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101 canções que marcaram Portugal #56: 'Mais e Mais Amor', por Marco Paulo (1981)

Marco Paulo não foi aclamado que não pelo seu público. Passou a fenómeno kitsch mesmo quando estava na moda. Aquilo em que assenta o seu sucesso e a sua fama é colocar-se sempre atrás do público, mesmo estando escancarado à sua frente. 'Mais e Mais Amor', lançada há 40 anos, é a 56ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Mais e Mais Amor'
Marco Paulo
(1981)

Os soldados portugueses vítimas dos combates em Guileje, Boé, Tite ou Canjambari eram enviados para o Hospital de Bissau. Muitas vedetas da época acalentavam os seus rapazes nessa sua missão de defesa dos territórios do Portugal ultramarino, do Minho a Timor. Uma das vedetas habituais era mais que uma vedeta. Era um camarada. Que assentara serviço militar em Bissau e que trocara os palcos da metrópole por aquele cenário devastador – mesmo na capital do território mais obstinado da guerra colonial.

Marco Paulo saíra do Barreiro para o Funchal poucos anos antes para acompanhar Madalena Iglésias e daí para os grandes palcos. Pisara o Festival RTP poucas semanas antes de embarcar para Bissau e estava agora ali, naquela terra cacimbada, a cumprir serviço administrativo e a acalentar os seus camaradas. Não o fazia contrariado. Marco Paulo nunca cantara nem cantaria contrariado – porque sabia que não se pode inverter o destino de quem mais nada tem que uma voz para ser maior.

Cresceu imbuído do trinar afinado de Joselito (outro que também passaria por África, por Angola, mais tarde, já adulto, associado a causas muito menos nobres do que as de Marco Paulo). Marco Paulo só queria cantar. Só sabia cantar. E ascendeu carreira pelos anos 70. Foram anos a contar o tempo até chegar a sua década, a década de 80.

Começou por cantar em palcos menores, mas todos os palcos eram maiores do que a cadeira onde Marco Paulo, em criança, se empoleirava em Mourão para soltar a sua voz melódica e infantil – tal como Joselito fazia nos filmes. A vida e o seu talento haveriam de lhe guardar palcos bem maiores do que aquelas cadeiras. Mas teria muita obra ainda que amargar. Como amargaria sempre – já no púlpito da canção ligeira em Portugal.

No seu auge, Carlos Cruz convidou Marco Paulo para um programa seu, dizendo-lhe olhos nos olhos que não gostava dele: ‘Não gosto de si. O público gosta, mas eu tenho o direito de não gostar.’ Mas o público gostava. Muito. E Marco Paulo fazia por merecer esse carinho. Respondeu, como só a gente boa poderia responder: paciência, mas devo dizer que sou um grande admirador do seu trabalho. E era. Sem hipocrisias, a responder com aristocracia a um acesso de soberba. E o público, porque Marco Paulo o merecia, aplaudiu-o. Longamente. Pelo que já tinha feito, pelo que estava a fazer e, sem o saberem, pelo muito que faria.

A pose de Marco Paulo é genuína. Não ensaia gestos nem lágrimas. Nunca ensaiou a entrega ao seu público. Marco Paulo encantou Portugal durante 50 anos, mas foi na década de 80 que firmou fama no seu país – no Portugal vidrado nos seus caracóis, na sua voz possante e sobretudo nas grandes canções que adaptava (pedindo licença) de êxitos espanhóis, sul americanos, alemães ou irlandeses, como é o caso desta canção, célebre na voz de Joe Dolan. Amava as mulheres, amava o povo, amava Portugal. Gostava de pessoas. Gosta de pessoas. E esse instinto não se treina, não se encena.

Nem por isso foi aclamado por outros que não o seu público. Os outros ‘grandes’ fugiam de si e dos seus concertos. Passou a ser um fenómeno kitsch mesmo quando estava na moda e no auge. E recolheu inimizades sem saber lidar com elas. Foi invejado, mas nem sempre respeitado. Porque achavam que a substância do seu sucesso assentava apenas na produção, nos caracóis e numas letras traduzidas à pressão. Não era. Aquilo em que assentava o seu sucesso, a sua fama, a veneração que o público sentia por ele, era o facto de se colocar atrás do público – apesar de se escancarar à sua frente. A maioria não compreendeu e não lhe concedeu o valor que merecia.

Quem lhe deu esse valor? A voz mais insuspeita da história. A maior de todos nós: Amália. Quando a Marco Paulo foi diagnosticado um cancro e internado, Amália saiu da sua muralha na Rua de São Bento e foi visitar o seu amigo ao hospital. De noite. Sem ele saber. Sem se verem sequer. Falou com médicos, com familiares, com os amigos mais chegados. Foi a única. Foi a grande Amália. Não se esperava menos dela e, ainda assim, continua a surpreender, sempre.

O que precisa mais de fazer para Marco Paulo ser respeitado? O grande respeito é mesmo só este. O respeito do povo, do seu público, dos seus, da grande Amália – a forrar com platina a entrega que sempre concedeu aos outros. Nos seus programas de televisão, de jeitos mal ensaiados e pose nervosa, fez o contrário do que tinham feito com ele (na grande maioria das vezes sem ele mesmo se aperceber do desdém que lhe vertiam): demonstrava carinho, consideração, admiração desmedida pelos seus convidados - como se estivesse ele na plateia como João Simão e não como o grande Marco Paulo.

Esse desprendimento tem recompensa, tem demasia. Tem demasia até hoje, quando já completou 50 anos de carreira. O público sentirá falta dele quando se retirar. Dos seus gestos largos. Ele sentirá falta das palmas que sempre lhe reservaram – mas a grande figura que é e sempre será Marco Paulo ficará eternamente associado a um Portugal simples, alegre e autêntico. E grato.

Eu preciso ver-te.
Quero saber
se vou perder-te.
Se vais dizer
que também doutro
tu gostas mais
mais, muito mais.
Amar tanto é demais.

Ouvir também: 'Sou Tão Feliz' (1967). Canção com que Marco Paulo se apresentou no Festival RTP desse ano. Classificou-se em último lugar (em 6 concorrentes) na final, depois de ter ultrapassado uma semifinal.