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40 anos da 4AD. A história da editora que tocou o coração de uma geração

Tinha uma estética e uma aura, artistas escolhidos a dedo, capas de discos que fariam escola, seguidores apaixonados. No início dos anos 80, Inglaterra via nascer a 4AD, e a música lançada pela editora obteria impacto além fronteiras, nomeadamente em Portugal. Uma história que se conta com Cocteau Twins, Dead Can Dance, This Mortal Coil, Bauhaus, Pixies e muito mais

Os anos que se seguiram à revolução punk alteraram para sempre o panorama editorial na musicalmente diversa e criativamente agitada Inglaterra. As notórias experiências que então foram colocadas em marcha – da Rough Trade à Cherry Red, da Factory à Mute, da Creation à Postcard – acabaram todas por estabelecer as linhas orientadoras que ainda hoje são seguidas quando o impulso de fundação de uma editora surge nalguma cabeça mais empreendedora e aventureira. No entanto, a 4AD, criação de Ivo-Watts Russell, talvez tenha ido um pouco mais longe do que as congéneres na imposição de uma aura de contornos muito claros e definidos.

A “casa” que ofereceu à posteridade a música dos Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Can Dance, Clan of Xymox, Bauhaus, Modern English, Birthday Party, Xmal Deutschland, Colourbox ou The Wofgang Press – para citar alguns dos mais notáveis exemplos da fase de arranque da editora na primeira metade dos anos 80 – parecia cumprir todas as alíneas do manual de regras para a criação de cultos duráveis: uma personalidade forte e carismática ao leme, uma filosofia artística bem delineada, claras coordenadas estéticas, uma imagem vincada e um perfil com vários traços comuns no que à personalidade dos artistas assinados dizia respeito.

40 anos depois, talvez essa sólida fundação ajude a explicar que a marca, ao contrário de outras suas contemporâneas, como as já citadas Factory ou Creation, continue activa. No próximo dia 2 de Abril, por exemplo, deverá ser lançado New Long Leg, álbum de estreia dos Dry Cleaning, grupo do sul de Londres que assim se juntará a uma longa linhagem de bandas que desde Novembro de 1980 começaram a ver os seus álbuns a serem lançados com aquele enigmático logótipo.

Hoje, a 4AD, porém, já não é uma operação comandada por uma única cabeça e integra um sólido colectivo de “indies”, o Beggars Group, casa mãe onde se abrigam também os catálogos da Matador, XL Recordings, Rough Trade e Young Turks. Claro que houve diferentes fases que permitiram à 4AD navegar os muito agitados últimos 40 anos de história da indústria discográfica. Ivo Watts-Russell, por exemplo, estabeleceu no arranque dos anos 90 uma parceria com a Warner na América que lhe sustentou a expansão das operações para Los Angeles, base usada para dilatar ainda mais o catálogo com bandas como Breeders, Belly, Red House Painters ou His Name Is Alive expandindo assim uma visão que já tinha levado o executivo, alguns anos antes, a apostar em nomes do lado de lá do oceano como Pixies ou Throwing Muses. Em 1994, , Ivo Watts-Russell vendeu parte da sua operação a Martin Mills, a cabeça da Beggars Banquet à época, editora que acabou mesmo por adquirir a totalidade da empresa na viragem do milénio, permitindo que o, digamos, misterioso e excêntrico executivo discográfico se isolasse algures no deserto do Novo México, onde ainda hoje reside.

Foi aí, nesse estado enfiado entre o Utah, Colorado, Arizona, Texas e Oklahoma, que Martin Aston, autor de Facing The Other Way – The Story of 4AD, foi encontrar Watts-Russell, descendente de uma família aristocrática caída na penúria, mais jovem de oito filhos que, como explicou sem rodeios ao autor do livro lançado em 2013, “nunca se relacionaram emocionalmente com nenhum dos pais”. Em 1977, quando contava apenas 23 anos, Ivo ingressou na Beggars Banquet Records e um par de anos mais tarde, juntamente com outro colega que trabalhava igualmente na loja da editora, Peter Kent, fundou o selo que haveria de se transformar em 4AD.

