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101 canções que marcaram Portugal #57: 'Branco, Tinto e Jeropiga', por Dany Silva (1981)

De África chegaram novas cores, novas dicções e gestos desempoeirados. Dany Silva fazia parte dessa nova vaga e passou a ser um dos mensageiros de um novo conceito: lusofonia. ‘Branco, Tinto e Jeropiga’ tomou Portugal e afirmou Dany Silva como um músico agregador de várias linguagens. É a 57ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Branco, Tinto e Jeropiga'
Dany Silva
(1981)

Em 1975, Horácio Soares, ministro da agricultura de Cabo Verde, convidou Dany Silva a regressar à sua terra-natal, a Cidade da Praia. O país atravessava nesse pós-independência uma alarmante falta de quadros em todos os setores, após debandada de técnicos qualificados para a metrópole. Daniel (Dany) Silva cursara Engenharia Técnica Agrária em Santarém e fazia falta a um país que à carência de chuva somava agora quem soubesse extrair da terra o que esta teimava em pouco dar. Dany Silva, porém, declinou o convite. Há muito que se desvanecera o apelo de regressar a Cabo Verde e, para mais, a música já se antepusera há muito à agricultura.

Dany Silva aportou em Portugal no ano em que se iniciou a guerra em Angola, 1961. Os movimentos de libertação começavam a ganhar robustez; Amílcar Cabral acicatou a consciência política e social de Dany Silva – apesar de nunca ter estado fadado para ser um cantor interventivo politicamente. Interessava-lhe tão só as mornas e coladeiras do seu país, mas também sons das músicas do mundo, como a salsa, os blues, o bolero e o semba angolanos.

Portugal ganhou, a partir de 1974, novos vocábulos trazidos pelos ‘retornados’: bué, yá, bazar ou kota passaram a açucarar o português convencional. África chegava a Portugal de rompante: novas cores, novas dicções, nova gastronomia e gestos muito mais desempoeirados. De Cabo Verde, veio uma nova música: veio Bana, vieram os “Tubarões”, veio a “Voz de Cabo-Verde”. Dany Silva fazia parte dessa nova vaga e passou a ser um dos mensageiros de um novo conceito: lusofonia. ‘Branco, tinto e jeropiga’ tomou Portugal em pleno boom do rock português, lançado na ‘Febre de sábado de manhã’, de Júlio Isidro. Descreve um pós-farra entre amigos, que persistiam em prolongá-la. Uma manhã regada a vinho e jeropiga, com a cama feita de peixe frito e sardinhas de conserva – a selar amizade e cumplicidade. O single vendeu 50 mil cópias. Disco de ouro. E Dany Silva, com uma figura inusitada, passou a ser um nome com quem contar.

15 anos antes, Dany Silva participara com “Os Charruas” no concurso Ié-Ié – ainda não como vocalista, mas como viola-baixo. “Os Charruas” formaram-se em Santarém, entre colegas da Escola de Regentes Agrícolas, e não eram de todo favoritos nesse concurso que agitou Lisboa, apesar de, a partir de então, passarem a ser um dos conjuntos mais consistentes da nova vaga influenciada sobretudo pelos Shadows de Hank Marvin. A final disputou-se sem os Sheiks, que se insurgiram contra a data do concurso – impedidos que estavam de nele participar por estarem a tocar em Coimbra. Os vencedores haveriam de ser os Claves, de Lisboa, numa decisão muito contestada: o júri, encabeçado por um maestro da emissora Nacional, não dera a vitória aos Rocks, de Angola, do carismático e possante Eduardo Nascimento, e essa decisão provocou uma cegada dos diabos, uma enorme bronca. O Teatro Monumental, de Vasco Morgado, quase vinha abaixo por o conjunto de Luanda se ter ficado por um segundo lugar. A motivação desse concurso não fora com certeza os prémios oferecidos, que passaram por gravatas, águas de colónia, máquinas de barbear e até um par de sapatos – gentileza dos patrocinadores – mas pelo prestígio que poderiam alcançar a partir dali.

“Os Charruas” não chegariam sequer a essa final, mas, pela sua consistência e magnetismo, passaram a ombrear, a partir de então, com essas figuras de topo em festas, saraus e festivais. Dany Silva descobrira entretanto a sua voz – assente nas suas raízes cabo-verdianas, mas sobretudo no soul de Stevie Wonder, Al Green ou James Brown. Trilharia o seu percurso com outros conjuntos até 1978, quando a editora Monte Cara, de Bana, editou o seu primeiro single em nome próprio. A partir de ‘Branco, tinto e jeropiga’ que a voz rouca de Dany Silva passou a nos povoar. O seu emblema tem sido uma congregação de atributos que o fazem maior: uma voz distintiva, canções exultantes, uns óculos redondos (cada vez menores), simpatia e serenidade flagrantes, e acima de tudo um diálogo entre a morna, a coladeira e os ritmos latinos e portugueses. As suas canções fazem parte do nosso imaginário coletivo e a sua influência tem-se alargado à nova geração de músicos – de Portugal, do Brasil e dos PALOP.

Tem sabido, sem pressas, amadurecer canções: as suas, de outros, tendo adquirido um lugar incontestado por mérito na música lusófona – que o tornam num pioneiro dessa imensa comunidade.

E assim nós chegámos
ao que nós queríamos:
acabar a noitada
esquecendo as brigas com
branco velho, tinto e jeropiga

Ouvir também: ‘Lua nha testemunha’ (1986). Do seu primeiro álbum, esta canção de B. Leza foi um dos ícones de Bana, uma das maiores referências de Dany Silva.