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Quinta do Bill nos anos 90

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101 canções que marcaram Portugal #63: 'Os Filhos da Nação', pelos Quinta do Bill (1994)

Tinha uma toada festiva, exuberante, mas também interventiva e de inquietação. Uma letra que é transversal a gerações e que corporiza luta e anseios. Os Quinta do Bill, banda de matriz folk e de raiz popular, acharam a sua divisa numa canção que já se fez de todos, a 63ª de 101 que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Os Filhos da Nação'
Quinta do Bill
(1994)

Um ano antes da deposição do período cavaquista, Portugal era um país pujante; Lisboa consubstanciava essa visibilidade. A Expo-98 entrevia-se. A cidade tinha sido eleita Capital Europeia da Cultura. Comemoravam-se os 20 anos de uma sólida liberdade. Em contraciclo, como uma aparente desarmonia, a contestação era frequente e vigorosa. A juventude dizia-se estar à rasca, em resposta à qualificação que Vicente Jorge Silva lhe atribuíra quando as manifestações contra a prova sumativa do 10.º ano, implementada por Manuela Ferreira Leite, tinham ultrapassado a civilidade. O episódio abalou, em todo o caso, aquela estrutura de poder. Os jovens necessitavam de um hino, de uma senha, de uma canção que pudessem galhardamente empunhar para corporizar a sua luta, os seus anseios, os seus dogmas. ‘Nasce Selvagem’, ‘Grândola, Vila Morena’ ou ‘Não Há Nada P’ra ninguém’ eram já canções repisadas noutras lutas. ‘Os Filhos da Nação’ tinha as componentes por que essa geração reclamava; fez sair da obscuridade os Quinta do Bill e fê-los passar a intrometer-se na primeira linha do pop-rock nacional.

‘Os Filhos da Nação’ tinham uma toada festiva, exuberante, mas também interventiva e de inquietação – que se harmonizava com a realidade daquela geração. Só os primeiros quatro versos ("Aqui estás tu, jovem atento / Acordado neste fim de século / À espera de um lugar / Difícil de encontrar") poderiam ser uma resenha da sua substância – mas a letra ia por ali fora, congruente, servindo à medida daquilo com que se identificavam.

A banda de Tomar trazia em si outras latitudes. Os Quinta do Bill eram uma banda comprometida com a periferia: com a periferia musical, geográfica e de presença; não se enquadravam em arquétipos engajados. O vocalista, Carlos Moisés, não tinha o ar trendy urbano – usava óculos redondos, cabelos até à cintura e trajos despojados. Era um freak, enfim, como o fora nos anos de liceu em Tomar. A sua génese são as terras africanas, onde nasceu. Viveu até aos 12 anos em Vila Pery, uma cidade no interior de Moçambique com horizontes largos. Dessa terra orgânica, trouxe o som dos batuques, a consciência de partilha e do respeito pela natureza – proventos que o acompanham até hoje: na sua essência e na música que tem produzido. Estranhou por isso o clima gélido e o caráter reservado de Portugal e das suas gentes. O futuro, todavia, não se constrói de passados e terá sido Gualdim Pais, o fundador da cidade de Tomar, quem terá despertado nos nabantinos uma têmpera combativa e resiliente; tê-lo-á feito também para com Carlos Moisés.

Os Quinta do Bill suplantaram muitos obstáculos – porque partiam de uma cidade do interior e porque cantavam folk em português. O seu folk, que assentava no jazz que ouviram durante a adolescência, entrecortava-se com uma matriz popular e um pop/rock melodioso. Em congruência, ainda assim. Foram contemporâneos dos Sitiados, de João Aguardela, precursores em terem feito com que o folk nacional se libertasse do nicho e da obscuridade. Era preciso acostumar o público a uma nova linguagem e o percurso destas duas bandas foi feito em alinho de afirmação. Participaram ambas no Rock Rendez Vous e os Quinta do Bill venceram mesmo o concurso Aqui d’el Rock, que lhes permitiu gravar o álbum de estreia, com um título dissonante para com o seu percurso futuro: “Sem Rumo”.

Passaram os 30 anos seguintes a mostrar as suas origens e a agregá-las a novas referências. Em discos. Ao vivo, sobretudo: para um público heterogéneo de idades e ideais. É nas suas digressões que exibem o seu lado mais genuíno – o lado festivo, exultante e inquieto. Em sintonia com aqueles a quem se entregam. Tiveram de ter uma senha para a glória (como habitude) e essa senha foi ‘Os Filhos da Nação’. O seu trilho, todavia, não se faria por 30 anos sem composições consistentes e sobretudo sem uma matriz ideológica. Ao longo dos anos, quiseram ter um papel ativo e de alerta contra a ganância, as injustiças e o desapreço pela cultura. Mas também pelo respeito pela dignidade humana e pela ecologia – há muitas décadas, num tempo em que quem falava de ecologia ou se preocupava com essas causas era acusado de indolente.

Mas aquela canção é a sua divisa – que já se fez de todos. Como um património. A inquietação, apesar de catalogar a mesma intransigência, não é feita das mesmas causas ao longo dos tempos. Todavia, apesar de a geração atual ter outras causas por que lutar e enfrentar outras atribulações, a letra continua atual: o contraste entre a necessidade de se fazer parte de um sistema e querer sublevar contra esse mesmo sistema – como uma aparente contradição.

Naquele mês de julho de 2002, o F.C. Porto ansiava por um título de campeão, que fugia há três anos – num clube que se acostumara nas últimas décadas a vencer. A entrada de José Mourinho na época anterior tinha estimulado a motivação dos adeptos, dos jogadores. A claque Super Dragões usou a música dos Quinta do Bill para costurar uma letra de incentivo ao clube. Talvez incitados por Gualdim Pais, irmão de armas de D. Afonso Henriques e cavaleiro templário, certo é que o clube encetaria nessa época grandes proezas – para orgulho de Portugal. ‘Os Filhos do Dragão’, descendente da canção dos Quinta do Bill, mantém-se ainda hoje como um hino do clube.

Os Quinta do Bill cá vão continuando – a tocar, a produzir e a gravar. ‘Os Filhos da Nação’ foi a legenda musical de uma época delirante e inusitada. Muitas das suas canções – de revolta, de amor ou de intransigência – continuam todavia a fazer parte daquilo que representa o Portugal dos últimos 30 anos.

A fúria de um monólogo
Que insiste em partilhar
Mas não entendes porquê

Ouvir também: ‘Menino’ (1994). Do cancioneiro tradicional transmontano, uma canção gravada pela Filarmónica Fraude em 1969.