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Grupo de Baile na foto da capa do single 'Patchouly', de 1981

101 canções que marcaram Portugal #60: ‘Patchouly’, pelo Grupo de Baile (1981)

O Grupo de Baile é uma das bandas de que se fala quando se aborda o boom do rock português, apesar de ter sido uma 'one-hit wonder'. ‘Patchouly’ é uma canção sincopada, orelhuda e divertida (continha uma palavra que teve direito a 'piii'), que serviu de referência para aquilo que se produziu em seguida neste tempo fulgurante. Esta é a 60ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Patchouly'
Grupo de Baile
(1981)

Tudo cabe numa história da música: os precursores, os seguidores, aqueles que obtiveram sucesso fulgurante ou fugaz, os que foram ignorados e aqueles que serviram de timoneiros a um movimento. O Grupo de Baile é uma banda de que se fala quando se aborda o boom do rock português, um período de pouco mais de três anos, de finais de 1980 a inícios de 1984. Chegava a vez de Portugal absorver o fluxo new wave vindo sobretudo de Inglaterra. A democracia já se impusera há muito e, para esta nova geração, a cantiga não tinha de ser uma arma.

O boom do rock português marcou sobretudo uma rutura com o passado. Fala-se deste período porque tornou transversal o rock em Portugal; porque as bandas obtinham discos de ouro e platina em torrente. Num país falido e à beira de ser intervencionado pelo FMI, é um enigma como havia tantas mesadas para se gastar em álbuns, singles e EPs. Percebe-se porque o movimento detonou; percebe-se ainda melhor porque afrouxou: foi tomado em excesso, em pouco tempo. Havia que retomar géneros remetidos para a periferia; havia que consumir outras estéticas trazidas para um Portugal com ouvidos virados para a Europa, numa sua nova fase de descobrimento. Havia agora o jornal BLITZ – que tornava disfórico o nosso rock ‘a la’ The Police, num culto ao ska e ao reggae. Portugal tinha mesmo mudado; ansiava por mudanças – de tanto se acostumar à constância durante décadas.

O Grupo de Baile foram 'one-hit wonders', não há como refutar. Poderia não ter sido. Outros que o não foram poderiam tê-lo sido. Mas a história é factual. Uma das temáticas diletas desta vaga era o quotidiano do marginal urbano, do delinquente astuto – em desalinho com o marialva viril das décadas anteriores. Queria-se malta baril (hoje cool), que dissesse palavrões, que vivesse à margem das convenções. As canções eram assim polvilhadas de obscenidades – estimulando uma alegria infantil e transgressora. O Grupo de Baile não assentou o seu sucesso numa obscenidade, mas a palavra ‘pentelho’ ajudou a despertar a atenção; a editora valeu-se da censura a esta palavra – sobretudo para a canção poder ser emitida na Rádio Renascença e na RTP - e o ‘piii’ a vendá-la reavivou recalques ainda arraigados. As edições censuradas eram todavia as menos cobiçadas e venderam substancialmente menos. A estratégia de marketing, apesar disso, tinha funcionado.

Naquele ano de 1981, o Grupo de Baile não tinha ainda carreira, mas o grupo de amigos de infância não estava intimidado com o sucesso fulgurante – ainda que pouco tempo antes estivesse a tocar na filarmónica da sua terra, o Seixal, ou a trilhar o circuito dos bailes (daí o nome Grupo de Baile) com os hits rock de então entrecortados com canções românticas. ‘Patchouly’ vendeu 100 mil cópias e fez o Grupo de Baile calcorrear os mesmos bailes de então – mas agora com um punhado de canções originais. Fê-los em paralelo serem disputados pela televisão, pela rádio e por palcos maiores.

A expressão ‘tiro e queda’ poderia servir de elegia à sua grande canção. Tiveram a mesma ventura da maioria das bandas nascidas neste período fulgurante. Quiseram, depois de ‘Patchouly’, impor a diretriz no seu futuro – mas as editoras (em concreto a sua, a Valentim de Carvalho) tinham ainda muitos GNR, Heróis do Mar, Jáfumega, Roquivários, CTT, Frodo, Iodo ou Pizolizo para editar – e a sua fórmula teria de se adequar a um paradigma ainda com muito que colher. O Grupo de Baile queria infletir o paradigma que os relevara e começou aí o seu epílogo.

Em todo o caso, o que fez do Grupo de Baile intemporal foi aquela canção. Uma grande canção. A servir de referência às bandas que se lhe seguiram, introduzindo elementos inovadores aos precursores UHF, Táxi e Rui Veloso. É uma canção sincopada, orelhuda e divertida. Que fazia apetecer desinibir. Era precisamente o que fazia o vocalista Carlos Tavares, com uma presença rebelde e eletrizante em palco, com gestos estrambólicos e um olhar cativante. A letra narra a rotina de um playboy que encantava raparigas de liceu com o seu perfume intenso, ‘Patchouly’. A marca indiana de perfumes serviu para a canção ficar no ouvido; para mais, uma grande canção tinha de ter então uma expressão inusitada e não se obrigava a uma complexidade métrica.

Existiram o tempo que tinham de existir. Sobretudo perduraram. Passaram a ser um timbre de um tempo fugaz e excessivo. A maioria dos membros afastou-se da música pouco depois do sucesso de ‘Patchouly’, ainda no período do boom – mas já na sua fase menos fulgurante. Vão surgindo ainda vigorosos em eventos nostálgicos de uma época que se viveu veloz. Foi bonita a festa, pá; e o grupo de Baile um dos anfitriões desse festim de euforia, farra e novidade.

Ai que bem cheiras, que bem cheiras dos sovacos
As meias rotas e os sapatos descascados
Nas avenidas ainda fazes os teus engates
E tudo graças ao perfume Patchouly

Ouvir também: ‘Já rockas à toa’ (1981). Lado B de ‘Patchouly’, compondo o breviário do Grupo de Baile.