Foi com financiamento da própria Beggars que Ivo e Peter começaram a Axis, editora que teve breve vida em 1980 ao apresentar quatro singles a cargo dos Fast Set, Bearz, Shox e de uns tais Bauhaus que aí se estrearam com “Dark Entries” (canção que, aliás, inspirou o nome de uma editora que tem relançado material de arquivo de bandas e artistas como Severed Heads, Patrick Cowley ou Clan of Xymox). Quando perceberam que já existia outro selo com a mesma designação (na Alemanha...), Ivo Watts-Russell e Peter Kent acabaram por escolher 4AD, nome que encontraram num flyer, vago e por isso capaz de funcionar como uma tela em branco: “O que eu adorei em 4AD foi o facto de não significar nada”, explicou, mais tarde, Ivo a Martin Aston, “nenhuma ideologia, nenhuma polémica, nenhuma atitude. Noutras palavras, apenas música”.

A 4AD nasceu, portanto, como uma espécie de “boutique label” da Beggars, uma operação mais reduzida pensada como um laboratório para testar ideias e bandas que, caso obtivessem sucesso, poderiam depois transitar para o mais amplo catálogo da casa-mãe, o que viria a acontecer com os Bauhaus, precisamente. Em busca de uma mais vincada independência, os dois sócios da 4AD acabaram mesmo por adquirir a totalidade da sua marca (o que significa, provavelmente, que pagaram o empréstimo inicial de 2 mil libras que receberam da Beggars...), mas, em 1981, a dupla separou-se quando Peter decidiu criar outra etiqueta dentro da estrutura da Beggars Banquet, a Situation Two, que haveria de alcançar alguma notoriedade indie com bandas como os Charlatans, Gene Loves Jezebel ou Fields of the Nephilim.

Sob os auspícios de Watts-Russell, que recrutou o designer Vaughan Oliver, cabeça do estúdio criativo 23 Envelope, a 4AD não tardou a impor uma aura particular que cedo colheu os aplausos da imprensa especializada no Reino Unido, em busca permanente da “next big thing”. Martin Aston argumentou que o lado visual da 4AD na era em que ainda era comanda por Watts-Russell o fazia sentir-se como se “estivesse a olhar para uma feira de gente estranha e bela que não queria ser vista”. “O que será que uma editora tem que faz com que seja uma espécie de lugar onde queremos passar tempo?”, questionava no Guardian Richard Vine. “Quando apareceu no arranque dos anos 80, a 4AD parecia ser um mundo enigmático, o tipo de selo que se queria colecionar, que impôs uma ideia de ‘lealdade à marca’ muito antes de ter ocorrido a alguém que se podia falar de música nesses termos”.

Em 1981, a 4AD lançou álbuns dos Birthday Party (Prayers on Fire), Modern English (Mesh & Lace), do integrante dos Wire Colin Newman (Provisionally Entitled The Singing Fish) e de Matt Johnson, que o mundo não tardaria a reconhecer como The The (Burning Blue Soul). A banda que haveria de ser mais comummente associada à estética 4AD, porém, só se estrearia em 1982, com o álbum Garlands.

“O que tornou a 4AD tão colecionável”, explicou Martin Aston à Pitchfork em 2013, “foram as capas de discos. Eles investiam tanta atenção na embalagem e na produção dos objectos e tinham até um designer residente, Vaughan Oliver. Suponho que se poderia dizer que a 4AD e a Factory eram bastante semelhantes no facto das pessoas quererem ter tudo nestes catálogos porque os diferentes lançamentos pareciam seguir uma certa estética aural e visual, embora a Factory tivesse mais bandas que soavam umas às outras do que a 4AD alguma vez teve. O Ivo tinha uma cena com os números de catálogo e as pessoas queriam ter tudo. Vaughan desenhava calendários e conjuntos de posters e cada um teria o seu próprio número de catálogo. E quando as editoras fazem isso, isso dá aos items um certo peso.”

