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Pink Floyd, afastados de Roger Waters desde 1985, exceto na reunião pontual para um concerto em 2005

Rebobinanços #12: “Animals”, dos Pink Floyd (1977)

Traçaram as linhas que pautaram o psicadélico e o progressivo. Década após década, a régua e esquadro. Sempre um passo à frente do seu tempo e do tempo de todos os que lhes seguiram os passos. Bem-vindos ao futuro... em 1977, no 12º 'rebobinanço', um olhar para os álbuns que deixaram a sua marca

David Alves

David Alves

Editor de imagem

Foi batizada de Pink Floyd graças a Syd Barrett, o primeiro guitarrista. Uma força criativa ímpar, um visionário com uma mente altamente complexa, apenas comparado, nos anos 60, a Brian Jones, guitarrista de Rolling Stones e também ele génio incompreendido. Na verdade, o nome do grupo é muito mais simples de explicar do que a sua música. É simplesmente a fusão de dois músicos de Blues norte americanos de que Barrett era fã: Pink Anderson e Floyd Council. Só isso.

Simples é também "Animals", o décimo álbum da banda, já há muito sem Barrett ao leme. Os Pink Floyd resolveram deixar de lado a tecnologia que os caracterizava e simplificaram todos os processos. A composição, a gravação, a produção. Não tinha a maquinaria que estava presente em "The Dark Side of The Moon" (1973) ou em "Wish You Were Here" (1975), mas esse facto não fez com que "Animals" fosse menos extraordinário que os seus antecessores.

Em 1975, os Pink Floyd compraram um edifício de 3 andares em Londres e converteram-no em estúdio de gravação. Nascia assim o Britannia Row Studios, que iria funcionar até 2015. Pela primeira vez a banda gravava num estúdio que era seu, sem condicionantes de nenhuma ordem. Era o seu espaço. Os Pink Floyd sentiam-se em casa, tinham vontade de fazer diferente e de ser arrojados sem deixarem de ser os Pink Floyd. Isso era o mais importante. Conseguiram-no sem grande espanto, gravando um disco absolutamente marcante.

Um porco insuflável sobrevoa a estação termoelétrica de Battersea, em Londres (Inglaterra), em 2011

Um porco insuflável sobrevoa a estação termoelétrica de Battersea, em Londres (Inglaterra), em 2011

Getty Images

Era um disco tão atual em 77 como é agora em 2021 e como era em 1945 quando George Orwell lançou "O Triunfo dos Porcos", onde Roger Waters se inspirou. A temática da luta de classes, da corrupção, da decadência dos valores que deveria pautar uma sociedade justa. Tudo isto é reduzido a 3 animais. Os cães: os predadores e consequentemente os oportunistas que aproveitam todas e quaisquer falhas para atacar em proveito próprio - a cobardia exposta. Os porcos: a banca, os líderes corruptos, o egoísmo ganancioso, o capitalismo voraz e desmedido. As ovelhas: os explorados, os espezinhados pelo sistema, as presas fáceis - o alvo perfeito para que cães e porcos enriqueçam de forma obscena, descontrolada e megalómana.

Ironicamente, a capa do disco é um porco a sobrevoar um complexo industrial. A central termo-elétrica de Battersea, no sul de Londres. Ou seja, é o próprio suíno que, do alto, observa a podridão e a decadência da sociedade. Apesar de tudo isto, o álbum arranca e termina com uma história de amor: Roger Waters inspirado, escreveu e assumiu a guitarra acústica em "Pigs On The Wing", a parte 1 e a parte 2, sozinho. Segundo o próprio, a inclusão destes dois temas fez com que o disco não fosse apenas um grito de revolta. Trouxe um toque pessoal e afetivo. Mostra que pode haver amor neste mundo consumista.

"Animals" começa a ser 'cozinhado' em 1974 com os temas 'Sheep' e 'Dogs' a serem apresentados ao vivo em França ainda com versões amplamente experimentais. As letras iniciais sofreram alterações até serem oficialmente estreadas neste disco na sua forma final. "Dogs" dava pelo nome de "You Gotta Be Crazy" e a "Sheep", reza a lenda, chamava-se "Raving And Drooling".

O único tema do disco em que a autoria não se cinge apenas a Roger Waters é "Dogs". Teve a parceria valiosíssima de David Gilmour, o soberbo guitarrista que substituiu Barrett em 1967 - foi muito pelo seu engenho, pela sua arte e pelo seu virtuosismo que os Floyd alcançaram o que alcançaram ao longo dos anos. A bem da verdade, podemos perfeitamente atribuir percentagens iguais de relevância aos 4 elementos. Também foram importantes Richard Wright, com os seus teclados infinitos de soluções harmoniosas e ambiências absolutamente distintas, e o enorme Nick Mason, com as suas mãos de veludo numa bateria que marcava os ritmos numa banda com temas extremamente complexos.

"Dogs" fala de um investidor da alta roda. Do seu narcisismo. De como todos os meios justificam o seu fim último. O saciar da sua ganância, passando por cima de tudo e de todos. Tudo na sua aparência é fachada: um ser desprovido de quaisquer valores, oco, absolutamente fútil e mentiroso. Acaba sozinho, velho e com cancro. É arrastado para o fundo por uma pedra metafórica.

Segue-se "Pigs (Three Different Ones)". Temos os porcos ricos e poderosos. Na verdade, são estes os mais poderosos em toda a cadeia alimentar presente no álbum. Os grandes devoradores da sociedade. Os mais falsos de todos. De facto, são eles quem verdadeiramente exploram as ovelhas e comandam os cães. Temos um tema muito blues, com Waters a tocar guitarra ritmo (em todo o disco, só toca baixo em "Dogs") e a assegurar a voz, com Gilmour a tocar um baixo 'fretless' e a guitarra solo naturalmente. Aparece também, pela primeira vez num tema da banda, uma talkbox para se aproximar do grunhir dos suínos. Um tema que se tornou muito rapidamente emblemático.

"Sheep" é o fecho deste ciclo, desta crítica explícita. As ovelhas, aquelas que mais sofrem nas mãos de todos aqueles que os cães e os porcos representam. Ao rebanho não sobra grande opção a não ser deixar passar o tempo de forma vagarosa. O melhor é não levantar problemas. Mansas e obedientes, as ovelhas têm plena consciência de que estão sempre a ser observadas. Sabem que o perigo é bem real. Sabem que servem apenas de alimento para os demais. O melhor mesmo é ficar na sombra para conseguirem ter uma vida longa e minimamente decente. Infelizmente será sempre assim.

O disco acaba como começa. Uma rutura com todo o fatalismo. Uma lufada de esperança, de humanidade. "Pigs on The Wing" é simples, tanto na letra como na música, mas é de uma beleza atroz.

Os Pink Floyd influenciaram novas gerações de músicos e de ouvintes ávidos. Tornaram-se maiores do que eles próprios. Atravessaram décadas com álbuns absolutamente visionários e revolucionários. Sempre que se pensava que não conseguiriam fazer diferente e melhor, mostravam o contrário. Surpreenderam sempre, inovaram sempre, superaram-se sempre. Quebraram todas as barreiras: novos métodos de gravação, de produção, de composição iam surgindo a cada álbum. Estão há muitos anos em pousio, mas não serão esquecidos.

Bons rebobinanços.

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