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Há 30 anos, os Massive Attack lançavam “Blue Lines” e viam o futuro. A história completa de um dos álbuns que 'fizeram' os anos 90

Uma sinfonia perfeitamente inacabada. A beleza infinita em tons de hip-hop, soul e dub. De Bristol para o mundo, um disco importantíssimo no firmar de uma nova estética. Uns certos anos 1990 nasciam aqui, nas mãos de 3D, Daddy G e Mushroom. O futuro agradece

Há praticamente uma década, nas “páginas” da Pitchfork, argumentava Miles Raymer que ouvir o álbum de estreia dos Massive Attack, Blue Lines, que então conhecia uma reedição especial em formato de boxset, era o equivalente a ler um livro de William Gibson, um dos criadores dos futuros distópicos cunhados como cyberpunk, que descrevesse com desconcertante precisão um futuro próximo, entretanto tornado presente pelo avançar do tempo. Em abril de 1991, os Massive Attack já posicionavam, de facto, a sua música no milénio seguinte, pegando na ideia de corte e costura subtraída ao hip hop e na gestão de espaço sónico aprendida a operar sound systems de dub para, partindo de uma tradição soul britânica muito específica, reimaginarem a canção.

Em Bristol, alguns anos antes de o álbum sair, quando os membros dos Massive Attack ainda integravam o coletivo Wild Bunch, um repórter da revista Face, recordado por Alex Petridis do Guardian igualmente por ocasião do 21º aniversário de Blue Lines, procurou documentar a efervescência criativa que aí despontava e que deu origem não apenas à estreia do trio de Robert “3D” Del Naja, Daddy G e Mushroom, mas também à dos igualmente influentes Soul II Soul. Um dos membros dos Wild Bunch propunha como designação para o som que então se inventava por ali a expressão “minimalist lover’s hip hop”. “Lover’s hip hop” como uma referência direta a essa deriva britânica do reggae que ficou conhecida como “lover’s rock”, e “minimalist” como uma tradução da influência que recolhiam do electro mais esparso, aquele que nasceu em Detroit com os Cybotron de Juan Atkins e que haveria de influenciar, por via da produção de Jellybean Benitez, os primeiros passos pop de Madonna.

A música dos Massive Attack prenunciava o futuro, hoje presente, em que a pop é laboratório de ensaio para géneros híbridos onde tudo se pode cruzar, country e hip-hop, fado e eletrónica, kizomba e soul... (afinal de contas, como vai fazendo questão de relembrar Dino D’Santiago nos slogans que estampa nas suas t-shirts, “funaná is the new funk”)

O que é mais interessante no arranque de carreira dos Massive Attack é a forma muito natural e certamente pouco premeditada como o grupo conseguiu cristalizar não apenas essas diferentes correntes musicais (que tinham em comum o facto de todas desembocarem na pista de dança), mas também de incluírem logo aí uma forte componente visual que resultava do facto de 3D ter sido um membro ativo da cena de graffiti de Bristol, a mesma que ofereceu Banksy ao mundo.

3D é artista visual de pleno direito, tendo participado em múltiplas e importantes mostras coletivas de arte, e com um trabalho que adornou não apenas todas as capas dos Massive Attack, estendendo-se igualmente para os seus impactantes concertos, mas que foi usado também por editoras como a Mo’ Wax de James Lavelle e pela banda deste, Unkle. Essa visão progressiva e simultânea do som e da imagem prenunciou um futuro em que os vídeos parecem indissociáveis da música, em que as imagens são moeda de troca nas redes sociais, em que a arte visual pode ser tão política quanto um slogan feito de palavras directas.

“Any Love” foi o primeiro single lançado pelo trio, ainda em regime independente, antes de Neneh Cherry, outra pioneira influente, lhes ter aberto as portas da Circa, etiqueta com ligações à Virgin. Cherry, juntamente com o seu marido, o produtor Cameron McVey, ajudou o grupo a transformar as suas ideias em canções, orientando as gravações do primeiro material de Blue Lines na sua própria casa.

“Blue Lines”, dos Massive Attack, foi lançado a 8 de abril de 1991

“Blue Lines”, dos Massive Attack, foi lançado a 8 de abril de 1991

O outro nome importante envolvido na produção da estreia dos Massive Attack é Jonathan Peter Sharp, que durante esse processo de criação ganhou o apelido artístico Johnny Dollar, precisamente porque, rezam as crónicas, era o único que estava a ser pago para trabalhar. Dollar foi absolutamente decisivo para a cristalização da fórmula musical aí experimentada, coassinando o primeiro single do álbum, a monumental “Unfinished Sympathy”. Dollar, que faleceu em 2009, foi determinante nos mais importantes álbuns do arranque da carreira de Neneh Cherry, incluindo Raw Like Sushi e Homebrew, co-escreveu o mega-hit global ”7 Seconds”, em que a cantora se cruzou com Youssou N’Dour, remisturou Portishead e trabalhou com outras cantoras como Gabrielle ou Kylie Minogue. O seu papel neste álbum não deve ser subestimado.

