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“Xabarín Club”

O javali que pôs bandas portuguesas a cantar em galego. Uma história desconhecida dos anos 90, entre Portugal e a Galiza

Nos anos 1990, “Xabarín Club”, um programa de televisão infantil da Galiza, convenceu Xutos & Pontapés, Sitiados, Gaiteiros de Lisboa, Sérgio Godinho, Kussondulola, Despe & Siga e muitos outros a mudar de sotaque. O resultado é memória coletiva de uma geração de galegos – e uma história que estava por contar

Numa tarde chuvosa, uma menina de oito faz os trabalhos de casa em frente ao televisor e, entre tabuadas e leite achocolatado, canta: «hoje sou um punk, amanhã já verei». A imagem é inventada, mas podia retratar a tarde de uma casa galega em meados dos anos 90. Mulher feita, a protagonista estaria hoje entre os muitos punks, roqueiros, indies, amantes de pop, folk ou reggae cuja primeira educação musical foi um programa de desenhos animados chamado Xabarín («Javali», em português). Pouco depois de ir para o ar, a 18 de Abril de 1994, o projecto passou a juntar Club ao nome porque tinha sócios. Muitos. Ao fim de cinco anos eram 136 mil, quase 60% da população entre os cinco e os 14 anos naquela região autónoma espanhola. Tinham um cartão pessoal e no aniversário ansiavam por ver a sua foto no ecrã. O programa da Televisión de Galicia (TVG) tornou-se um impactante fenómeno social e em poucos anos gravou dezenas de canções, produziu vídeos musicais e organizou digressões de concertos. Pelo caminho, saltou a fronteira a Sul para mostrar sons lusófonos a nenos e nenas.

O simpático javali foi desenhado pelo prestigiado autor de banda desenhada Miguelanxo Prado.

O simpático javali foi desenhado pelo prestigiado autor de banda desenhada Miguelanxo Prado.

O Xabarín Club importou séries que foram emblemáticas em Portugal, como as japonesas Heidi, Dragon Ball e Doraemon, as estado-unidenses Tom and Jerry, Capitão Planeta, Garfield e Tartarugas Ninjas ou a franco-canadiana As Aventuras de Tintin, todas dobradas em galego, às quais juntou mais tarde produções próprias, como Os vixilantes do camiño. Mas tão populares quanto os seus episódios eram os intervalos, preenchidos por videoclipes psicadélicos com legendas de estilo karaoke para acompanhar em casa. As canções apresentadas pelo javali formaram muitos dos nascidos nos anos 80 e 90, com riqueza de sonoridades, traços de cultura autóctone e letras sem paternalismo. Ainda que encomendasse às bandas canções para crianças, a produção do programa dava-lhes liberdade criativa, numa época em que se falava menos do politicamente correcto. O resultado foram hinos que (quando não há pandemia) ainda tocam em finais de noite de certos bares galegos e que versam sobre assuntos pouco comuns na televisão infantil.

Miguel Angel Lopez, humorista e autor de livros infantis, admitiu que aos 16 anos usou uma foto do infantário para fingir ter apenas quatro e poder ser sócio do Xabarín Club. A equipa do programa revelou ter detetado vários casos semelhantes.

Miguel Angel Lopez, humorista e autor de livros infantis, admitiu que aos 16 anos usou uma foto do infantário para fingir ter apenas quatro e poder ser sócio do Xabarín Club. A equipa do programa revelou ter detetado vários casos semelhantes.

Palavras irreverentes para ouvidos conscientes

Antes de olhar para a constelação de músicos portugueses atraídos pelo javali, miremos as estrelas da casa. A movida de Vigo, importante movimento sociocultural da era dourada da pop espanhola, estava representada no Xabarín Club por alguns dos seus pioneiros. Os Aerolíneas Federales, por exemplo, entre reclamar enchidos (em Quero xamón!) e reivindicar o desprendimento (em Non teño diñeiro), contavam no tema Non todo e o que parece como uma mulher rejeitava um homem que conhecera num bar e a galanteava com champagne e perfumes Channel. Por sua vez, os Siniestro Total, outros fundamentais da cena viguesa, expurgavam com distorção a angústia adolescente em A onde vas, rapaz? («eu só quero decibéis, eu só quero rock’n roll / tenho todo o direito a ter esta depressão») e falavam num anarquista de um quiosque de bairro, na já referida Hoxe son un punk («cala-te já, papá, não chateies com coisas velhas e deixa-me ouvir os Sex Pistols»).

