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Rita Carmo

Álvaro Covões: “Queremos salvar o verão. Mas se os ingleses não puderem viajar, não pode acontecer nada”

Álvaro Covões, promotor de espetáculos e membro da direção da APEFE, falou à BLITZ sobre as expectativas que tem no futuro próximo da música ao vivo em Portugal, nomeadamente o seu NOS Alive, deixando críticas contundentes. “A covid veio mostrar que as políticas culturais não nos levaram a lado nenhum. Não temos sequer artistas para alimentar o mercado local”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Na semana em que vários agentes culturais foram ouvidos no Parlamento, Álvaro Covões, que marcou presença na audiência, falou à BLITZ sobre alguns dos temas debatidos. O diretor do NOS Alive e presidente da APEFE (Associação de Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos) mostrou-se muito preocupado com a possibilidade de, este verão, o Reino Unido voltar a proibir as viagens para Portugal, devido à pandemia. A falta de artistas nacionais em número suficiente para organizar vários espetáculos de grande dimensão e também a transformação de salas de espetáculos em hotéis e condomínios de luxo foram outro dos pontos abordados por Álvaro Covões.

Sobre o verão que aí vem, e concretamente sobre o NOS Alive, que está marcado para julho, no Passeio Marítimo de Algés, o promotor reage com cautela: "Temos de esperar e ver o que se passa na Europa. Primeiro foram os festivais de junho a cair, agora vamos ver o que acontece aos de julho. Com tranquilidade, temos de ver se há possibilidade de acontecer ou não", diz, considerando que "genericamente está a haver uma precipitação maior que no ano passado. O que procuramos, acima de tudo, é salvar o verão. Se salvamos o verão todo ou não, já depende [de muitos fatores]. Se os ingleses não puderem viajar, não pode acontecer nada", acredita.

A partir de 19 de abril, é novamente permitida a realização de espetáculos de música, com limitação de horários. A Everything Is New, companhia a que Álvaro Covões preside, anunciou esta semana numerosos concertos de artistas nacionais no Campo Pequeno, em Lisboa, e no Pavilhão Rosa Mota, no Porto, a acontecer em abril e maio - quase todos são reagendamentos de espetáculos que tiveram de ser adiados na sequência do último confinamento. Sobre a lotação máxima que estes espetáculos terão, Álvaro Covões confirma que será de 50%, tal como nas datas originais, lamentando porém que as regras não tenham sido comunicadas de forma clara e atempada pelo Governo. "Vivemos numa época de: 'desenrasquem-se', mas temos de dar trabalho às pessoas. Não podemos deixar o setor morrer. As salas abrem dia 19 e nós demorámos uma semana a saber as horas [a que os concertos podem acontecer]; os restaurantes saíram com horas, nós não", critica.

"As políticas culturais falharam, porque não temos sequer artistas para alimentar o mercado local"

Esta semana, no Parlamento, as entidades culturais debateram a elaboração do estatuto do profissional da cultura, criticaram a ausência de referências ao setor no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e lamentaram o desconhecimento de regras sobre o retomar da atividade cultural a partir de 19 de abril, com a reabertura de cinemas, teatros e salas de espetáculos.

Para Álvaro Covões, a pandemia de covid-19 veio pôr a descoberto as fragilidades de um setor que considera ser negligenciado. "A covid veio mostrar que as políticas culturais [em Portugal] não nos levaram a lado nenhum", afirma. "Porque temos os hábitos culturais mais baixos da Europa: basta ver que, em 2019, venderam-se seis milhões de bilhetes [para espetáculos]. Se tivermos em conta os turistas ou um mercado muito interessante dos concertos ao vivo, que são os alunos de Erasmus que estão cá, [significa provavelmente] que cada português compra um bilhete de dois em dois anos."

O homem-forte dos NOS Alive lembra ainda que, à semelhança do que acontece com o cinema, Portugal não tem produção própria suficiente para alimentar grandes espetáculos. "Vamos imaginar que voltamos à nossa vida normal, mas que os estrangeiros não podem cá entrar e criamos aqui uma bolha. Como é que o setor dos espetáculos pode funcionar com tão poucos artistas?", interroga-se. "Isto é uma realidade. Se fizermos uma lista de 20 espetáculos para fazer no Coliseu ou no Campo Pequeno, ou na Super Bock Arena, vemo-nos aflitos quando chegarmos ao 15º. Agora imaginem um ano inteiro. Isto só demonstra que as políticas culturais falharam, porque não temos sequer artistas para alimentar o mercado local", defende.

Álvaro Covões revelou ainda que, na audição parlamentar da cultura, referiu, enquanto presidente da APEFE, a falta de salas de espetáculos. "Fala-se muito na precariedade do trabalho do setor cultural: há uma grande preocupação porque as pessoas são precárias e há pouco trabalho. Mas para haver trabalho é preciso haver locais de trabalho. E nós temos uma grande falta, sobretudo em Lisboa e no Porto, de teatros", aponta, dando o exemplo das companhias teatrais. "Há companhias de teatro que só conseguem apresentar metade das peças que querem, por não terem espaço. Não tendo espaço, não contratam atores, técnicos. Claro que, assim, o trabalho é cada vez mais precário."

Para Álvaro Covões, a história das salas de espetáculos em Portugal "é uma tragédia". O promotor dá o exemplo de dezenas de cinemas e teatros de Lisboa, como o Condes, o Monumental ou o Odeon, transformados em restaurantes, hotéis ou condomínios de apartamentos de luxo. "Estas são as políticas culturais de Portugal, independentemente do partido que estiver no Governo ou nas câmaras municipais. Como é que podemos ter setor? Anda sempre tudo com a cultura na boca, mas é da boca para fora", lamenta. "Privilegiou-se a especulação imobiliária e deixou-se destruir o património cultural."

Na audição parlamentar desta terça-feira, a Associação Espetáculo - Agentes e Promotores Portugueses (AEAPP), a Associação Promotores de Espetáculos, Festivais e Eventos (APEFE) e a Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos (APSTE) defenderam propostas como o alargamento do prazo do fim das moratórias bancárias até setembro de 2022, a isenção de pagamento de Segurança Social até junho de 2022, para empresas com mais de 70% de quebra de faturação, uma revisão da lei do mecenato e a criação de protocolos específicos com as autarquias, para que invistam no setor cultural.

As sete entidades presentes abordaram ainda a elaboração do estatuto do profissional da cultura, defendido recentemente por Adolfo Luxúria Canibal, vocalista dos Mão Morta, no podcast Posto Emissor, da BLITZ, como forma de salvaguardar os trabalhadores do setor.