova jura – desta vez mais ambiciosa: os Xutos haveriam de ser a maior banda nacional de todos os tempos. Os desejos seriam ambos realizados e porventura estiveram na génese da sua persistência.

Zé Leonel era o timoneiro dos Xutos. Um rocker ainda antes de a banda, ainda às voltas com o nome a adotar, às voltas com o montante a recolher para pagar os ensaios na Senófila às terças-feiras, às voltas com cachets magros e ainda por cima pagos em cheque, pouco de banda ser. Zé Leonel era, dizia-se, o timoneiro – o vocalista irreverente que desbundava em palco, que se contorcia, que se vestia de maiô ou de calças de cabedal, que chocava a plateia (mas que todavia ansiava por uma performance como aquela). Ainda assim, Zé Leonel, por loucura, vedetismo ou mero desinteresse, certo é que descurou a dedicação. Passou a ausentar-se dos ensaios e a sua saída foi o resultado de um afastamento natural. Tim, o baixista, o estudante de agronomia nascido no Alentejo, de pose contida, passou a ser o líder da banda – até hoje. Passou a escrever outro tipo de letras – mais complexas, mais esculpidas e menos imorais. Passou a preparar-se mais para o papel que fora obrigado a assumir. Estreou-se como vocalista num concerto no Estabelecimento Prisional de Tires e os Xutos nunca mais seriam iguais. Traçariam um percurso rendilhado de muitos retrocessos e, durante longos anos, de poucos avanços.

Zé Pedro, o mais perseverante (tinha feito dois pactos, pois então), foi o principal impulsor de os Xutos se terem tornado naquilo que (não) se anunciava: começou por entregar as demos de ‘Sémen’ e de ‘Quero Mais’ a António Sérgio, a referência na divulgação de música alternativa na Rádio Comercial: o alternativo como linha reta para o mainstream que queriam alcançar. António Sérgio entreviu grande valor naquele som possante e diferenciado, convidando-os mesmo para comporem o genérico do seu "Som da Frente" e para lançarem o primeiro single na sua editora, a Rotação. De supetão, passavam na rádio, davam entrevistas, concertos e manifestavam-se como uma banda de culto – especialmente junto dos fiéis do Rock Rendez-Vous, ávidos de um som novo e de uma atitude subversiva. Essa projeção, todavia, não lhes rendia vendas de discos (passar ‘Sémen’ na rádio seria considerado uma imoralidade) e a crítica não lhes vaticinava qualquer êxito.

Seria em seguida o agora editor Pedro Ayres Magalhães, aliciado pelo som vanguardista trazido por dois dos seus parceiros na Fundação Atlântica, Miguel Esteves Cardoso e Ricardo Camacho, quem apostaria num novo ciclo dos Xutos e Pontapés. O catálogo da Fundação Atlântica incluía Durutti Column, Virginia Astley ou Sétima Legião; alentava-se nos Joy Division, New Order, Echo & The Bunnymen, The Sound, The Chameleons, The Fall ou The Gist – como um capricho delirante. O rock português estava ao rubro, incluindo o rock alternativo, encabeçado por Sétima Legião, Croix Sainte, GNR ou Ban – a demarcarem-se de ‘Cavalos de Corrida’ ou ‘Chicos Fininhos’. Assentavam como uma luva de pelica, portanto, no catálogo (comercialmente) utópico da Fundação Atlântica.

‘Remar, Remar’ é uma canção elegante, rude e aguçada – como a maioria das que eram editadas pela Fundação Atlântica. Assente no baixo elevado de Tim, nos riffs sofisticados de João Cabeleira, na delicadeza do ritmo de Zé Pedro e na incisão da bateria de Kalú, agregava uma letra depurada a um registo vocal vigoroso. Passou a ser uma das canções dos Xutos e Pontapés mais emblemáticas, votada até pelos fãs da banda como a sua melhor canção. Apesar de não se ter materializado em vendas substanciais (essas só viriam três anos mais tarde, com o álbum “Circo de Feras”, já pela Polydor), fixou-se em primeiro lugar do top Se7e/Cor do Som, programa que Rui Pêgo conduzia na Rádio Renascença.

Anos mais tarde, ‘Remar, Remar’ seria incluída na compilação acústica que conceberam; o álbum “Ao vivo na Antena 3”, de 1995, manifestou-se como um renascimento dos Xutos e Pontapés. Passou a chegar a um público mais heterogéneo e sobretudo não fez debandar os devotados fãs da banda.

Quase tudo foi já escrito sobre os Xutos e Pontapés: em biografias, notícias, episódios mais ou menos confidenciais, histórias contadas pelos seus membros ou por quem com eles conviveu – até porque os Xutos e Pontapés não se esgueiram do público que os consagrou. Com uma carreira tão longa, tão produtiva, para mais num contexto rock&roll, qualquer que seja a extensão de um artigo ou de uma enciclopédia sobre a banda, sobressairá a convicção de que ficou muito por dizer.

Se se pudesse representar os Xutos e Pontapés numa expressão, são uma banda (sobretudo um conjunto de personagens influentes) que depuseram sempre a verdade sobre o mundo que os cercava; daí as suas canções terem vindo a ser entoadas por gerações que revêm na música da banda as suas inquietações e a sua própria génese.

As ondas que te empurram
Aa vagas que te esmagam
Contra tudo lutas
Contra tudo falhas

Ouvir também: ‘Longa Se Torna a Espera’ (1984). Lado B de ‘Remar, Remar’. Uma letra de intransigência, a apelar a um espírito combativo – como deve ser o rock&roll. Exigiu uma potenciação da capacidade vocal de Tim. Incluída também no álbum acústico de 1995, a atestar, por ser uma grande canção, a sua plasticidade de leituras. Foi a canção reinventada pela Sétima Legião no álbum “XX Anos, XX Bandas – Tributo aos Xutos e Pontapés” – uma escolha prenunciada, por terem coexistido na Fundação Atlântica justamente nesta época.