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José Afonso, detalhe do EP “Grândola, Vila Morena”, lançado pela Orfeu em 1973

101 canções que marcaram Portugal #58: 'Grândola, Vila Morena', por José Afonso (1971)

Foi senha da revolução e símbolo do PREC. Passou a ser a alegoria da liberdade. É a canção que se entoa para lembrar que Abril se fez a partir dos seus versos. José Afonso instiga ainda hoje à insubmissão, ao inconformismo e sobretudo à coragem. Esta é a 58ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Grândola, Vila Morena'
José Afonso
(1971)

Díli-Tíbar-Liquiçá. O caminho faz-se à beira-mar, entre montanhas e mar azul, e os trinta minutos que separam as duas cidades não deveriam, se as distâncias fossem justas, ser contados. Aqui estiveram durante três anos a irmã e os pais de José Afonso, prisioneiros. Díli não tinha (ainda) liceu e naquele ano de 1942 resolveu-se que os dois rapazes, João e José, de 14 e 13 anos, haveriam de ficar em Coimbra enquanto o pai Nepomuceno cumpria a sua comissão de juiz em Díli. Um mês depois de chegarem, a ‘província’ de Timor-Leste era invadida pelo Japão. Seguiram-se quatro anos de escassez e ausência. Os rapazes, órfãos efémeros, haveriam de ficar moldados pela angústia; José Afonso conheceria aí a sua primeira forma de combate – ainda só emocional, por agora.

Esse episódio haveria de instigar em José Afonso um ímpeto de intervenção, uma necessidade de criar desassossego. Durante duas décadas apelou à insubmissão, ao inconformismo e sobretudo à coragem.

José Afonso era um homem corajoso. E resiliente. Foi expulso do ensino em 1968 e só 15 anos mais tarde, já acometido pela doença, lhe permitiram regressar. A sua ‘carreira’ docente foi inquieta e errante, sequente de uma génese deambulante – como Bruce Chatwin ou Jack Kerouac – sobretudo com um apelo pelo sul, talvez pela melodia do seu quadrante. Ensinou no liceu António Enes, em Lourenço Marques, o liceu mais democrático da capital de Moçambique, onde exercitou a imaginação dos seus alunos com uma pedagogia à margem (as suas margens quase sempre em desalinho com os costumes) dos planos curriculares oficiais. Era um professor corajoso, incitador de consciência crítica – como fazia na música e na vida.

As suas canções foram – mais do que compostas – vivenciadas. Foram um retrato biográfico, uma relação biográfica, com as relações que viveu, que observou ou que tomou como suas depois de ter observado o mais que pôde.

‘Grândola, Vila Morena’ foi editada em 1971 mas composta no dia 17 de Maio de 1964, de noite, ao volante. José Afonso transportava o guitarrista Fernando Alvim e, atrás, Carlos Paredes. Tinham atuado na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense. Enternecido pelo acolhimento das gentes da vila e para não adormecer, compôs (trauteou) a canção durante todo o caminho. À chegada a Lisboa, ‘Grândola, Vila Morena’ estava pronta. Haveria de ser incluída no álbum “Cantigas do Maio”, gravado em Paris e produzido por José Mário Branco. Rui Pato, o seu guitarrista e parceiro, fora impedido de viajar e substituído por Bóris, um músico com expertise sobretudo de rock&roll. José Afonso queria incluir no início da canção passos que reproduzissem a cadência dos grupos do cante alentejano; nesse gélido mês de Outubro, gravou-se os passos dos músicos no pátio do estúdio, num chão de gravilha, às três da manhã. ‘Grândola, Vila Morena’ seria assim acompanhada apenas por essa cadência, sem instrumentos. Mais tarde, esses passos, que se assemelham ao marchar de soldados, a sua solenidade e a letra (sobretudo o quase-refrão ‘o povo é quem mais ordena’) concertavam-se com as convicções quiméricas de um país em liberdade e ‘Grândola, Vila Morena’ converter-se-ia como uma das mais icónicas canções criadas em Portugal.

Foi senha da revolução e símbolo do PREC. Passou a ser a alegoria da liberdade. É a canção que se passou a entoar para lembrar que Abril se fez a partir dos seus versos. ´Grândola, Vila Morena’ poderia ser o epíteto de quem resiste, de quem diz não – como na letra de Manuel Alegre. José Afonso, esse, simboliza hoje o melhor de nós – enquanto abnegação e generosidade. Portugal soube guardar-lhe um espaço generoso na memória – enquanto símbolo de uma génese comprometida, mobilizante e agitadora.

O homem que quis ser comum, que recusou vedetismos e honrarias, que foi puro, que escreveu para nós, que sofreu amarguras por transgredir, que se embrenhou na nossa raiz mais popular, que trazia sempre pressa sem a ter, que se empolgava, que sobreviveu a uma existência incerta, que nos congregou emocionalmente - deixou lastro no melhor que nos define. Abeirou-se do nosso recato, do nosso conformismo e fez-nos – faz-nos – ser descontentes. Talvez, pela sua natureza altruísta, escolhesse os versos de Pessoa como mote do exemplo que deu e que quis perpassar: ‘Ser descontente é ser homem / que as forças cegas se domem / pela visão que a alma tem’.

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto a igualdade

Ouvir também: ‘Era um Redondo Vocábulo’ (1973). Uma das mais belas composições de José Afonso. Escrita em Caxias, simboliza a resiliência de que são feitas as mulheres. Uma canção de raiva e ternura.