Essa aura firmemente definida nos primeiros anos ficou sobretudo associada a trabalhos de bandas como os Xmal Deutschland (Fetisch, 1983), Colourbox (Colourbox, 1983), This Mortal Coil (It’ll End in Tears, 1984, Filigree & Shadow, 1986), Clan of Xymox (Clan of Xymox, 1985, Medusa, 1986), Wolfgang Press (The Legendary Wolfgang Press And Other Tall Stories, 1985), Dead Can Dance (Spllen and Ideal, 1986) e, claro, Cocteau Twins (Victorialand, 1986) e o projecto normalmente denominado como Vozes Búlgaras (Le Mystére des Voix Bulgares Vol 1, 1986), trabalhos para os quais Vaughan Oliver imaginou “embrulhos” que pareciam evocar, como referia Aston, “a beleza que mascara segredos, sentimentos submersos em sonhos ansiosos, medo suprimido e esperança e raiva”.

O catálogo começou a expandir-se em 1987 com lançamentos dos Pixies (Come on Pilgrim) e Throwing Muses (o álbum de estreia homónimo da banda de Kristin Hersh e Tanya Donelly), com Ivo a perceber muito rapidamente que a cena alternativa que também se desenhava do outro lado do Atlântico continha igualmente propostas estéticas avançadas e desafiantes.

Watts-Russell, dono de uma personalidade forte e complicada, ultra-emotivo e dado a depressões, parecia atraído por figuras igualmente problemáticas e complexas, como Robin Guthrie, por exemplo, que ao mesmo tempo que contribuía para fazer dos Cocteau Twins um pilar do dream-pop ia mergulhando nos abismos das drogas pesadas: “É como um cisne”, referia Marin Aston à Pitchfork, “Acima da linha de água vemo-lo a mover-se aparentemente sem esforço – mas sob a superfície, as patas têm que se mover muito. E por baixo destas capas belíssimas e desta música extraordinária havia montes de relações disfuncionais e o tipo de conflitos que se geram quando as ambições artísticas estão enredadas nisso”.

Nas páginas de Facing The Other Way conta-se que os conflitos com os Cocteau Twins tornaram-se tão dolorosos que Ivo abandonou um dos seus concertos lavado em lágrimas logo que eles começaram a tocar o primeiro tema. O autor dessa história oficial da 4AD, na longa entrevista que serve como peça central do livro, perguntou ao executivo entretanto reformado porque é que ele não tentou sanar os problemas, Ivo não disfarçou o seu espanto perante tal sugestão: “Isso implicaria falarmos de sentimentos. E eu tive que ter uma tonelada de terapia de grupo só para ser capaz de fazer isso”.

O ambiente não seria por isso mesmo saudável. Rudy Tambala dos AR Kane, irónico, descreve esse tempo como “tudo muito bonito e precioso, toda a gente de cabelo rapado e vestida de preto” ao passo que Momus, outro dos artistas que inscreveu o seu nome no catálogo da 4AD se refere à editora como “um selo de mesa de café com uma visão estética do mundo levemente burguesa que apelava a outras pessoas de mentes igualmente frágeis”.

Depois dos anos 90 se instalarem nos calendários, a 4AD continuou a lançar trabalhos de bandas como Cocteau Twins, Pixies, Throwing Muses ou Dead Can Dance, mas também acolheu no seu catálogo registos de grupos como Breeders, Lush, His Name is Alive, Pale Saints, Ultra Vivid Scene, Heidi Berry, Swallow, Red House Painters, Unrest, Bettie Serveert, Frank Black, Lisa Germano, Tarnation, Mojave 3, Dif Juz ou Gus Gus, numa permanente busca por novas sonoridades não deixando, ainda assim, de explorar diferentes nuances de uma aura revestida de uma certa melancolia.

A primeira década deste milénio, com Watts-Russell já em recolhimento no seu auto-exílio no Novo México, foi desenhada com trabalhos de vários dos artistas já mencionados, mas também de novas adições ao catálogo por via de trabalhos dos Piano Magic, Mountain Goats, 50 Foot Wave, TV ON The Radio, Mark Lanegan Band, Cass McCombs, The National, M Ward, Scott Waler, Johan Johansson, Blonde Redhead, Beirut, Deerhunter, Department of Eagles, Bon Iver ou Tune-Yards e St. Vincent. Uma ampla selecção de talentos que é igualmente representativa dos novos significados que a palavra “indie” foi conquistando já na era da Internet.