Mais novo era outro género local, o rock bravú, que teve no programa uma das principais montras. A ironia, a rebeldia e a ruralidade que marcavam o estilo, alcunhado por alguém de «grunge galego», foram apresentadas aos miúdos pelas suas bandas percursoras. Os Rastreros cantaram sobre multinacionais que procuravam petróleo numa aldeia e acabavam corridas a tiro pelo sacristão. Os Diplomáticos de Monte-Alto clamaram por revolução numa ode aos matraquilhos («nós vivemos na revolta!», gritavam entre roletas). E os Yellow Pixoliñas deliraram com um rapaz farto de estar preso numa máquina de lavar. O formato tornou-se um rápido sucesso, apesar do cepticismo de alguns. «Mas estais chalados, já vistes as letras que nós fazemos?», terá dito um dos membros dos Heredeiros da Crus quando lhes pediram uma canção. As várias que compuserem acabaram a ecoar em pavilhões abarrotados e ajudaram a convertê-los no grupo bravú de maior sucesso comercial da altura. Em Pero que ghallo é!, uma das mais populares entre os telespectadores, esboçavam um galinheiro alvoroçado onde viviam «galinhas, cães, porcos e coelhos». Anos mais tarde, o mesmo elemento da banda viria a admitir que o tema versava afinal sobre um bordel e que o galo era o chulo.

Uma canção do grupo de rap e nu metal Def com Dos chegou mesmo a ser retirada do alinhamento, depois de TVG receber algumas queixas. Capitán Araña contava a história de um super-herói que entra numa sala de aula para salvar a rapaziada das «coisas aborrecidas com que lhes incham a cabeça» e os libertar para aquilo de que gostam: ver televisão, inventar jogos e «fazer moche ouvindo discos de hard-core». Apesar da irreverência, os responsáveis do Xabarín sabiam bem o que faziam e eram conscientes da responsabilidade de serviço público do canal. Como revelaram posteriormente, tinham detectado uma geração de pais que queria educar de um modo alternativo, menos sentimentaloide, daí a aposta numa linguagem audiovisual mais madura. A equipa entendia que a televisão não podia ser uma creche onde se estaciona os filhos sem mais preocupação. E com a música, que marcou a hoje chamada Xeración Xabarín, atraiu também muitos dos seus progenitores.

As referidas bandas, e muitas outras do espectro do rock galego, fizeram parte dos primeiros discos da série A cantar con Xabarín. O volume I, editado em 1994, teve 10 mil cópias, sorteadas entre os jovens sócios. O segundo foi já para as lojas, no Natal do ano seguinte, e incluía um álbum duplo (em CD ou K7), uma VHS com videoclipes, um livro com os acordes das músicas, um almanaque e cromos. As vendas foram um êxito, só superadas na Galiza pela italiana Laura Pausini. Em 1996, o programa queria continuar a inovar e foi então que saltou a raia.

«Tá-se, tá-se, tá-se mui bem»

O Xabarín passou então a incorporar música folk e de outros estilos, de que é exemplo A verdadeira historia de Carmiña Vacaloura e Pepiño Grilo, tema próximo do free jazz tocado pelo pianista madrileno Maestro Reverendo. Além das fronteiras sonoras, alargou também as geográficas e convidou músicos de outras regiões espanholas, de Portugal e da África Lusófona, com uma condição: cantarem em galego.

Cartaz do álbum duplo Volumes III e IV, em que participaram bandas lusófonas.

Cartaz do álbum duplo Volumes III e IV, em que participaram bandas lusófonas.

Foi nessa língua, considerada mãe ou irmã do português, que cantaram Gaiteiros de Lisboa, Né Ladeiras, Quinta do Bill, Vitorino, Sérgio Godinho e o cabo-verdiano Tito Paris, integrando um terceiro disco dedicado ao folk. O Volume IV, de regresso ao rock, incluía canções de Xutos & Pontapés, Sitiados, Despe & Siga, GNR (únicos a manter o português), Rui Veloso, As Amarguinhas e ainda dos angolanos Kussondulola e do moçambicano André Cabaço. Algumas letras foram adaptadas ao galego, outras criadas de origem no idioma.

Uma das favoritas da audiência era Astro da bola, dos Despe & Siga, decorada por todas as crianças que sonhavam ser futebolistas e pôr «o pobo en delírio co seu xogo de pés». Partes do videoclipe foram filmadas junto ao antigo Estádio da Luz e a canção foi mais tarde incluída no álbum Os Primos (com vozes regravadas). Para o vocalista da banda, Luís Varatojo, a colaboração na altura pareceu-lhes natural. «Desde meados dos anos 80, ouvíamos por cá muitas bandas espanholas, sobretudo galegas e bascas, e pensávamos que seria uma questão de tempo até que a Península Ibérica se tornasse um território uno para as bandas dos dois países». Lamenta que «apesar da excelente iniciativa da TV Galiza» isso não tenha chegado a acontecer. Varatojo recorda a ida a Vigo para tocar numa Xabaxira, os concertos ao vivo promovidos pelo programa, em que estavam quase todos os portugueses do disco. «Foi uma grande festa». Entre a troca de mensagens sobre a sua música, revela: «descobri agora que existe pelo menos uma versão feita por uma banda galega, a Mekanika Rolling Band, o que me deixa muito feliz».

