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JUVENTUDE. Em palco em 1965, pouco tempo depois de escrever “Ah, but I was so much older then, I’m younger than that now” em ‘My Back Pages’. Nessa altura, Dylan ‘existia’ há poucos anos

Val Wilmer/Getty Images

Quem é afinal Bob Dylan? As mil caras de um génio

Ao longo da vida, não tem feito outra coisa senão lançar-nos iscos envenenados. Este ano comemorou-se o 80º aniversário de Robert Allen Zimmerman. Mas Dylan é outro: o seu caminho é uma sucessão de partidas e chegadas, de episódios equívocos, de jogos de espelhos. Um ensaio assinado por João Lisboa

Para o concerto que, na sexta-feira 12 de abril de 1963, apresentaria no Town Hall de Nova Iorque, Bob Dylan fez imprimir no programa um poema, “My Life In A Stolen Moment”. Aí, referindo-se à pequena cidade do Minnesota onde crescera, dizia: “Hibbing’s a good ol’ town, I ran away from it when I was 10, 12, 13, 15, 151/2, 17 an’ 18, I been caught an’ brought back all but once.” É o ponto de partida para uma longa enumeração de proezas e infortúnios — prisões por suspeita de homicídio e roubo à mão armada, viagens em comboios de mercadorias e à boleia, entre o Texas, o Mississípi, a Califórnia, o Oregon, o Novo México, o Wisconsin e a Luisiana, noites ao relento, tareias por motivo nenhum — que desemboca numa explicação do que o conduzira aquele palco: “I started doing what I’m doing, I can’t tell you the influences ’cause there’s too many to mention an’ I might leave one out, an’ that wouldn’t be fair, Woody Guthrie, sure, Big Joe Williams, yeah, it’s easy to remember those names, but what about the faces you can’t find again, what about the curbs an’ corners an’ cut-offs that drop out a sight an’ fall behind, what about the records you hear but one time, what about the coyote’s call an’ the bulldog’s bark (…) Open up yer eyes an’ ears an’ yer influenced an’ there’s nothing you can do about it.” Noutras ocasiões, relataria a sua história de pobre órfão do Novo México, obrigado a trabalhar em circos ambulantes e feiras como empregado de limpezas e responsável pela grande roda, e que, uma vez chegado a Nova Iorque, para alimentar uma dependência de heroína que lhe custava 25 dólares por dia, se vira forçado à condição de prostituto, ao serviço de clientes de todos os géneros e preferências. Essa seria, certamente, a biografia — uma das muitas biografias possíveis — de Bob Dylan. Mas não era, de todo, a de Robert Allen Zimmerman, nascido a 24 de maio de 1941, em Duluth, no Minnesota.

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