À revista Select, em 1992, Del Naja explicou como correu a produção de Bue Lines: “Trabalhámos no álbum durante cerca de 8 meses, fazendo pausas no Natal e durante o campeonato do mundo de futebol [Itália 90]. Começámos com um conjunto de ideias que nalguns casos já tinham uns sete anos. Temas como ‘Safe From Harm’ e ‘Lately’ já existiam há algum tempo, desde os Wild Bunch, desde a era em que andávamos envolvidos nos sound systems de Bristol. Mas quanto mais trabalhávamos nelas, mais íamos experimentando novas ideias também. ‘Five Man Army’ resultou de um improviso. E também fomos buscar inspiração a álbuns conceptuais de vários géneros, de artistas como Pink Floyd, Public Image Ltd, Wally Badarou, Herbie Hancok e Isaac Hayes”.

A lista de artistas citados como coordenadas de inspiração para os Massive Attack é profundamente reveladora: um grupo de rock que procurou no estúdio o real palco para a expansão das suas ideias, uma banda de pós-punk que experimentou fazer colidir o silêncio do dub com o mais agressivo ruído elétrico do punk, um músico que cruzou a eletrónica com o balanço das Bahamas para projetar Grace Jones no futuro, e dois gigantes do jazz e da soul que nunca temeram explorar o futuro nas suas obras: rock de laboratório, experimentação de inspiração jamaicana, balanço futurista das Caraíbas, jazz cósmico e soul orquestral. E tudo revisto pela lente particular oferecida pelo hip-hop.

A lista de samples usada no álbum é em si mesma uma lição de sincretismo pop, um manual de como é possível inventar o futuro mergulhando de forma profunda no passado. JJ Johnson e a Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin (“Unfinished Sympathy”), Billy Cobham, Funkadelic e Johnny Guitar Watson (“Safe From Harm”), Isaac Hayes (“One Love”), Tom Scott and the LA Express e Blackbyrds (“Blue Lines”), Al Green, Dillinger e Lloyd Robinson (“Five Man Army”), Wally Badarou, Beatles e Zero Mostel (“Daydreaming”), Lowrell (“Lately”). Curioso igualmente que um disco que pode também ser visto como uma manta de retalhos sampladélica tenha, ele mesmo, servido de matéria samplável para artistas como Unkle, Skalpel, Metro Boomin, Barry Adamson, Jay-Jay Johanson ou Snooze.

Ao lado do trio nuclear de Mushroom, Del Naja e Daddy G, criativamente amparado pelos produtores Johnny Dollar e, num primeiro momento, Cameron Mcvey, havia ainda os importantes contributos vocais de Shara Nelson, Tricky e Horace Andy, a secção de cordas conduzida por Will Malone e contribuições pontuais de gente como Neneh Cherry. Esse espírito cooperativo e colectivo, com uma produção a resultar de diferentes cabeças pensantes não necessariamente ligadas pelos laços de uma banda “convencional” foi, logo aí também, um agudo prenúncio de uma prática futura que é hoje comum nos domínios da pop.

À época, com o mundo de olhos colados no ecrã para a primeira guerra a chegar em direto às casas de todo o planeta a partir do Golfo Pérsico, esta música traduzia um presente cinzento de um mundo em mudança – política, geo-estratégica, económica e sobretudo tecnológica. A música densa e tensa, grave e lenta parecia capturar uma certa angústia geracional. As letras falam disso quando incluem versos como “gunmen and maniacs”, “Excommunicated from the brotherhood of man / To wander lonely as a puzzled anagram”, “Like a soul without a mind / In a body without a heart / I'm missing every part”, “Trouble and strife ain't no sunshine in my life”. Há raios de luz também (o amor monogâmico professado em “One Love”, a versão do clássico de William DeVaughn, “Be Thankful For What You’ve Got” que nos impele a contar as bênçãos...), mas que servem, sobretudo, para realçar as sombras em que boa parte do álbum está envolto.

Três décadas mais tarde, não há nada em Blue Lines que tenha ficado irremediavelmente preso no passado: sonicamente, sobretudo após a masterização de 2012, o disco continua à altura dos parâmetros contemporâneos e soa magistralmente até nos modernos auscultadores Bluetooth. E esteticamente, sobretudo nesta era pandémica, parece traduzir de forma aguda e estranhamente perfeita este isolamento forçado em que todos parecemos viver, esta angústia que resulta do medo. Como há 30 anos, talvez seja melhor fazemos todos como os Massive Attack, projetando-nos no futuro. Muito provavelmente, seja em 10, 20 ou noutros 30 anos, o mais provável é que se continue a celebrar o triunfo artístico que este álbum traduz. Vale uma aposta?