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As 5 Melhores Canções (#1). Os épicos e bombásticos Queen

Foi uma das bandas mais amadas dos anos 70 e 80 do século XX, mas também das que menos favores colheram da crítica. Campeão de vendas em todo o mundo, o grupo de Freddie Mercury deixou um longo rasto de canções que as multidões cantaram em coro. Escolhemos as (subjetivamente) melhores, entre opções 'naturais' e outras que podem soar inesperadas. Esta é a estreia de uma rubrica que elege as 5 (e só 5) melhores canções dos artistas mais celebrados da música

Somebody to Love (1976)

'Bohemian Rhapsody', um ano antes, deixara os Queen em estado de graça. Aproveitando uma verve imparável, Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon (este, sempre silencioso no seu baixo) vão dos coros operáticos ao gospel em sensivelmente 12 meses, criando um monumento espiritual de apenas três vozes multiplicadas para a centena com a ajuda das técnicas de estúdio que a banda inglesa ajudou a impor. Aretha Franklin era a inspiração de Mercury, autor da canção, em 'Somebody to Love'. Era uma das canções preferidas de outro astro trágico, George Michael, que a interpretou galhardamente no concerto de tributo de Freddie Mercury, em 1992.

Under Pressure (1982)

Quis o destino que uma das mais celebradas colaborações de sempre do rock, um encontro de estrelas cintilantes em topo de forma, viesse a fazer parte do álbum menos querido pelos fãs dos Queen, um “Hot Space” onde o disco, o funk e o apelo dançável trocaram as voltas aos apetites mais roqueiros da 'claque' e deixaram Freddie Mercury e companheiros em maus lençóis numa América menos recetiva ao hedonismo do 'frontman'. Sete meses antes, porém, os Queen chegavam ao primeiro lugar do top britânico com um single que prenunciava, talvez, outros anos 80 para a banda. Uma canção poderosa que nasceu de uma jam session em Montreux, na Suíça, com os quatro Queen e David Bowie num casamento perfeito, e os dois cantores a tentarem suplantar-se em luta de titãs. Uma curiosidade que mostra que, muitas vezes, são os acasos a gerarem os maiores 'milagres' na música: atribuído a John Deacon, o riff de baixo proeminente na canção, foi no entanto esquecido pelo baixista dos Queen e só a boa memória de David Bowie, durante um jantar na cidade suíça, o resgatou para a posteridade. “Why can't we give love one more chance?”

Bohemian Rhapsody (1975)

É inevitável incluir 'Bohemian Rhapsody' nesta lista. Saiu quase integralmente da cabeça de Freddie Mercury, que compôs praticamente todos os segmentos da canção e a letra. Já muito foi escrito sobre este monumento do rock de quase 6 minutos, burilado pelos quatro Queen e o produtor Roy Thomas Baker, mas há algo que talvez ainda não tenha sido suficientemente sublinhado: 'Bohemian Rhapsody' é uma canção sobre a solidão.

The March of the Black Queen (1974)

Imaginemos um mundo em que 'Bohemian Rhapsody' nunca tivesse existido e os Queen não tivessem deixado de ser uma banda de culto, longe das multidões mas acarinhada por uma 'nação alternativa'. Nessa realidade paralela, “Queen II” (1974), o segundo álbum da banda seria, muito provavelmente, a obra-prima incensada (em vez de “A Night at the Opera”, lançado um ano depois, com “Sheer Heart Attack” pelo meio) e os 6 minutos e 32 segundos de 'The March of the Black Queen', o monumento alojado no segundo lado do álbum, dariam forma à a canção mais definidora de Freddie Mercury e companhia até aí: diferentes andamentos, a guitarra de Brian May e o piano de Freddie Mercury nos extremos, rock e 'music hall' na mesma sala de ensaios e no mesmo estúdio onde as fitas se tornaram quase transparentes, saturadas por tanto detalhe sobreposto. Há quem designe 'The March of the Black Queen' como 'Bohemian Rhapsody' antes de 'Bohemian Rhapsody'. Percebe-se a ideia; mas no tal mundo paralelo esta 'marcha' teria chegado muito mais longe.

I'm Going Slightly Mad (1991)

Não a verá muitas vezes em listas de maiores feitos dos Queen, e não só é uma pena como é quase um crime. “Innuendo”, o álbum que a alojou, é o chamado 'late era classic', o disco subitamente vital que uma banda experimentada lança numa fase adiantada da sua carreira. Não sabíamos o quão adiantada: Freddie Mercury morreria no outono do mesmo ano, colando ao disco de 'The Show Must Go On' e 'These Are the Days of Our Lives' o estatuto de 'testamento'. Saídas afinal das mãos de Brian May ('The Show...') e Roger Taylor ('These Are the Days...'), as canções do álbum que habitualmente se associam a uma ideia de predição são, afinal, uma reflexão dos companheiros de banda sobre a noção da finitude física, um olhar para trás apaziguado, procurando extrair o chamado 'pensamento positivo' de uma situação-limite (a iminência da morte). 'I'm Going Slightly Mad' é, por outro lado, a 'real thing', Freddie sobre Freddie, Freddie a deixar galopantemente de ser Mercury e a ter consciência dessa pele que se despe, insanidade que o videoclip - surreal, a preto e branco - fortaleceu. Presos a slogans e anseios universais durante os anos 80 ('I Want It All', 'I Want to Break Free', 'Who Wants to Live Forever', 'Friends Will Be Friends'), os Queen (neste caso, Freddie) despediam-se falando só para o bom entendedor: “When the outside temperature rises / And the meaning is, oh, so clear / One thousand and one yellow daffodils / Begin to dance in front of you, oh, dear”. Bravo!