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Carlos do Carmo

Kenton Thatcher

Carlos do Carmo, a voz que soube partir “de consciência tranquila”. “Fazemos inimigos? Fazemos. Mas também fazemos amigos”

Em vésperas de começar a gravar o agora editado “E Ainda...”, Carlos do Carmo abriu as portas de sua casa, em Lisboa, e falou generosamente sobre os poetas, as palavras, a poesia e o seu próprio tempo, que começava a escassear. É a primeira publicação na esfera digital de uma entrevista realizada em março de 2017. Um documento precioso sobre a visão muito clara que Carlos do Carmo, falecido no primeiro dia de 2021, detinha sobre a sua arte

Um grande senhor é um grande senhor é um grande senhor. Ainda não nos podemos despedir de alguém assim. Carlos do Carmo, como, de resto, David Bowie, pensou nas suas últimas palavras, naquelas que sabia que deixaria a ressoar do lado de cá quando ele mesmo partisse. Despediu-se em primeiro lugar dos palcos, do seu público, dos seus músicos, em espetáculos emotivos que culminaram numa noite para a história no Coliseu dos Recreios, corriam os últimos dias de 2019. Disse então o fadista, para justificar esse planeado adeus, que era tempo de “acalmar”.

Antes de partir, a 1 de janeiro último, Carlos do Carmo teve ainda oportunidade para gravar o seu derradeiro registo, "E Ainda...", acabado de editar. Com palavras cuidadosamente escolhidas de Hélia Correia, Herberto Helder, Júlio Pomar, José Saramago, Vasco Graça Moura, Sophia de Mello Breyner e Jorge Palma. Este último, cantautor que sempre disse ter aprendido com José Carlos Ary dos Santos, autor que tantas palavras ofereceu àquele "homem na cidade", assinou 'Canção de Vida', uma mensagem para o futuro que é momento chave de um álbum que o próprio Carlos do Carmo estava já convencido ser o último que haveria de gravar. A sua despedida, portanto.

“E Ainda...” foi gravado ao longo de três anos, porque Carlos do Carmo, mesmo nesse crepúsculo de vida, sentia “ter ainda coisas para cantar”. Idêntica ideia atravessa a conversa que foi gravada em sua casa a 8 de março de 2017, em vésperas de o artista começar a trabalhar no material que agora é lançado. Uma entrevista que foi pedida a esse mestre conversador porque se afigurava natural incluir o seu pensamento na série de livros Debaixo da Língua, lançados no âmbito do festival O Sol da Caparica onde, aliás, o fadista assinou uma triunfal apresentação, em agosto desse mesmo ano, perante um público muito diferente daquele a que normalmente estava habituado.

Nunca antes publicada em qualquer órgão de comunicação ou disponível na esfera digital, esta entrevista explora a relação de Carlos do Carmo com as palavras, com os poetas, com a língua e com o fado. E sentindo, talvez, já a urgência própria dos últimos dias, foi o próprio fadista que arrancou com a conversa, antes ainda de lhe ser colocada a primeira pergunta. “Temos de insistir”, enfatizou ele nessa tarde, enquanto se sentava no cadeirão em que sempre encarou os jornalistas que ali recebia, no seu espaço. “Pelo menos um gajo, quando for embora, vai de consciência tranquila, diz ‘fiz o que pude’. Não se trata de ganhar, isto não é um jogo de futebol. É o que nos está próximo, ser uma célula que possa dar algum contributo para a minoria, porque eu sempre tive medo das maiorias. Nós tivemos quatro maiorias em Portugal que nos deram o Cavaco Silva. Quatro. E lixaram isto tudo. Mas pronto, afinal do que vamos conversar?”.

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