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Amy Winehouse no Rock in Rio-Lisboa 2008

Rita Carmo

10 anos sem Amy Winehouse. O desastroso concerto em Portugal, para quase 100 mil pessoas

28 de maio de 2008, Rock in Rio-Lisboa. Como é que uma mulher sozinha e intoxicada entrou, trôpega, num palco português diante de quase 100 mil pessoas? Quando passam dez anos sobre a morte da artista inglesa, recordamos o único e insólito concerto de Amy Winehouse em Portugal

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

O cenário é familiar mesmo para quem não esteve lá. No imenso recinto do Rock In Rio Lisboa, noite amena de finais de maio, largas dezenas de milhares de pessoas acotovelam-se com ansiedade. Os números oficiais falarão, nos dias seguintes, numa enchente de 90 mil pessoas no primeiro dia do festival; quem lá esteve, ensanduichado entre espetadores e os seus brindes promocionais, desde bóias a cabeleiras fluorescentes e sofás insufláveis, não terá dificuldade em acreditar que o Parque da Bela Vista alberga, pelas 22h00 de 30 de maio, umas 100 mil pessoas.

Tradicionalmente ocupado por estrelas de primeira grandeza em Portugal, o palco principal do Rock In Rio será pisado, dali a poucos minutos, por uma miúda inglesa louca por jazz vocal e girls groups dos anos 60, uma desconhecida do público português até há poucos meses. Mas será mesmo? Entre o público, naturalmente heterogéneo, dada a gigantesca dimensão da plateia maior do que a população de muitas cidades a pergunta mais escutada é: «Será que vem?» ou a sua variação mais fatalista, «Será que morreu?».

Nos ecrãs gigantes, a apresentação da artista uma pequena biografia pré-gravada surge à hora marcada, entrecortada por excertos de «Rehab», o maior êxito de Amy Winehouse em Portugal ou em qualquer outra parte do mundo. O público não tira os olhos do palco, que permanece vazio durante quase 45 minutos. Quando muitos acreditavam que o concerto seria cancelado, uma desfeita impensável para um evento de porte mastodôntico como o Rock In Rio, eis que ela chega. Franzina, especialmente cambaleante e de olhos arregalados, a rapariga de 24 anos contempla estupefacta a multidão. Esta é a mulher que gosta de dar concertos sem avisar, num qualquer pub de Camden, o bairro boémio de Londres onde vive; a estrela que diz invejar o baterista dos Arctic Monkeys por pertencer a uma banda de sucesso mas poder passear sem ser reconhecido; a presa favorita dos paparazzi ingleses, que não obstante mantém a porta do seu apartamento aberta a todos os «penduras» que o pai acusa de lhe estarem a destruir a vida. Esta é também a maior estrela pop dos anos 00 e não faz a mínima ideia do que está a fazer em palco, frente a 90 mil pessoas que, mais do que o esplêndido álbum Back To Black, conhecem os escândalos dos últimos meses.

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O verão quente

O concerto, sabem-no todos os não eremitas, foi sofrível. Pior: a situação repetiu-se, com variantes tragicómicas, um pouco por todo o Verão de Amy Winehouse. Em Glastonbury aguentou a voz mas acabou à pancada com um espetador; no Rock In Rio de Madrid fez melhor figura do que em Portugal, mas deixou o público de cara à banda com atitudes como trocar de sapatos a meio do concerto, queixando-se dos saltos e preferindo o conforto de umas sabrinas; muito recentemente, em França, cancelou no próprio dia a aparição num festival, arriscando-se agora a ter de ir a tribunal por incumprimento de contrato.Será Amy Winehouse, heroína número um dos jovens britânicos, aquilo que sugere na letra de «Back To Black», «life is like a pipe and I'm a tiny penny rolling up the walls inside» (qualquer coisa como «a vida é como um cano e eu sou uma moedinha aos caídos lá dentro»)? Que a cantora precisa de uma pausa ninguém parece duvidar; aliás, um extenso artigo publicado pelo Sunday Times conta como, no dia do concerto no Rock In Rio Lisboa, família e colegas de banda reuniram com Amy Winehouse, tentando convencê-la a cancelar a vinda a Portugal.

A voz da inglesa estava uma miséria, resultado ou de uma constipação, ou de mais uma noite agarrada ao cachimbo de crack. Mas a autora de «Addicted», conhecida tanto pelo seu bom coração como pela sua tremenda casmurrice, insistiu em levar avante um plano com o seu quê de insanidade: visitar o marido na prisão às duas da tarde; apanhar um helicóptero para o aeroporto de Stansted, um dos cinco que servem a cidade de Londres, ao fim da tarde e viajar para Lisboa de avião, regressando a casa logo após o concerto. Tudo correu como planeado por Amy Winehouse, exceto a qualidade da prestação, pela qual se penitenciou em palco.

«Peço desculpa pela minha voz. Devia ter cancelado», reconheceu mais do que uma vez, perante um público que ora riu das suas tentativas desastradas de acompanhar uma banda ultra-competente, ora a incentivou, mostrando paciência e até algum carinho. Uma coisa é certa: este é o único concerto dos últimos anos sobre o qual toda a gente em Portugal tem uma opinião, tenha ou não estado lá.

Publicado originalmente na BLITZ de julho 2008; com detalhes adicionais na BLITZ Extra publicada em julho de 2011, alguns dias após a morte de Amy Winehouse