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Da Weasel em 2007

Rita Carmo

101 canções que marcaram Portugal #61: 'Dialectos da Ternura', pelos Da Weasel (2007)

Os Da Weasel nasceram numa vaga de inquietação. A sua música assentava no cruzamento de culturas e sons. Tinham identidade. Carisma. Elegância. ‘Dialectos da Ternura’ foi uma canção que apeteceu ouvir em todos os lugares, durante meses – como que a antever a sua despedida. É a 61ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Dialectos da Ternura'
Da Weasel
(2007)

Horas antes de morrer, Ary dos Santos escreveu um soneto. Não uma letra para ser cantada; antes um soneto de homenagem à mãe que perdera aos 14 anos e que lhe enfeitava o berço com buganvílias. Escolheu a medida nova, complexa, duas quadras e dois tercetos, como o fizera Antero de Quental ou Camões nos últimos dias. Versos decassilábicos, acentuados na sexta e décima sílabas – ele que se acostumara a escrever em torrente para os artistas que escolhia oferecer as suas composições. Para Ary, a poesia era uma linguagem diferente da de escrever canções. A poesia não se deveria imiscuir na música e uma letra não tinha de ser lida; antes tomada pela voz com os arranjos certos.

Carlos Nobre sabe escrever para música. Em 1993, desconhecia que sabia escrever tão bem música em português; aguardava no átrio da XFM, na Avenida de Ceuta, por Nuno Galopim para lhe entregar uma maquete com uma canção em inglês que continha todas as suas utopias. O locutor haveria de ser o seu primeiro guia naquela rádio que tocava música para uma imensa minoria, que dava airplay ao lado B dos singles. E foi nessa rádio, que congregava erudições tão heterogéneas como a ‘Jazzosfera’ de Rui Neves ou o ‘Grande Delta’ de António Sérgio, que germinaram os Da Weasel.

O hip-hop estava a nascer em Portugal. Estava a renascer a música de intervenção – agora, vinte anos depois, com compassos musicais menos convencionais. Os anos 90, apesar de ter sido uma década efusiva em termos económicos, foi uma década de agonia pelo temor provocado pela vulgaridade das drogas pesadas e pelo HIV. Reclamava-se a discussão sobre o estado social, político e humano. Procurava-se intervir socialmente e criticar o que não parecia estar alinhado.

Os Da Weasel nascem nesta vaga de inquietação, propulsada pelo álbum “Rapública” – encabeçada pelos Black Company, Boss AC ou Líderes da Nova Mensagem. Não eram bem aceites por nenhuma turma – que produziam sonoridades engajadas. Os Da Weasel não eram uma banda de rock. Nem de hip-hop. Nem de rap. Eram tudo isso e mais além. Como Mário de Sá-Carneiro escreveu (que poderia ser a matriz dos Da Weasel), ‘Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio / Pilar da ponte do tédio / Que vai de mim para o outro’. Pois foi uma ponte (a analogia era inevitável) que trouxe o hip-hop até Portugal, apeando-se primeiro em Lisboa. O hip-hop cresceu na margem sul do Tejo. Em Almada. Em Cacilhas. No Fogueteiro. No Feijó. Nos bairros feitos de cruzamento de culturas e sonhos partilhados. Sentiam que era o seu ensejo para fazerem uma festa de hip-hop e ação.

O destino traçar-se-ia sem os protagonistas que conhecemos – mas não se conhecem outros porque foram esses que fizeram a história. Yen Sung, a DJ vinda de Nampula, promovia matinés de hip-hop no Trópico, em Santos, e foi catalisadora para que a turba deste género se acomodasse à era que (se) estava a esboçar. Haveria ela própria de fazer parte dos Da Weasel. No fim dessas matinés servia-se cachupa, selando-se com afinidade as mensagens que se pretendia relevar.

Durante mais de uma década, os Da Weasel foram os timoneiros de uma geração inconformada e impaciente. Para quem a sua música fazia sentido. Começaram, nos primeiros álbuns, por denotar cambiantes moralistas, idealistas - até firmarem a sua identidade. E a sua identidade passou a ser as grandes canções – tendo ou não uma categorização estática.

Juntou-se um grande autor de canções a músicos de excelência e sobretudo identidade. Carisma. Elegância. Mas sobretudo grandes canções. Firmaram-se com o álbum “Re-definições” e com o tempo foram concebendo canções menos afiadas, mais aveludadas e melódicas – que faziam apetecer subir o volume do rádio. Em 2007, produziram a sua obra-prima, “Amor, Escárnio e Maldizer” – sem se saber, a sua despedida. A canção que os detonou nesse álbum não foi, ao contrário da sua génese, uma canção de escárnio e maldizer, mas uma canção de amor.

Meses a fio sem que se acompanhasse uma emissão de rádio sem se ouvir o sample de ‘Dialectos da Ternura’ e a voz grave de Pacman a seduzir com uma letra que não parecia cansar. É uma canção que apetecia ouvir em todos os lugares. Com amigos ou de mão dada. Tendo-se 10 anos ou muitas vezes mais. ‘Dialectos da Ternura’ é uma canção viva, enérgica e melódica. Intemporal. Firmou os Da Weasel como um dos maiores modelos do que é e deve ser a música portuguesa: uma confluência de géneros, estórias e culturas. A geração que os muito ouviu, a que os continua a ouvir e para quem os Da Weasel continuam a fazer sentido concederam-lhes uma componente invulgar: terão terminado no tempo certo – que é o que nos faz deles ter saudades.

Foi por isto que esperei em cada noite que amei
Ou pensei que amei, porque é agora que eu sei
A razão da palavra consagrada
Que tanta gente dá à toa, em troca de quase nada.

Ouvir também: ‘Casa (Vem Fazer de Conta)’, (2004). Uma canção doce e trágica. Elegante – com a voz de Manel Cruz a apurar uma já de si grande composição.