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Sérgio Godinho: detalhe da capa do álbum “À Queima Roupa”

25 de Abril. 'Liberdade', por Sérgio Godinho. Esperar tantos anos torna tudo mais urgente

Recordamos uma canção que deu finalmente nomes concretos à liberdade. Os seus conceitos - paz, pão, habitação, saúde e educação - poderiam ser inscritos num mural tingido a grafite. Esta foi a 36ª de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas que ficaram para a história da música portuguesa. E que merece 'replay' no dia em que é atribuída a Sérgio Godinho a medalha de mérito cultural

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

O texto seguinte foi publicado em agosto de 2020.

'Liberdade', de Sérgio Godinho
(1974)

Sérgio Godinho esgueirou-se de Zeca Afonso. Porque natural era Zeca Afonso apoderar-se involuntariamente dos músicos de intervenção no pré e pós revolução. Porque, pela influência e fascínio que imprimia, seria natural a todos produzir canções sucedâneas de Zeca. Mas Zeca Afonso, mais que influência e fascínio que inscreveu em Sérgio Godinho, fê-lo outrossim fazer as pazes com a génese do seu país.

Estava em Paris no tempo certo, no tempo do Maio de 68, longe do serviço militar colonial, longe do Portugal lúgubre, perto de Zeca, de Luís Cília, de José Mário Branco. E bebeu aí (apenas) uma parte da sua génese. Porque se a sua génese aí se concentrasse, não teria sido Sérgio Godinho – o mais consistente compositor da música feita em Portugal dos últimos 50 anos.

Bebeu na família os trejeitos da cultura e do inconformismo. A avó era diseuse de poesia na rádio, o pai defendia uma solução tolerante para as colónias, opondo-se (não apenas por isso) a Salazar e a mãe tinha o curso de piano. Acostumou-se a ouvir jazz, música clássica e também, em desconcerto, Noel Rosa, Brassens e Brel. E os Beatles. E Bob Dylan. Mais que uma inspiração, esses compositores foram um estímulo. E sobretudo, para além de uma indisposição para lutar pelos ideais de esquerda nas matas da Lunda ou de Tete, apossou-se do caráter errante de Jack Kerouac. Portugal estava então cumprido para Sérgio Godinho. O Porto era provinciano, como Lisboa, como o país, apesar de a sua estética soturna e granítica ter algo de europeu. Tinha todavia ímpeto de vagabundagem; o Porto, Portugal, não eram bastantes. Durante nove anos, forçou aventuras e viveu outras não calculadas. Experienciou o bas fond. Fundeou aí a sua génese, nesses nove anos. E aprimorou-a nas décadas seguintes. Lutou contra injustiças; em contrassenso, sofreu-as violentamente, especialmente no Brasil.

O 25 de Abril apanhou-o no Canadá e não tardou a embalar a trouxa e zarpar. Havia muito que intervir. Impelia-o ajudar a criar um tempo novo. Já havia editado dois álbuns em Paris e colaborado em outros de camaradas que tinham achado na capital francesa um refúgio para o seu engajamento. Nesse ano, quis dar nomes a uma palavra já sem sentido – porque era já escusado lutar por ela. Os capitães já se tinham encarregado de o empreender. Era preciso, isso sim, nominar essa nova consecução com ideais concretos. E a liberdade passava, na sua canção, a manifestar conceitos reais. A liberdade era paz, pão, habitação, saúde e educação. A liberdade isolada era um conceito inócuo. Mas a sua materialização nestes cinco conceitos poderia ser inscrita num mural tingido a grafite. A canção Liberdade não é uma canção datada. É uma canção de revolta, intemporal, destoante do epíteto redutor do cantor de intervenção, apesar de sempre inquieto. Perdurou até hoje como um clamor de intransigência. É um catálogo daquilo que deveria ser seriamente a liberdade, cunhando aquilo por que se lutou.

Sérgio Godinho começou a partir daí a averbar com autoridade o seu relevo maior na música portuguesa. Tem feito das canções o espelho de alguém que observa. Tem fugido à norma, como o fez na canção Liberdade. É o grande trovador – urbano – da nossa génese.

Com interesses em várias áreas, achou na música uma forma de os unir. Interessa-lhe a palavra, a dimensão poética e a dimensão filosófica do nosso quotidiano. A inquietude. E a sua música une todas essas dimensões. A partir dos anos 90 passou a receber real veneração. Em canções que esculpiam esse quotidiano. Em discos em nome próprio ou em união. Mas sobretudo em palco: em comunhão e vibração com um público devoto. É no palco, onde começou a representar em jovem, que se sente completo. Onde a oralidade e a música se conjugam.

Sérgio Godinho atravessou muitas décadas e não se prendeu a nenhuma delas. Inverteu por isso as probabilidades. Aqui no burgo vai tecendo os versos e as melodias certas, há décadas. Para além do efeito das mensagens e dos versos repetidos e perpassados por gerações, o que perdurará são enfim as dezenas de canções muito boas que tem criado.

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos, torna tudo mais urgente
E a sede de uma espera só se estanca na torrente

Ouvir também: Balada da Rita (1978), do álbum ‘Pano Cru’. Canção cantada pela personagem Pepsi Rita (Lia Gama) a cappella na madrugada em que conheceu o Kilas, o mau da fita (Mário Viegas) num cabaret de má fama. A canção foi composta especialmente para a banda sonora deste filme de Fonseca e Costa (Sérgio Godinho foi co-argumentista) - que só viria a ser lançado em 1981.