Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Doce

101 canções que marcaram Portugal #62: 'Bem Bom', pelas Doce (1982)

As Doce foram uma banda irreverente e sofisticada. Representaram o país que se vivia, agora a cores. Serpenteavam-se em trajos sensuais e atentaram a moral puritana. Arejaram Portugal com a sua elegância e arrojo. Mas arrebataram o público sobretudo com grandes canções. ‘Bem bom’ é a canção que as define enquanto ícones, a 62ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Bem Bom'
Doce
(1982)

Acabou. Desta vez foi de vez, ouviu Tozé Brito ao telefone. Estava em Cascais; as Doce no Porto. Era noite alta. Pôs-se a caminho, ao encontro de Fá, Laura, Teresa e Lena – que mais uma vez se tinham desentendido. O motivo para a desavença era irrelevante; já tinham tido muitas e teriam ainda muitas mais. Conseguiu convencê-las, às 9 da manhã, a manter a união artística, o foco e os compromissos. Eram afinal um produto seu. Tinha criado o projeto português mais bem sucedido da canção ligeira da primeira metade da década de 80 e não era hora de abrandar.

A história começara a desenhar-se em abril de 1979, dez meses antes da primeira participação das Doce no Festival RTP da Canção (em que se classificariam em 2.º lugar). Tozé Brito juntou Mike Sergeant, Fátima Padinha e Teresa Miguel para lhes comunicar o fim dos Gemini, a primeira banda portuguesa a alcançar um disco de platina. Em três anos de existência, tinham vencido o Festival, calcorreado o país, recebido ovações do público. Nada mais por que lutar, portanto. A sua matriz era a de edificar novos conceitos.

As Doce nasceram no final do outono de 1979, movidas pela intuição arguta de Tozé Brito. Eram apenas três ainda: duas morenas (Fá e Lena) e uma ruiva (Teresa). Todas tinham já trabalhado com o produtor – nos Green Windows, nos Gemini e nas Cocktail, embriões das Doce. Faltava uma loira para compor a imagem de sofisticação. Faltava pois a Miss Fotogenia no concurso Miss Portugal desse ano, Laura Diogo. Faltava ainda, todavia, quase tudo – a bem dizer. É admirável como três meses depois as Doce estariam au point, tanto quanto no auge da sua carreira, três anos depois. Para além do dinamismo da editora, foi José Carlos – estilista, cabeleireiro e maquilhador, a pedra de toque na irreverência e diferenciação das Doce. Tudo à pressa e tudo bem feito – que a primeira emissão a cores da TV em Portugal seria dali a pouco – no Festival da Canção. E entraram de lampejo com a canção ‘Doce’. Tudo a preceito. Segundo lugar, atrás de José Cid. Fulgurantes. O seu futuro já tinha começado – tanto quanto o da nova canção em Portugal.

José Carlos, como uma incoerência, desfizera-lhes o sonho no Festival seguinte. Levavam uma grande canção – porventura a sua melhor canção para se emparelharem à Europa. Levavam ‘Ali Babá’, mas antes de sonharem com a Irlanda teriam ainda de passar pelo crivo de um júri conservador, ortodoxo e intolerante. À sua frente, as meninas a serpentearem-se com um outfit mínimo, de biquíni, com correntes e franjas: sherazades sensuais a atentarem a moral puritana. Quarto lugar. Atrás de Carlos Paião, José Cid e Maria Guinot. Como uma reprimenda.

Estavam já referenciadas, em todo o caso. Desde o seu primeiro êxito (‘Amanhã de Manhã’, que alcançou o disco de ouro) que os versos de Ary para Simone (‘Quem faz um filho fá-lo por gosto’) ainda ensombravam a moral. O seu verso parónimo ‘Quem ama por gosto não cansa’ tinham tornado as Doce foco de atração e fantasia, mas incomodado até feministas alegadamente liberais, que as alcunhavam de pornográficas e as comparavam às mulheres do Cais do Sodré. ‘Quem ama por gosto não cansa’ não era tudo: o indecoro chegava ao cúmulo de sugerirem amarrar o amante à cama e ao soalho. Em todo o caso, e por causa desses atrevimentos, desempenharam um papel importante na emancipação da mulher em Portugal. Arejaram Portugal: pelo arrojo, pela elegância, pelo (ainda assim) bom senso e pelo humor. Só assim foi possível terem perdurado sete anos.

No ano seguinte a canção-Doce. O seu ano: 1982. O ano da afirmação, da vitória no Festival RTP. Desta vez, nem Carlos Paião valeu a Cândida Branca Flor (que ficou em segundo lugar, com ‘Trocas e Baldrocas’). As Doce levavam uma grande canção e sobretudo resguardadas com muito tecido. Vestidas de mosqueteiros, só com mãos e cabeça destapadas. Uma coreografia alegre, festiva – nada de serpenteios - e venceram. Fizeram das Doce aquilo por que todos tinham trabalhado: um quarteto feminino (hoje 'girl band') mainstream. Tinha valido a pena.

‘Bem Bom’ é uma canção escrita a três mãos – entre Tozé Brito, o seu irmão Pedro e António Avelar de Pinho, mentor da Banda do Casaco e de Rui Veloso, entre tantos. Inspirada na métrica musical do Malhão, é todavia uma canção irreverente: ao fundamento tradicional juntaram uma letra sobre uma madrugada e manhã de arrebatamento apaixonado. É uma canção exultante, viva e orelhuda. Bem desenhada. Feita para as Doce. Para triunfar. Como tudo o que era feito para as Doce.

As Doce não eram um todo. Eram quatro personalidades que perfaziam o grupo. Quatro personalidades individualizadas. As Doce eram a Fá, a Lena, a Teresa e a Laura. Era essa a sua força. A sua vantagem. E porventura aquilo que as fez terminar – por esse plissar de individualidades. Em 1986, as Doce estavam exaustas: da estrada na Ford Transit com o seu logo (um lettering Doce e uns lábios sensuais), de calcorrearem o país em zigue-zague, de se vestirem em quartos emprestados pelo presidente da Junta ou em conventos de freiras, dos piropos deselegantes, de não terem uma vida comum. Mas também desiludidas por o sonho da internacionalização ter sido um fracasso. Por já não conseguirem ser novidade. Porque tinham arrebatado Portugal com excesso. O Portugal dos anos 80 era um país enérgico. Inquieto. A viver uma adolescência de ânimos, experiências e pretensões. As Doce condisseram com aquilo que fomos e a sua música será o registo musical mais concreto desse nosso interlúdio cultural.

Sete da manhã ouvindo um disco antigo
Hoje é o primeiro dia
Do resto da tua vida
São horas a mais
E já não há saída

Ouvir também: ‘O Barquinho da Esperança’ (1984). Letra de Miguel Esteves Cardoso e música de Pedro Ayres Magalhães, na sua época quimérica da Fundação Atlântica. Concorreu ao Festival RTP em 1984 e classificou-se em 11.º lugar. Uma canção com tanto de sóbrio como de inusitado para as Doce.