Outras das favoritas começava assim: «Kussondulola tá-se, tá-se, tá-se mui ben». Com 12 anos, o corunhês Néstor Meizoso Bermudez, sabia toda a letra de cor e aos 39 ainda se lembra da maior parte. Anos depois de a ouvir como telespectador, já como baixista dos Dandy Fever ou dos The Transilvanians e explorador de música jamaicana, descobriu que os Kussondulola eram um grupo famoso de roots reggae. «Gostei muito de os ouvir e saber que a boa recordação que eu tinha era merecida». Janelo da Costa, rosto da banda, diz-nos que o Xabarín lhes trouxe «bons momentos», como a atuação num festival, a gravação do videoclipe nas Rias Baixas e idas a programas da TVG: «acabamos por promover o reggae na Galiza». Em entrevista, envia um agradecimento a todos os envolvidos, «principalmente ao jornalista que conheceu a nossa música em Lisboa». Referia-se a Suso Iglesias, quem revelou só ter conseguido convencer o rastafári angolano na terceira ida à capital portuguesa, durante uma festa.

Iglesias era na altura o diretor do programa do javali, mas também tinha um passado musical. A gaita-de-foles que aprendeu a tocar durante o serviço militar ouve-se no início de Terra Chá, canção dos Radio Océano que dizem ter sido a semente do rock galego, em 1984. Antes disso, chegou a acompanhar em palco outro português muito querido pelos vizinhos do Norte, José Afonso, que havia também composto em galego e reivindicado a raiz cultural comum entre os dois territórios. Discípulos do Zeca e também seus parceiros de estrada, os Gaiteiros de Lisboa dizem que atuar para o Xabarín lhes trouxe o auge de popularidade na Galiza, com aumento de concertos e de colaborações em discos de músicos locais. Carlos Guerreiro, um dos fundadores do grupo, considera que acrescentar lusos à banda sonora do programa «foi uma iniciativa admirável» e mais uma confirmação de que «os galegos sempre acarinharam a música portuguesa, coisa que os portugueses nunca saberão retribuir». Dá um exemplo: «ao longo dos nossos trinta anos de actividade já tocámos mais vezes no programa Luar e noutras iniciativas da TVG do que na totalidade dos canais portugueses».

Promoção linguística com rock e heróis animados

Segundo muitas vozes, um dos segredos do sucesso deste porco-bravo foi ver os espectadores como seres pensantes. «Mostrava de forma incontestável como fazer televisão para crianças sem as tratar como se fossem crias de animais de estimação ou o cão de Pavlov», escrevia em 2013, num artigo de opinião no El País, o jornalista e professor de Ciências Políticas Anton Losada. Além do tom, o Xabarín Club usava uma cultura de proximidade para se ligar ao público, com a música e a língua como veículos, que criou uma sensação de tribo. «Víamos que os grupos eram da Galiza e isso tornava menos inalcançável parecermo-nos com eles», revela Néstor Meizoso Bermudez. O músico considera que o programa foi determinante para que muitos miúdos como ele, «tanto da cidade, como da aldeia, formassem bandas e cantassem em galego».

A democracia abriu a escola e outras instituições públicas ao idioma, após 40 anos de marginalização durante o franquismo, mas tem sido difícil travar o avanço do castelhano na região. A percentagem de menores de 15 anos que nunca falam o galego disparou dos 30% para os 44% entre 2008 e 2018. E, neste contexto, muitos defendem que o simpático javali foi um aliado mais poderoso do que qualquer campanha de normalização linguística. O programa dignificou o galego, naturalizou o discurso com expressões coloquiais e mostrou até variedades dialetais (por exemplo a da zona costeira do Morraço). As crianças ouviam as personagens favoritas, como Son Goku ou as Tartarugas Ninjas, a falar na língua dos seus avós e isso talvez tenha mais impacto do que uma cartilha pedagógica. Organizações de defesa do galego, como A Mesa pola Normalización Ligüistica, pedem mesmo que se volte a apostar num modelo como o do Xabarín, que cumpra um dos princípios fundadores da TVG: «a promoção e difusão da cultura e língua galegas, assim como a defesa da identidade galega».

Ilustração de Miguelanxo Prado para um número especial da revista Luzes dedicado aos 25 anos do Xabarín.

Ilustração de Miguelanxo Prado para um número especial da revista Luzes dedicado aos 25 anos do Xabarín.

A chegada da televisão digital a Espanha, em 2005 trouxe mais concorrência e a audiência do Xabarín Club começou a descer. Dois anos depois, a TVG reduziu-lhe o espaço e em 2009 relegou-o para o seu segundo canal. Ainda que com outro fulgor, o programa continua a emitir-se diariamente e tem até uma app, com séries à escolha. Numa lógica de mercado, continua a ser a marca mais valiosa da estação. Em várias cidades decorre uma campanha de recolha de assinaturas para impulsionar o lançamento de um canal exclusivo para o javali roqueiro, que — com o seu ar despreocupado e sem nenhuma pretensão didática aparente — foi um influenciador de massas e criador de vídeos virais antes de que a Internet se massificasse.