Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Carlos Mendes na foto do single “A Festa da Vida”, de 1972

101 canções que marcaram Portugal #59: 'A Festa da Vida', por Carlos Mendes (1972)

Carlos Mendes tem sido, ao longo de mais de 50 anos de carreira, uma das grandes referências da música ligeira em Portugal. ‘A Festa da Vida’ une uma letra rendilhada, uma música engenhosa e sobretudo uma figura e voz invulgares – com uma história longa, rica e incomum. Esta é a 59ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'A Festa da Vida'
Carlos Mendes
(1972)

Carlos Mendes é um artista desconcertado. Soube ser muitos; não soube ser senão muitos. Teve muitos ofícios, assumiu vários espectros em cada um desses ofícios. É um artista intervalar. Periférico e alinhado. Subversivo e engajado.

Escolher ser artista em Portugal, excluindo minorias e figuras insuspeitas (e também suspeitas), adivinha-se atravessar um percurso inclemente. Como em qualquer país, aliás – grande ou pequeno – porque sendo pequeno o mercado é ajustado a essa dimensão; sendo grande, a concorrência é selvagem. A encruzilhada é factual, em todo o caso.

Carlos Mendes é uma das nossas maiores referências. Apesar do trajeto ziguezagueante, sabe que o público lhe guarda carinho e admiração. Porque tudo faz (e fez) com rigor, entrega e simpatia. Tem aquilo a que se chama uma ‘carreira’, ainda que essa ‘carreira’ tenha sido construída na música, na arquitetura, no teatro e na televisão. Foi um dos rapazes aprumados dos Sheiks, um grupo com quatro rapazes que sabiam cantar (sobretudo ele), foi menino de festivais, foi arquiteto co-responsável pelo Hospital de Guimarães, foi cantor de intervenção, foi cantor açucarado, foi amante de palavras e de poetas, foi cantor lírico, foi vigarista oxigenado numa novela, foi ator em peças de teatro, apresentador de programas na TV... um percurso inusitado de um homem vertical – podendo esta correlação ser tomada como incongruente.

O pai estava impedido de exercer medicina em hospitais públicos – por ideologicamente estar em desacordo com o regime vigente – mas esforçava-se por possibilitar uma educação elegante aos seus três filhos, dando para isso consultas desenfreadamente. Carlos Mendes acostumou-se por isso a valorizar o trabalho e a elegância. Os seus e dos que o rodeiam.

Cresceu na Alameda e a sua sala de ensaios era o jardim da fonte luminosa em frente à sua casa, a partir dos treze anos. Os Sheiks aí nasceram e a sua génese assentou em uma reação de raiva: Jorge Barreto, à mesa da Mexicana, na Praça de Londres, desafiou Carlos Mendes a irem até ao Liceu Camões – onde tocava um conjunto que talvez os deixassem subir ao palco para tocar um ou dois temas que tinham ensaiado vezes sem conta no jardim. Tendo sido escorraçados e impedidos de tocar alguns acordes dos hits pré-Beatles, no caminho de volta Carlos Mendes jurou que iria liderar uma grande banda. Ironicamente, anos mais tarde, o vocalista que não os tinha deixado tocar tentou ingressar nos Sheiks – e teve recompensa pelo seu pedantismo.

Carlos Mendes sairia nove meses antes do fim da banda que criara – para estudar arquitetura – e firmaria carreira a solo. Numa primeira fase com pouca convicção, depois já assombrado pelas palavras, pelas canções, pelo novo que queria criar, pela personagem que estava convicto poder fazer diferente. Ganhou o Festival RTP da Canção em 1968 e em 1972. Em 1972, a terminar o curso de arquitetura, respondeu a um anúncio no jornal de José Niza, o médico-poeta, para cantar ‘A festa da vida’. Estava convicto de que iria vencer. Por muito. E venceu. Por muito. Com uma diferença de 150 pontos para o segundo classificado, Paco Bandeira. Como curiosidade, o vencedor do ano subsequente, Fernando Tordo (com ‘Tourada’), seria remetido para último lugar neste festival.

José Niza era um homem inconformado. Estivera nas matas do norte de Angola e de lá trouxera lirismo e carência de afetos. Escreveria (vencendo) em 1974 ‘E depois do adeus’ e dois anos mais tarde ‘Flor de verde pinho’, mas foi ‘A festa da vida’ que obteria a melhor classificação portuguesa até então na Eurovisão, um garboso sexto lugar. No Teatro S. Luiz, em Lisboa, Carlos Mendes estava tenso, percebia-se, com algumas hesitações nas oitavas mais exigentes, mas sobrou para vencer destacado. As meninas do coro vestiam o mesmo fato de bom corte que o intérprete, gravata incluída. Haveria de estar bem mais desinibido e espontâneo em Edimburgo, um mês mais tarde – e essa simpatia contagiou o júri europeu.

Depois do 25 de Abril, foi comum atribuir-se a canções escritas antes mensagens subliminares – como se cada verso contivesse uma mensagem subversiva, a esgueirar-se do olhar pouco atento da censura. Todavia, ‘A festa da vida’, apesar de ter sido escrita por um homem impaciente e indignado, perdura sobretudo como uma canção muito bela. ‘A festa da vida’ une uma letra rendilhada, uma música engenhosa e sobretudo uma figura e voz invulgares. Integra componentes que compõem uma canção intemporal. Perpassou gerações e tem resistido a outras leituras e linguagens. São canções como esta que determinam a definição de música ligeira portuguesa. Carlos Mendes, esse, continua, na sua elegância, a escolher as melhores canções para nos tocar. Serve-nos há mais de 50 anos uma festa de palavras, acordes e afinidades – deixando honrado o seu país.

Que tragam cobertores ou mantas
O vinho escorra pelas gargantas
E a festa dure até às tantas

Ouvir também: ‘Amélia dos olhos doces’ (1977). Um álbum insuflado de causas novas, “Canções de ex-cravo e malviver”. Amélia na canção é uma prostituta – simbolizando a luta de mulheres que nem pela sua condição de vida desafortunada perdem a doçura. Uma letra sublime de Joaquim Pessoa.