Na última década, o catálogo não só se solidificou com novos lançamentos de vários dos nomes já mencionados, mas ainda se expandiu com entradas significativas de Twin Shadow, Efterklang, Ariel Pink, Zomby, Gang Gang Dance, Iron and Wine, SpaceGhostPurrp, Purity Ring, Grimes, bEEdEEgEE, Future Islands, U.S. Girls, Holly Herndon, Tim Hecker, Liima, Aldou Harding, Bing & Ruth, SOHN, The Lemon Twigs ou Big Thief, todos eles com algo a oferecer a esse “indie continuum” em permanente reinvenção.

O calendário editorial dda 4AD em 2021 arrancou logo a 1 de janeiro com a Rave Edition de Miss Anthropocene de Grimes, Ex:Re With 12 Ensemble de Ex:Re, a reedição dos dois primeiros álbuns dos The National, e ainda as novidades Sketchy de Tune-Yards e o anúncio da já mencionada estreia em álbum dos Dry Cleaning, marcada para 2 de Abril. Ou seja, longe de estar esgotada, a marca 4AD conseguiu não ficar presa ao considerável lastro coleccionado neste dilatado passado de 4 décadas através de obras-chave de nomes que são hoje tidos como incontornáveis referências para uma pop menos adaptável aos moldes do sucesso mainstream e continua a apontar caminho amparando com a sua intocada aura artistas que insistem em fazer diferente.

Recorde alguns dos álbuns mais emblemáticos da 4AD:

Bauhaus – “In the Flat Field” (1980)
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Bauhaus – “In the Flat Field” (1980)

The Birthday Party – “Prayers on Fire” (1981)
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The Birthday Party – “Prayers on Fire” (1981)

Cocteau Twins – “Treasure” (1984)
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Cocteau Twins – “Treasure” (1984)

This Mortal Coil – “It’ll End in Tears” (1984)
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This Mortal Coil – “It’ll End in Tears” (1984)

Xmal Deutschland – “Tocsin” (1984)
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Xmal Deutschland – “Tocsin” (1984)

Le Mystère des Voix Bulgares – “Le Mystère des Voix Bulgares” (1986)
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Le Mystère des Voix Bulgares – “Le Mystère des Voix Bulgares” (1986)

Dead Can Dance – “The Serpent's Egg” (1988)
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Dead Can Dance – “The Serpent's Egg” (1988)

Pixies – “Doolittle” (1989)
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Pixies – “Doolittle” (1989)

Pale Saints – “The Comforts of Madness” (1990)
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Pale Saints – “The Comforts of Madness” (1990)

The Breeders – “Pod” (1990)
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The Breeders – “Pod” (1990)

Cocteau Twins – “Heaven or Las Vegas” (1990)
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Cocteau Twins – “Heaven or Las Vegas” (1990)

Throwing Muses – “The Real Ramona” (1991)
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Throwing Muses – “The Real Ramona” (1991)

Red House Painters – “Down Colorful Hill” (1992)
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Red House Painters – “Down Colorful Hill” (1992)

Belly – “Star” (1993)
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Belly – “Star” (1993)

The Breeders – “Last Splash” (1993)
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The Breeders – “Last Splash” (1993)

Red House Painters – “Red House Painters” (1993)
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Red House Painters – “Red House Painters” (1993)

Mojave 3 – “Ask Me Tomorrow” (1995)
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Mojave 3 – “Ask Me Tomorrow” (1995)

Scott Walker – “The Drift” (2006)
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Scott Walker – “The Drift” (2006)

Bon Iver – “For Emma, Forever Ago” (2007)
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Bon Iver – “For Emma, Forever Ago” (2007)

The National – “High Violet” (2010)
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The National – “High Violet” (2010)

Deerhunter – “Halcyon Digest” (2010)
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Deerhunter – “Halcyon Digest” (2010)

Ariel Pink’s Haunted Graffiti – “Before Today” (2010)
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Ariel Pink’s Haunted Graffiti – “Before Today” (2010)

St. Vincent – “Strange Mercy” (2011)
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St. Vincent – “Strange Mercy” (2011)