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Ornatos Violeta em 1999

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101 canções que marcaram Portugal #55: 'Ouvi Dizer', pelos Ornatos Violeta (1999)

Foi a canção que fez detonar os Ornatos Violeta. Tinha elementos de nacional cançonetismo, de dandismo, de kitsch, de vanguarda, de excesso e de delicadeza – que perfazem muito da génese do público que os venera até hoje e que os eleva à condição de culto. 'Ouvi Dizer' é a 55ª de 101 canções que marcaram Portugal

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petite histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Ouvi Dizer'
Ornatos Violeta
(1999)

A vivência em comum deixara de ser estimulante. As canções dos dois álbuns que editaram estavam para eles saturadas. Os membros dos Ornatos Violeta partilhavam a casa e a criação. Dez anos em conjunto corroera-os e cada um zarpou para novos itinerários musicais. Todavia, quase vinte anos depois, Manel Cruz, na preparação de um regresso fugaz da banda, ouviu de fio a pavio esses dois álbuns e comoveu-se com quase todas as canções. Tudo fazia sentido, afinal. Afinal, depois de muitos projetos entretanto, depois de muito mais tarimba técnica e narrativa, depois de muito mais empenho, aquelas canções ora amargas ora doces, mais ingénuas, dos Ornatos Violeta conseguiam ainda comunicar com quem as ouvia – ainda que quem as ouvisse naquele momento fosse o seu criador.

A popularidade suprema dos Ornatos Violeta precede a erupção da Internet. A diferença hoje entre o mainstream e o ocaso depende da otimização dos recursos digitais – de que a banda de Manel Cruz não dispunha. Mas o que faltava em meios sobrava em tenacidade e talento. Os Ornatos Violeta tornaram-se num fenómeno de culto em Portugal – acima de tudo pela qualidade da sua música, mas sobretudo pela sua capacidade de comunicar, de fazer inflamar sentidos.

Em “Cão”, o seu primeiro álbum, havia a vontade de fazer tudo de uma só vez, com excesso, sanha e sofreguidão. “O Monstro Precisa de Amigos” é já um álbum mais maduro, nebuloso e introspetivo. ‘Ouvi Dizer’, a canção que fez detonar os Ornatos Violeta, era uma canção redonda, vivendo musicalmente na mesma margem estreita que separa o amor e a fúria, a brandura e a cólera. É uma canção sobre um amor despedaçado, sobre orgulho ferido, sobre perda e traição – com que o seu público (e toda a humanidade) se sentia identificado. Mas sobre essa temática já se criaram milhentas canções em Portugal – até porque a nossa génese se associa à angústia – e nem por isso se perpetuaram.

‘Ouvi Dizer’ era sim uma sinédoque do que queremos ouvir, do que queríamos dizer, do que nos descreve quando um amor nos foge. Tinha elementos de nacional cançonetismo, de dandismo, de kitsch, de vanguarda, de excesso e de delicadeza – todos estes elementos em harmonia. Como condimento, tinha Vítor Espadinha – que se vestiu de si mesmo, envergou a pose do marialva aprumado e fez infletir a canção, dando-lhe uma elegância extravagante. As palavras que murmura no final poderiam ser registadas a grafite em muros brancos – para fazer lembrar quem passasse que o amor haverá mesmo de ser sempre uma doença. ‘Ouvi dizer’ é por isso uma canção épica e burilada. Deu visibilidade aos Ornatos Violeta e fê-los serem hoje lembrados e ansiados.

Manel Cruz não sabia encarnar o símbolo de uma geração (sempre) insatisfeita e em ebulição. Não queria encarnar essa simbologia, materializar esse estatuto. Porventura fosse (seja) um músico mais comprometido com a narrativa do que com a transversalidade comercial. E fez os Ornatos Violeta saírem da cena que estavam a começar a criar. Atrás ficaram dez anos de experiências estilísticas heterogéneas e que alimentaram a sua essência errante: as baladas escorreitas, o pop-cabaret, o psicadelismo, o rock áspero e as letras esculpidas com minúcia.

Os Ornatos Violeta fizeram uma carreira ainda assim longa. Tiveram um percurso sinuoso na música portuguesa, com pulos e reviravoltas – que seria a matéria de que se alimentariam os membros da banda depois de esta terminar.

A euforia que se seguiu a “O Monstro Precisa de Amigos” foi a senha de que precisaram para se despedir – como um contrassenso. Na sua fase adulta. No seu melhor momento. No cume da sua pujança. De supetão. O seu público teve por isso pouco tempo para deles se despedir. Naquela queima das fitas de 2001, no seu último concerto, viram do palco cartazes de súplica para que a banda não terminasse e para que Manel Cruz continuasse a ser o seu místico timoneiro. Mas os Ornatos Violeta já tinham feito muito e muito bem. Já se tinham esforçado para seduzir uma geração. Nunca esperaram que essa mesma geração tivesse de se esforçar por gostar daquilo que faziam. E foi sobretudo por essa entrega que foram aclamados.

Regressaram ainda. Regressarão decerto. Vêm e virão colher o reconhecimento de um assombro mútuo que não se esqueceu. Os Ornatos Violeta são um símbolo do que poderá representar não uma canção, não um álbum, não uma figura, mas uma associação de muitos fatores (líricos e concretos) - que se congregam para os fazer ascender à condição de culto.

Alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura
Ora amarga, ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doença.

Ouvir também: ‘Capitão Romance’. Do mesmo álbum, contou com Gordon Gano. O vocalista dos Violent Femmes perguntou se a sua pronúncia em português se assemelhava à da alemã Nico, integrante dos Velvet Underground, quando esta cantava em inglês. Sim, a sua pronúncia soava estranha, alienígena – mas a canção assim saiu: melodramática e festiva, como um paradoxo. Chapeau.